Há uns meses atrás, no Festival de Berlim, Wim Wenders viria a proferir uma afirmação que se revelaria extremamente controversa no círculo artístico: “Temos de nos manter fora da política, porque se fizermos filmes políticos então entramos no campo da política. Mas [o cinema é] o contrapeso da política, o contrário da política. O nosso é o trabalho do povo, não é o dos políticos.

Sim, a arte é política. Toda ela é, começando pelos financiamentos públicos (e privados!), e passando sim pelo circuito de festivais… mas e se as melhores intenções políticas de uma obra formarem em si um escudo que torne difícil discutir a qualidade cinematográfica efetiva? 

Eis o que me parece ter acontecido com “A Voz de Hind Rajab”, disponível na plataforma Filmin Portugal, e nomeada ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Um filme que podemos, no melhor dos casos, dizer que é (perversamente) competente no seu trabalho de edição entre a voz verdadeira da criança que morreu graças a um enésimo ataque do exército israelita no seu processo de genocídio ainda em curso, e da ficção minimalista que mostra as pessoas que a ouvem, e que no fundo somos todos nós os espectadores. O uso da voz real (e num par de sequências, uma troca de vozes e corpos entre o filmado e o real), assumidíssima pela realizadora Kaouther Ben Hania, e escarrapachada no próprio filme – questiona por si só quais serão as fronteiras da ética cinematográfica na passagem de uma boa mensagem: o que separa afinal uma voz de um corpo (de uma criança ainda por cima) morto da ressurreição de atores mortos pela inteligência artificial, por exemplo.

O cinema tem este poder, o da manipulação emocional. Ainda no passado mês, tivemos um documentário sobre uma das grandes professoras dessa “arte”: Leni Riefenstahl, cineasta alemã que ajudou a validar o regime nazi com as suas imagens de propaganda.  Mas o motivo pelo qual ainda falamos dela quase um século depois, é precisamente porque as imagens não eram meramente acessórios políticos, tinham espessura; eram inequivocamente belas, pensadas em detalhe, e a sua linguagem fez escola.

O que fica de Hind Rajab se não um relato, um simulacro, que ainda por cima faz questão de mostrar o quão fidedigno é? Que a história desta criança que podia e devia ter sido salva, agora em filme, consiga “converter” ainda mais uns quantos corações à causa palestiniana parece por si dar graças pela sua existência, por panfletária que seja. Talvez sim, toda a arte seja política, mas as melhores intenções políticas podem elas próprias mascarar métodos menores… 

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