“Não te preocupes. Nada é original. O que importa é o teu ponto de vista.”
No recurso a figuras femininas abalroadas pelo quotidiano, pela rotina e pelo conformismo social que as envolve, vemos como essas forças as corroem, as desgastam, conduzindo-as ao desespero e ao instintivo. Em “Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975), a homónima protagonista com direito a morada no título (Delphine Seyrig) deixa-se arrastar por esses impulsos, enquanto Chantal Akerman a filma no exercício das suas funções, quase como um ser passivo aprisionado em ciclos repetitivos e exaustivos.
Noutro tempo, noutro contexto, Lina, estilista argentina, encontra-se igualmente à mercê de uma ruptura. A estrutura familiar, profissional e emocional fragmenta-se após a atribuição de um prémio em Genebra. A meio da cerimónia, parte rumo ao vazio, envergando um casaco azul-celeste num dia cinzento, ainda assim estranhamente ventoso, deixando-se levar à deriva de uma qualquer entidade magnificada. O gesto extremo surge com o salto para as águas do Rio Ródano, momento a partir do qual se instala uma sensação de dissociação, como se a própria pele já não lhe pertencesse, ou antes, como se o corpo cabeludo (pasmem-se!) deixasse de ser um território reconhecível. De regresso a Buenos Aires, seguem episódios de resistência contra não-navegados e quase sobrenaturais correntes.
“Las Corrientes”, de Milagros Mumenthaler, desenvolve-se numa linhagem próxima da sensibilidade antoniana, privilegiando uma câmara que recusa a linearidade narrativa em favor de uma experiência sensorial. Aqui, porém, a câmara não se distancia da protagonista; não deriva, não a abandona, privilegiando-se de uma própria vontade como muitos exemplares de Antonioni. Pelo contrário, persegue-a de forma quase obsessiva (não apenas física como também mental), como uma extensão inquieta da sua consciência. Lina confronta-se com essa turbulência interior: a repulsa pelo doméstico, os pensamentos intrusivos que ressoam entre o real e o imaginário, a tentativa de se reencontrar no meio de um vazio que tanto pode ser de aceitação como de igual vertigem.

As “correntes” tornam-se visíveis enquanto forças invisíveis (sociais, emocionais) que a aprisionam a papéis pré-definidos: mãe, esposa, cúmplice silenciosa de uma vida normativa. Neste processo, Lina ensaia uma performance de destruição: do lar, da família, do seu “eu” criativo e profissional. Deseja outras vidas, outras possibilidades de existência. Numa determinada cena, em que um farol erguido em Buenos Aires toma o cenário, a meio da narrativa, essa pulsão torna-se formal: sob a permissão mental da protagonista, a câmara abandona-a momentaneamente para seguir outras personagens, como se espreitasse vidas alheias, enquanto Lina, num estado de dormência quase serena, parece querer adivinhar aquilo que permanece oculto na ausência. A protagonista rescinde da sua condição de protagonista, do seu egocentrismo, cede-se à comatose de necessidade de secundarização.
“Las Corrientes” emerge, assim, como um objecto de forma livre: um filme que encapsula a dor de uma mulher que anseia descanso e passividade, ao mesmo tempo que se debate com o estereótipo da “mulher emancipada e forte”, apropriando-se, paradoxalmente, de alguns dos seus pressupostos. Sob a pele de Isabel Aimé González Sola, Lina assume contornos quase sereiescos: uma figura que, noutras geografias, poderia habitar as fábulas contemporâneas de Christian Petzold (algures entre Nina Hoss e Paula Beer, como um possível “elo perdidos”), seduzindo-nos pela sua angústia, pela dúvida persistente de continuar a respirar mais um dia.
Um filme que pede proximidade, talvez até afecto, mas nunca condescendência.

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