Uma perda incalculável aconteceu a 29 de Julho de 2021 – era uma tragédia anunciada, segundo os cabeçalhos de jornais e artigos vários que entretanto transformaram-se em slogan apocalíptico – o incêndio na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, era já visto como coisa de premonição de Nostradamus. Deste lado, simplesmente, a secura tomou conta. Parece não existir mais espaço para frustração, essa morrera faz tempo, dando lugar à impotência perante um país à beira da sua autodestruição cultural. Filmes, documentos, outros artefactos históricos, aliás a História audiovisual… esperem… História Brasileira perdeu-se aqui, reduzida a cinzas, e nada mais que isso. O luto, esse, pronto a ser vestido por alguns, visto que as forças máximas do país da Ordem e do Progresso pouco ou nada lhes interessam. Um misto de indiferença e satisfação sob um derrotado “inimigo” (o triunfo dos medíocres e da mediocridade). Não vamos resumir a ideologias políticas, escolhas partidárias ou um mero activismo de rede social que aponta o dedo para o próximo sem olhar ao seu redor, a cultura sempre foi um alvo a abater em terreno de incompetência política, isso não é perspectiva alguma, é um certeiro facto.
A Cinemateca Brasileira encontrava-se ao abandono, sem manutenção, sem recursos humanos e sem compaixão, por mais avisos que o caso tenha suscitado, ninguém quis saber, Governo inclusive e a camada artística também. Não basta manifestos nem notas de repúdio ou de censura, para este tipo de sujeitos sentados nos seus devidos tronos de palha, tais são palavras em demasia, papel desperdiçado para quem às instituições nada deve. Há que seguir uma outra via de resistência, não das armas, mas pelos actos e a Cinemateca necessitava dos seus actos e dos seus actores (onde estavam eles quando o espaço mais precisava?).
Na Cultura, ninguém parece querer agir, todos reagem passivamente, aguardando por aquele ombro amigo que nunca chega. A situação da Cinemateca Brasileira tornou-se um arrasto, um prolongamento que nos levou ao inevitável. Quem ganha com a perda de um legado cinematográfico? Simplesmente quem deseja implementar uma outra História, uma outra forma de vida, um outro país. Quem perde? Todos nós. Não apenas os brasileiros, mas todos nós.
Consequentemente, entre as perdas estão o muito espólio do cineasta Glauber Rocha. Em entrevista à Globo, Paloma Rocha, filha do realizador, declarou que 100 entre as 300 caixas correspondentes ao autor de “Barravento” e de “Terra em Transe“ foram consumidos pelas chamas. Falamos de filmes, documentos, ensaios e outros retalhos memorialísticos de Rocha… desvanecidos! O que poderemos fazer a seguir disto? Tornar (e preservar) a História viva de alguma maneira. Não esquecer, essa, sim, a prioridade, porque é no vazio que nascem os incultos.
Ao Cinema Brasileiro, as minhas condolências.

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