O cineasta russo Viktor Kosakovsky tem inclinação para criar um cinema sensorial acima dos tradicionais valores narrativos e temáticos. Por exemplo, garantiu-nos um pesadelo líquido com “Aquarela”, documentário sem narração filmado 96 fotogramas por segundo que acompanhava a trajetória da água nos seus diferentes estados (e, convém salientar, nenhum deles, pacífico).

Nesse encontro, o realizador revelaria o seu novo projeto, um filme sobre um porco e uma galinha, em que prometia que o espectador seria incapaz de escapar o olhar e se chamaria “Apology” [“Desculpa”]. O título mudou, mas Kosakovsky não nos mentiu, porque “Gunda” é cinema de um enorme conforto igualmente trespassável, cercando o espectador num contacto simuladamente direto com estas bichezas, filmadas a preto-e-branco e conservando o som natural que as rodeia. Uma porca e os seus “rebentos”, uma galinha incapacitada, o campo e um eventual conflito dramático que subtilmente os confronta, há vestígios humanos mesmo não os avistando. O filme é isto e triunfa por ser exactamente isto: os animais à mercê do nosso olhar, no seu estado natural.

Actualmente vendido como “propaganda ao vegetarianismo” e basta ler só a publicitada legenda “produzido por Joaquin Phoenix” para automaticamente se abrirem as portas para esse activismo, “Gunda” é principalmente um exercício de grande cinema, minimalista, linear e tecnicamente irrepreensível. Um Béla Tarr rural, onde a naturalidade dos animais revela-se em “atuações dramáticas” indiscutíveis.

Kosakovsky conseguiu mais uma experiência a merecer, de forma digna e obrigatória, o grande ecrã, porque no fundo o cinema transporta quem o vê para uma outra dimensão, realidade ou linguagem. “Gunda” fala-nos com exactidão de um mundo tão perto de nós, mas tão ignorado pelo nosso antropocentrismo. São animais a serem simplesmente animais e as imagens de crua beleza assumem exactamente aquilo que são e nada mais. Não existe engodo, tudo respeita a natureza e a sua autenticidade. Obrigatório!

Deixe um comentário

Outras leituras