Ponto de curiosidade: antes de Cate Shortland (do fenomenal “Lore”) assumir o leme deste projeto, a Marvel propôs “Black Widow” à cineasta argentina Lucrecia Martel (“Zama”), que partilhou uma “inconfidência”: foi-lhe dito que as sequências de acção seriam cedidas a uma equipa especializada e só lhe competia filmar o resto. Ora bem, este episódio caricato alimenta ainda mais a “teoria” (à vista de todos, não se tratando de mera conspiração), de que os filmes deste franchise milionário… oh, peço desculpa, multimilionário… são produzidos numa lógica de linha de montagem, não deixando margem para quaisquer laivos autorais ou assinaturas “artísticas”, mesmo que o estúdio se mostra incessante na procura de talentos independentes ou nomes emergentes da indústria.

Foram poucos os que conseguiram romper a fórmula escrita e sagrada, como James Gunn com “The Guardians of the Galaxy” ou Taika Waititi com “Thor: Ragnarok”. Só que, no caso de “Black Widow”, não se trata de trazer cinema de autor para o universo de super-heróis, mas sim fazer justiça a uma das personagens mais maltratadas desta saga cinematográfica que começou em 2008.

Viúva Negra, a Natasha Romanoff, ou para os indiferentes, a personagem encarnada por Scarlett Johansson, já pedia há muito tempo uma aventura emancipada no Universo Cinematográfico Marvel [MCU]. Heroína constantemente “convidada” para os filmes-a-solo dos seus comparsas ou nos megacolectivos “The Avengers”, a figura teve primeira aparição no segundo “Iron Man” como despersonalizada femme fatale (literalmente) e, mais tarde, foi servida como par romântico ocasional (uma “faísca” com Hulk que não agradou os fãs, nem podia, de tão incongruente que era) antes de ser “condenada à morte certa” no culminar de “Avengers: Endgame”.

Com todo este passado, esta “prequela” (ou “entrequela”) que agora chega tem um “cheirinho” a mofo e adivinhava-se um desastre total. Mas Disney e Marvel tiveram “sorte” com a escolha da realizadora australiana: com Cate Shortland, “Black Widow” tornou-se o palco que finalmente faz justiça a esta “action woman”. Sem ter de seguir as imposições da “continuidade” do Universo Cinematográfico, acima de tudo este é o filme mais bem conseguido no desenvolvimento de personagens femininas, deixando de lado as poses “girl power” embaraçosas que vimos na batalha final de “Endgame” ou as poderosas que, sem exceção, humilhavam todos os adversários em “Captain Marvel”.

A força da “Black Widow” encontra-se no seu criado e doseado “cocktail“, o de uma mulher de armas com as suas fragilidades emocionais, mas nunca cedendo a elas, emancipada mas sem superioridades morais, e mais do que tudo, sem a dependência masculina. Não temos aqui romances, esses sidekicks fundamentais do sexo opostos … et voilà, eis a heroína com liberdade para a Scarlett Johansson que sempre pretendíamos na Marvel, quebrando principalmente a postura de “rainha de gelo” que sempre a acompanhou nestes “quadradinhos” do cinema. Como bónus, ainda temos Florence Pugh, a actriz britânica que tem dado cartas nesta indústria (“Lady Macbeth”, “Midsommer, “Little Women”), a oferecer um sarcasmo quase juvenil e igualmente orgânico para com toda esta trama.

Já a história, alavancada por um mixado genérico ao som de um “cover” de “Smell Like Teen Spirit” dos Think Up Anger (a melhor “coisinha” que este escriba já viu no MCU), é bastante negra e moderadamente adulta (sim, perdoando a “satirização” dos estereótipos vincados da Guerra Fria), com uma acção que varia da sua banalidade tecnológica até aos momentos tremidos de “câmara na mão“, num espírito alusivo aos “thrillers” de espionagem. Todos estes são pontos e mais pontos que afastam esta “Black Widow” da habitual linha de montagem, sem com isso desintegrar o seu contexto produtivo. 

Queremos acreditar que a possível força da realizadora Cate Shortland é responsável pela personalidade que o filme tem e não encontramos em muitos dos outros do género com que somos  presenteados todos os anos. Mulheres ao poder? Talvez a Marvel finalmente tenha encontrado a sua nova fórmula.

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