A vontade de “amadurecer” os comics conduz-nos a mais becos sem saída do que propriamente a trunfos. Com “Clayface”, porém, a coisa segue pelo caminho certo, sem assumir ares de Scorsese ou de Bob Fosse, ou até Mangold, equilibrando a mitologia com um western decadente; sem a Gotham despachada na escuridão de Matt Reeves ou o proto-fascismo trazido por Nolan na sua triunfal trilogia. Digamos que, entre todos estes exemplos, assim de cabeça quente, é em Batman e no seu universo DC que encontramos as incursões “mais ou menos” adultas.

Com “Clayface”, personagem célebre e antagónica de uma cidade obscura e sem perdão, temos um actor amaldiçoado pela sua hubris, rapidamente convertido numa espécie de criatura metamórfica. A personagem ganhou particular destaque no pequeno ecrã, numa série a merecer ser revisitada que é “Batman: The Animated Series”, transmitida entre 1992 e 1995, com Kevin Conroy na voz do “cavaleiro das trevas”. Num dos episódios, parte de um seriado bem negro, no limite da susceptibilidade do público infanto-juvenil, somos apresentados ao tal Clayface (no episódio intitulado “Feat of Clay”, dividido em duas partes, com a voz de Ron Perlman), o vilão malogrado, amaldiçoado pela sua nova forma, agora um ‘monstro de barro’ capaz de se transformar em quem lhe apetecer, sem o amor nem a admiração de que usufruía até então enquanto estrela ascendente.

Chegamos ao filme, apesar da oposição dos fanboys, que certamente preferem universos partilhados e o “outra vez arroz!” a que este cinema nos tem habituado: sob a assinatura de James Watkins, que tem “Eden Lake” como galão no género, “Clayface” é mais do que uma adaptação de uma personagem de banda desenhada, trata-se, sim, de um filme de terror arquitectado e orquestrado em torno do body horror e dos seus legados.

Assim, o actor hollywoodiano de percurso underdog, prestes a receber a sua primeira nomeação para os Óscares, Matt Hagen (Tom Rhys Harries), acaba traído pelas próprias circunstâncias em que se meteu ou, por outras palavras, mais esclarecedoras até, torna-se vítima da cama em que se deitou. Depois de se envolver sexualmente com a namorada de um mafioso influente (David Dencik), é desfigurado e vê automaticamente a sua reputação a ser dilacerada. De regresso ao gueto de onde saiu, refugiado dos olhares de espanto e de repugna, procura soluções para recuperar o rosto e o brilho que dele emanava. Consegue-o através de uma cientista, no âmbito de uma experiência ainda embrionária com nanocélulas. Os resultados tardam em surgir, até que uma overdose o deixa à beira de uma transformação, não apenas física, mas também psicológica.

“Clayface” parte do pressuposto de que os “filmes de origem” são episódicos para nos oferecer algo que pode ser visto em separado, emancipado e independentemente do nosso conhecimento do material de base. É, como havia referido, uma variação do género em que se insere: violenta, gore, com nudez incluída (imagine-se numa Hollywood mais puritana nesse sentido), materializando Franju e o seu “Les yeux sans visage“, Carpenter, de “The Thing”, e Cronenberg, de “The Fly”, entre outras vicissitudes do subgénero. As referências estão lá, não como uma montra, mas como tatuagens naqueles corpos: talvez não como suas por direito, tal como o terror de que se apropria. No fundo, para além das inquietações expectáveis, “Clayface” revela-se também um retrato do actor na penúria do seu ofício, despojado da sua ferramenta, encerrado na loucura, no isolamento ou no “amo-te” impregnado de role play, e é isso, quase frankensteniano, de uma nova “The Substance” (haverá comparações de certo, principalmente no reaver de uma estética passada como sobrevivência na indústria … deixando em céu aberto a sua ingratidão) até à transfiguração, ao intérprete perdido não só mil caras, como em mil personalidade, “quem és tu Matt Hagen?”.

Tal como o primeiro “Joker” de Todd Phillips, há uma catarse encontrada nestes freaks de Gotham, ampliando a sua dimensão trágica, e naquilo que as suas particularidades poderão ressoar  – no caso do tal coringa de Joaquin Phoenix é um marginal scorseseano aludindo à justiça da sua prole, já esta monstruosa aberração é do homem perdido na sua única função … interpretar, fingir, mentir, contracenar, criar a sua própria mitologia. em relação às peles, ou pele, Tom Rhys Harries não é só a epiderme, é o coração deste Clayface, a sua trágica figura … e o resto do elenco mantém nos seus ‘costados’ como suporte, de Naomi Ackie a Eddie Marsan (que é sempre um actor maior que a maioria dos seus papeis), passando por Joana Ribeiro, distinta e irreverente como nunca a vimos (Hollywood faz-lhe bem, sim, senhora!).

Com isto, “Clayface” pode jogar pelo seguro em relação à matriz que interpreta (novamente sublinha-se, o terror), mas fá-lo com sujidade, sangue e ferida. É um dos exemplos máximos da experimentalidade, ainda que formulaica, que este cinema, dito ,de super-heróis pode estimular. Mas não se assustem: não há qualquer indício desse universo, além de Gotham estampada como localização … vão por mim.

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