Regressamos aqui, à janela da nossa contemporaneidade em formato de festival de cinema. Há quem deseje reduzi-la a uma montra de documentários, desconhecendo não só o cinema ali investido como a sua constante ligação ao nosso mundo (exteriores como interiores) e ao que nos rodeia.
O Doclisboa está de volta, com uma programação ambiciosa (se não a mais dos últimos anos), não tanto por trazer uma cinematografia há muito reclamada por estas cinefilias refugiadas, a de Lino Brocka, figura central do cinema filipino, mas por promover o debate e a conversa em torno das imagens, seja através de colectivos, da Palestina, tão longe como tão perto, e da urgência dos nossos dias, seja cavalgando as memórias de um país imaginário (ou de vários), sempre de olhos postos num futuro incerto, regido pelas mágoas do tempo. Há um pouco de tudo: escritores, activistas, estéticas, ruralidade, imagens a serem quebradas ou disfarçadas, despedidas anunciadas e, como não podia deixar de ser, cinema português.
É a 24.ª edição de um dos mais importantes eventos cinematográficos do nosso país. De 15 a 25 de Outubro, a cidade de Lisboa promete discutir as nossas realidades como só o cinema consegue decifrar. No Cinematograficamente Falando …, Hélder Beja, diretor do festival, é novamente desafiado a embarcar nesta deambulação pela programação que nos espera … pelo que não podemos perder, e não necessariamente reger nem ceder ao FOMO, essa palavra popularizada pelas novas linguagens e pelos quotidianos contemporâneos, nem deixar-nos à mercê da FOME de cinema. Documentário e não só: o número 24 traz consigo as impressões da nossa era.
Vou começar pelo princípio e pelo fim, literalmente, ou seja, pela abertura e pelo encerramento. Olhando para a programação como um todo, quase como se fosse um monólogo coerente, há uma linha que me chamou a atenção. Na edição do ano passado, tinha perguntado sobre a relação do festival com a nossa contemporaneidade. Este ano, tendo em conta os filmes de abertura e encerramento, é curioso perceber como ambos parecem falar, directa ou indirectamente, da nossa descrença nas imagens e na sua veracidade.
Por um lado, temos “Guerrilha no Asfalto”, de Edgar Pêra, que recorre, entre outras coisas, à inteligência artificial e a histórias alternativas para construir uma narrativa paralela à nossa própria revolução audiovisual. Por outro, temos o filme de Alain Cavalier, que recupera aquele seu maneirismo de contar uma história através das mãos (o seu ‘cinema manual’ como costumo chamar), quase prescindindo das próprias imagens. Não sei se esta leitura faz sentido para ti…
Não tinha pensado nisso, não tinha olhado para essa linha, mas, claro, podemos encontrá-la. Não diria necessariamente uma descrença nas imagens, embora ache que há, de facto, nos dois filmes (e pensei que também ias referir isso) uma vontade de conversar com a própria história do cinema.

Isso parece-me evidente no caso do Pêra, que parte de uma história do cinema muito pessoal: a do seu próprio cinema e desse elo político que, na sua perspectiva, une as imagens que foi produzindo à sua história pessoal. Falo da sua participação nos movimentos revolucionários e, depois da Revolução, da forma como se afasta das FP-25 de Abril e continua a sua própria luta, digamos assim, com uma câmara nas mãos, ao invés de armas. É muito interessante isso no filme do Pêra: uma obra quase melancólica, na qual ele se expõe bastante. Há também uma componente de desenho digital, embora muito mais reduzida neste filme do que em algumas das suas obras mais recentes.
O realizador encontrou um mecanismo muito interessante para contar a história que quer contar: uma conversa com Albano Jerónimo, à mesa de montagem, através da qual vai construindo a narrativa. É também um filme sobre outro filme que nunca chegou a existir: a ficção que o Pêra queria fazer sobre as FP-25. Desse projecto chegam-nos fragmentos, alguns absolutamente magníficos. Como sabes, sou co-argumentista de um filme sobre as FP-25 que estreou há pouco tempo, pelo que foi particularmente curioso deparar-me com este objecto, que desconhecia. Não sabia que o filme estava a ser feito.
Quando conversei com o Rodrigo Areias, produtor de “Guerrilha no Asfalto”, fiquei muito entusiasmado, e, quando vi o filme pela primeira vez, foi interessante perceber a minha própria reacção: estava perante um outro olhar sobre histórias mais ou menos semelhantes. Apesar de muito fragmentários, os momentos daquela ficção que o Pêra queria realizar estão presentes. Foi, por isso, muito curioso, também a título pessoal, ver aquelas imagens.
Mas o objecto que temos ali é, acima de tudo, o retrato de um homem que está há décadas a fazer cinema em Portugal, muitas vezes de uma forma bastante marginal. E, sim, há ali também alguma descrença nas imagens, como bem dizes. Se quisermos virar a questão ao contrário, também podemos falar de uma crença nas novas possibilidades das imagens. Acima de tudo, há um grande questionamento sobre o valor das mesmas e o lugar que ocupam.
Quanto ao Cavalier, é particularmente especial para nós mostrar este filme … queria começar por dizer isso … o Pêra já apresentou muitos filmes no Doclisboa, mas o Cavalier atravessou, de alguma maneira, toda a história do festival. Não é todos os dias que um realizador pode (e decide) despedir-se do cinema com um filme. É uma despedida assumida pelo próprio, e podermos apresentá-la é muito significativo para nós. Estas duas coisas, em conjunto, tornam esta sessão de encerramento especialmente importante.
Também há ali uma certa precariedade das imagens, aquele registo diarístico a que o Cavalier nos habituou ao longo dos últimos anos. Este filme também traz muito da vida dele, dos amigos, das relações, da família e dos espaços que habita ou habitou. Portanto, é uma carta de despedida, mas ainda cheia de vitalidade. Sei que é sempre um pouco redutor definir um filme desta maneira, mas parece-me uma forma bonita de descrever aquilo que vamos mostrar. Acho que os dois filmes funcionam bem em conjunto. Não tinha pensado muito nessa relação, nesse arco entre a abertura e o encerramento, mas concordo que dialogam um com o outro.
Continuando nesta procura de coerências, vou saltitando um pouco pela programação e chego à Competição Internacional. Gostava que me falasse sobre a estreia mundial de “13 Alfinetes”, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata. Estamos a falar de dois cineastas portugueses com uma carreira e um reconhecimento internacionais consideráveis. Ter um novo filme seu a estrear num festival português, em estreia absoluta, é um acontecimento importante.
Sem dúvida. Não acontece muitas vezes termos cineastas portugueses nesta secção, e a presença deles tem muito que ver com a proposta que fazemos este ano para a competição, com a importância destes realizadores, a sua história com o festival e, naturalmente, o filme em particular. Mais uma vez, João Pedro Rodrigues e Guerra da Mata regressam ao sagrado e ao profano, ao mito de Santo António, a qualquer coisa que os assombra (não necessariamente a eles), mas ao seu cinema, ao longo dos últimos anos. Por isso, podermos apresentar este objecto em estreia mundial na Competição Internacional é, de facto, um dos momentos altos da programação. Ficamos muito satisfeitos com isso.

Dizer que a competição deste ano tem muitos momentos semelhantes. Há vários regressos de cineastas que já apresentaram filmes no festival, alguns em competição, outros fora dela. Falo de Paula Gaitán; do tailandês Thunska Pansittivorakul, que já esteve no festival e foi distinguido há alguns anos; de Éric Baudelaire, também um nome habitual da nossa programação; de Ghassan Salhab, que já apresentou aqui o seu cinema; e de Nikita Lavretski, igualmente premiado no festival, que regressa este ano com “Smarty”. É talvez o filme mais hilariante da competição, e gostava de destacar essa particularidade.
É claro que tentamos ser o mais imparciais possível em relação aos filmes das competições Internacional e Portuguesa, mas, já que estamos a conversar sobre eles, podemos ir destacando algumas coisas. Depois, há os cineastas que descobrimos e que vêm pela primeira vez ao festival, ou cujos filmes são apresentados pela primeira vez em Portugal. Nesse grupo, destacaria Mariano Donoso Makowski, um realizador argentino que, tanto quanto sabemos, nunca teve um filme exibido no nosso país. Já tem uma carreira bastante consolidada e está na casa dos cinquenta anos, com isto, traz-nos “Saturno o pequeño tratado de la melancolía”, uma estreia mundial. Entre os regressos que também nos entusiasmam está o de Jacques Meilleurat. No ano passado, dedicámos-lhe um foco, e este ano regressa com “Le Centaure”, um filme que revisita “Le Camion”, de Marguerite Duras. É também um objecto muito particular.
Para não deixar ninguém de fora, há ainda a dupla brasileira formada por Kasia Mich e Dani Correia, que nos traz um filme muito sensorial, vindo do Brasil, e que nos mostra uma realidade diferente daquela a que estamos habituados. Temos também Rayna Teneva, uma cineasta búlgara cujo filme cruza migração, trabalho, política, rosas e armas: “Geography Is Destiny” (é a sua primeira longa-metragem). E, finalmente, Isabelle Prim, que regressa ao festival com “Mémoires d’un blaireau“, uma obra extremamente delicada, apresentada em estreia internacional no Doclisboa.
Tentaram garantir que todos os realizadores estivessem presentes?
Todos vão estar presentes, é para nós, uma condição. Há duas coisas que consideramos essenciais nas competições do Doclisboa e que, creio, nos distinguem no panorama dos festivais nacionais- Em primeiro lugar, todos os filmes são apresentados, no mínimo, em estreia europeia, muitos estão em estreia internacional e alguns em estreia mundial. Em segundo lugar, todos os filmes são acompanhados pelos seus realizadores, excepto em situações de força maior. Para nós, isto é completamente inegociável. Também se aplica à secção Verdes Anos e à Competição Portuguesa. É algo que fazemos naturalmente, mas vale a pena sublinhá-lo.
Passando à Competição Portuguesa, faço uma ponte que me parece pertinente: era inegociável que “13 Alfinetes” não estivesse na competição nacional e integrasse, em vez disso, a Competição Internacional?
Não, foi uma conversa. Chegámos até a pensar em “13 Alfinetes” para outros momentos do festival (ponderamos a sua inclusão como filme de abertura ou de encerramento, e poderia perfeitamente ter funcionado em qualquer uma dessas posições). Seria também uma forma de celebrar o cinema português, como acontece, na verdade, com a abertura do festival através do filme do Pêra. Poderíamos ter feito uma celebração semelhante no encerramento, ou o filme poderia ter passado para outra secção da programação.
Só que acabámos por considerar que a Competição Internacional era o lugar onde o filme poderia ser melhor defendido. Porquê? Porque esta competição, precisamente por reunir filmes em estreia internacional e mundial, atrai naturalmente mais atenção da imprensa internacional e dos programadores que vêm ao festival. Queremos ajudar os filmes. Quando estreiam connosco, queremos que iniciem aqui um percurso, não que o terminem aqui. Foi isso que propusemos aos cineastas. Explicámos-lhes as nossas razões e fomos nós que tomámos a iniciativa de sugerir a inclusão do filme na Competição Internacional.
Acreditamos muito nessa estratégia e queremos que não só “13 Alfinetes“, mas também outros filmes que estreiam mundialmente connosco (como o de Paula Gaitán, entre outros) possam continuar o seu caminho depois do Doclisboa. Essa é uma das principais razões para a presença do filme na competição.

E, em relação à Competição Portuguesa, poderemos considerar alguma linha de coerência que una os filmes seleccionados?
Acima de tudo, tanto na competição Internacional como na Portuguesa, aquilo que tentamos fazer é evitar que as competições sejam apenas uma selecção dos melhores filmes que nos chegaram. Pode parecer óbvio que deva ser assim, mas nem sempre é tão simples, porque temos de considerar vários aspectos. Queremos apresentar uma proposta abrangente, e naturalmente, não queremos deixar de fora os melhores filmes submetidos, mas, por vezes, também conseguimos encontrar outros lugares no festival para essas mesmas obras. Há questões relacionadas com a representação geográfica. Se já temos um determinado número de filmes de um país, talvez não queiramos acrescentar mais. A França é um exemplo evidente, e a Espanha também, porque temos uma programação bastante marcada pela presença de produções espanholas.
Mas não existe um único critério geográfico, tal como não existe uma fórmula única para as propostas cinematográficas. Se temos um filme que aposta numa abordagem mais directa, talvez não queiramos incluir outros três que trabalhem exactamente da mesma maneira. Procuramos também diferentes abordagens sensoriais, ou formas mais clássicas de documentário, como acontece, por exemplo, com o filme de Rayna Teneva. Não queremos que uma determinada proposta domine toda a competição e retire espaço a outras ideias e possibilidades de cinema. É sempre esse mosaico que tentamos construir.
Na Competição Internacional, a nossa liberdade é muito maior, porque o campo de escolha é enorme, já na Competição Portuguesa, estamos mais circunscritos e limitados pela própria produção nacional (não digo isto como algo negativo, mas é uma limitação real). Dito isto, a colheita deste ano foi muito boa: recebemos muitos filmes portugueses e temos onze obras na competição, tal como na Competição Internacional, entre curtas e longas-metragens. Acima de tudo, há uma tendência que tenho vindo a sentir há algum tempo. Sei que não é nova no cinema português (pelo contrário), mas tenho a sensação de que, depois de ter perdido alguma força, está agora a regressar.
Sinto isso, por exemplo, em “As Estações“, de Maureen Fazendeiro, apresentado no ano passado, e agora em “Vent du matin”, de Cláudia Ribeiro, ou em “Hipogeus”, de Raul Domingues. Também o filme de Inês Sapeta Dias, “A casa é a ruína de uma casa“, parece inscrever-se nesta tendência. Há uma espécie de regresso à terra, de regresso aos elementos, e quase de escavação, que é particularmente evidente no filme do Raul. O cinema português tem uma relação muito prolífica com estas matérias. Mas tenho a sensação de que houve uma fase em que o urbano e as construções humanas atraíram muito os cineastas portugueses e de que, agora, existe uma vontade de dar um passo atrás e voltar a olhar para os elementos naturais. Pode ser apenas uma impressão minha, muito pessoal.
Mas, olhando de relance para a Competição Portuguesa, também me parece haver vários filmes que abordam questões anticoloniais.
Sim, há essa outra linha. Temos pelo quatro filmes que tocam nessa questão: o de Pedro Neves, o de Ico Costa e também o de Maria Novo, que se passa no Portugal dos Pequenitos em Coimbra e que, de alguma forma, aborda a questão do Estado Novo. E temos, naturalmente, o filme de Manuel Mozos, “A Voz de Todos – Jornal do Fundão”. São quatro obras muito diferentes entre si. Mesmo os de Pedro Neves e Ico Costa, que passam pelo continente africano, são obras bastante distintas. Depois, os filmes de Maria Novo e Manuel Mozos, situados em território português, revisitam o passado ditatorial e a resistência, no caso de Mozos, ou os símbolos desse regime, no caso de Maria Novo, através do Portugal dos Pequenitos. Sim, esta é uma linha muito forte no cinema português.
Estamos também muito satisfeitos por termos onze filmes em estreia mundial na Competição Portuguesa. Algo que já não acontecia há algum tempo, e temos uma colheita intergeracional, que vai de Manuel Mozos até Maria Novo, a realizadora mais jovem da competição, por exemplo.
Há ainda outros filmes de que não mencionamos; “Mysticisme du Sud”, de Fábio Penela, que nos leva ao Norte de África à procura de um lago, um oásis, “The Continuation”, de Maxime Martinot, um objecto muito especial, “Visitas de Uma Parente Afastada”, de Inês Oliveira, sobre Mariana Viegas, uma fotógrafa de cena extraordinária, com um trabalho excelente. Tal como acontece com muitos profissionais que não são realizadores, e que por isso são menos conhecidos do público, a sua história permite-nos percorrer também a história do cinema e de uma determinada maneira de fazer cinema, ainda em película. Passamos por grandes realizadores, portugueses e internacionais, com quem ela trabalhou (João César Monteiro, Pedro Costa, Manoel de Oliveira ou Šarūnas Bartas) …
… e depois há um filme que nos deixou a todos bastante espantados pela sua estranheza: uma espécie de ficção científica, ou distopia, de André Santos Martins, que nos leva até ao continente asiático, para um lugar onde o Sol permanece suspenso no céu e não se move [“Goruden Awa”]. Uma longa-metragem que introduz uma nota diferente na competição. Tem um sabor completamente distinto de todos os outros filmes seleccionados. Por isso, acho que é uma competição que vale muito a pena descobrir.

Seguindo a programação, acho inevitável falar de Riscos, uma secção muito querida do Doclisboa e que parece ganhar cada vez mais importância, também pelo legado de Augusto M. Seabra.
Sem dúvida. Riscos é o grande espaço de experimentação da programação, é aí que vamos mais longe na exploração das possibilidades que o cinema oferece, na relação entre as imagens e nas formas do cinema contemporâneo. É uma secção que carrega o legado de Augusto M. Seabra, mas também o de outras pessoas que fizeram parte da história do festival e contribuíram para a construção deste espaço. Hoje, esse trabalho é conduzido por Cíntia Gil, programadora associada responsável pela secção, que naturalmente recebe contributos das restantes pessoas da equipa de selecção e do festival, mas que lhe imprime uma assinatura curatorial muito clara.
Para mim, em particular, é impossível conceber o Doclisboa sem Riscos. Acho que isso diz bastante sobre a importância que lhe atribuímos. Este ano, destacaria, mais uma vez, os artistas convidados. Temos Sophie Roger, uma realizadora francesa que trabalha o íntimo e as imagens muito pessoais, um pouco na linha de Pierre Creton, que destacámos há dois anos (curiosamente, são amigos). Sophie Roger filma os seus arredores, aquilo que a envolve e rodeia, construindo uma espécie de horizontalidade entre os seres e as coisas. Uma planta, um animal ou um ser humano são captados de maneira semelhante, sem que um tenha necessariamente primazia sobre os outros.
Depois, temos John Torres, um realizador que se inscreve na linhagem de grandes cineastas filipinos de que falávamos há pouco, como Lav Diaz e Lino Brocka, de quem teremos uma retrospectiva este ano. Torres dialoga também com realizadores mais jovens, como Khavn De La Cruz, que estará presente no festival. É um cineasta que trabalha de uma forma bastante marginal e que revela, através de uma abordagem muito particular, um país e uma cinematografia filipina ainda pouco conhecidos do público português. Pareceu-nos, por isso, o momento ideal para o trazer ao Doclisboa. Ao apresentarmos um clássico absoluto do cinema filipino e asiático como Lino Brocka, num programa inédito, fazia todo o sentido convidar John Torres para descobrirmos o seu cinema.
Queria ainda destacar a homenagem a Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian (Angela já tinha falecido, mas Yervant morreu este ano), o qual vamos mostrar “Oh! Man”, um dos grandes filmes desta dupla, que desenvolveu uma espécie de arqueologia das imagens através do trabalho de arquivo, sempre com a convicção de que havia mais para descobrir naquelas imagens adormecidas. No restante programa, a Cíntia faz um trabalho extraordinário de cruzamento entre história e contemporaneidade, entre diferentes geografias e formas cinematográficas.
Este ano, temos também vários filmes de bolseiros da UnionDocs, uma organização que apoia artistas através de bolsas e programas de desenvolvimento. Entre eles, está Liane Schmid, uma artista com um trabalho bastante relevante, e Ben Russell, que também integra esta programação. Tudo isto se cruza com outros nomes importantes do cinema contemporâneo, como Lynne Sachs e Lucía Seles, de quem temos mostrado vários filmes nos últimos anos. O próprio Thunska Pansittivorakul, que está na Competição Internacional, surge aqui também com um filme e ainda o israelita e crítico do regime Avi Mograbi, que vive em Portugal.
Existe, portanto, um cruzamento de muitas formas e sensibilidades cinematográficas. Os pequenos auditórios do festival, onde são exibidos os filmes de Riscos, acabam por ter um público fiel, como costuma acontecer todos os anos.

Exactamente … mas, voltando um bocadinho atrás, para depois saltar para outra ponta da programação, queria falar da retrospectiva de Lino Brocka. Há pouco referíamos John Torres e o cinema filipino, e esta retrospectiva, a de Brocka, é possivelmente um dos grandes atractivos do Doclisboa deste ano.
Estamos muitíssimo felizes com o resultado deste trabalho, que levou praticamente um ano e que fizemos em parceria com a Cinemateca Portuguesa. Mas saliento que foi muito difícil. Se já tinha sido complexo organizar a retrospectiva de William Greaves no ano passado (por todas as questões relacionadas com a localização das cópias, a sua disponibilidade, os direitos e a forma de ultrapassar os obstáculos que vão surgindo até conseguirmos concretizar um programa desta natureza), este ano foi ainda mais exigente.
E acho que vai ser muito interessante conversar sobre isso ao longo dos dias do festival. Porquê? Porque estamos a falar de preservação, de tradução, da precariedade das imagens e dos formatos. Estamos a falar daquilo que faz ou não sentido mostrar num festival, tendo em conta a qualidade das cópias. Se não faz sentido, porquê? E, se faz, porquê? Há toda uma série de questões que esta retrospectiva levanta e que podem ser muito interessantes para as conversas que vão atravessar o festival. A retrospectiva de Lino Brocka, “Matem o Artista Nacional”, tem curadoria de Khavn De La Cruz, também ele um artista filipino, que trabalhou em diálogo com as equipas do Doclisboa e da Cinemateca Portuguesa. É a maior retrospectiva de sempre dedicada ao realizador, pelo menos fora das Filipinas.
É a maior no sentido em que reúne mais títulos, apresenta obras que já tinham sido exibidas e acrescenta muitos outros objectos do percurso do realizador. Inclui filmes que nunca tinham sido mostrados fora das Filipinas e para os quais foram preparadas traduções, pela primeira vez, para inglês e português, tornando-os acessíveis aos públicos que dominam estas línguas. Tivemos também a sorte de conseguir algumas cópias restauradas, que serão apresentadas pela primeira vez no circuito internacional.
É, portanto, um programa absolutamente excepcional, dedicado a um realizador que já é conhecido de um público cinéfilo, mas cuja obra ainda precisa de ser descoberta por um público mais alargado. Foi isso que aconteceu, e que continua a acontecer, com William Greaves. Ficamos muito felizes por ver vários grandes festivais a organizarem retrospectivas dedicadas ao seu cinema. Nós próprios temos este ano mais dois filmes seus na programação: o inédito “Once Upon a Time in Harlem” e “The Fight”, sobre Muhammad Ali, que não conseguimos mostrar no ano passado e que trazemos agora.
E, sim, a retrospectiva de Lino Brocka é um grande atractivo. É um cineasta do melodrama que cruza as ferramentas desse género com uma enorme capacidade de crítica social e intervenção política. Consegue esgrimir argumentos políticos sem nunca deixar de trabalhar dentro das convenções cinematográficas. Acho isso muito curioso no seu cinema.
É verdade! Nos últimos anos, temos presenciado grandes retrospectivas no Doclisboa. Lembro-me não só da de William Greaves, mas também de outras, como a dedicada ao New Deal, o mexicano Paul Leduc e a do colombiano Luis Ospina (saudades!). Isto para dizer que, pessoalmente, considero esta secção uma das jóias do Doclisboa.Porque muitas delas [retrospectivas] acabam por fazer o seu próprio percurso, circulando por outros festivais e instituições, fazendo este festival pioneiro ou impulsores dessas redescobertas.
Sem dúvida. É uma das coisas que mais nos entusiasma e que mais prezamos no festival. Temos alternado entre retrospectivas de autor e retrospectivas organizadas segundo outros critérios. A última grande retrospectiva que não foi dedicada a um único realizador, e que foi verdadeiramente excepcional, foi, como bem mencionaste, a do cinema do New Deal. Entretanto, abandonámos esse modelo e achámos que foi uma óptima decisão concentrarmo-nos numa única retrospectiva. Uma retrospectiva desta dimensão já representa trabalho suficiente e constitui, por si só, uma proposta que sentimos que chega ao público do festival todos os anos. Esse será o caminho nos próximos anos: teremos uma apenas retrospectiva.

Há pouco tempo, enquanto equipa de programação, voltámos a conversar sobre o futuro e tentámos desenhar um horizonte um pouco mais concreto para as próximas edições. Queremos regressar às retrospectivas temáticas, ou, melhor dizendo, às retrospectivas que não obedecem apenas a um critério autoral e que abrangem vários cineastas. Não gostamos muito de usar a expressão ‘temáticas’, mas queremos voltar a esse tipo de proposta. Pode partir de uma geografia ou de qualquer outro elemento que atravesse um conjunto de cineastas que faça sentido apresentar em conjunto.
Gostamos muito das retrospectivas de autor e vamos continuar a fazê-las. Mas queremos também manter essa outra possibilidade: reunir diferentes cineastas num conjunto de obras coerente. Dito isto, as últimas retrospectivas foram muito difíceis de concretizar. Talvez também gostassemos de ter, num dos próximos anos, uma retrospectiva que não nos desse tantas dores de cabeça [risos]. Não é uma questão de trabalho, porque gostamos de trabalhar, mas de evitar algumas das dificuldades que temos enfrentado. Seja como for, esse nunca será o critério. Não vamos escolher uma retrospectiva porque dá menos trabalho. O mais importante é que o esforço que fazemos tenha relevância, tanto a nível nacional como internacional, e que ajude a colocar estes filmes num lugar a que o público contemporâneo possa aceder.
Devo também reforçar nesta questão, que há um triângulo que estabelecemos entre o curador convidado (que nem sempre existe, embora tenha havido um nos últimos dois anos, porque havia pessoas muito evidentes para convidar) e as duas equipas de programação. Quando faz sentido e existem condições para avançar, é o festival que toma a iniciativa de convidar essa pessoa e contratar os seus serviços. Depois, todo o trabalho é desenvolvido em diálogo com as equipas de programação do Doclisboa e da Cinemateca Portuguesa. Do nosso lado, a conversa aconteceu sobretudo com Khavn De La Cruz e Cecilia Barrionuevo; do lado da Cinemateca, com Luís Mendonça. Foram os principais interlocutores de Khavn De La Cruz neste processo. Naturalmente, as restantes pessoas das duas equipas também estiveram envolvidas, mas foram estes os interlocutores principais.
Era essa a minha suspeita, e isso estabeleço uma ponte para uma outra secção: porque o filme de Luís Mendonça está integrado no Da Terra à Lua … Queria começar por aí. “Vestígios” será, possivelmente (tendo em conta o recorrente trabalho de Mendonça), um filme sobre o valor das imagens, que contraria um pouco a ideia que estava a colocar a propósito da abertura e do encerramento, ao mesmo tempo, é um filme bastante pertinente, sobretudo por abordar o trabalho da Polícia Judiciária neste momento.
Sim [risos], é quase um filme forense. O Luís, que é um estudioso do cinema e um grande entusiasta das imagens, surpreendeu-nos um pouco com esta proposta. Olhámos para ela, naturalmente, com todo o interesse, como fazemos sempre com os filmes que nos chegam, e ainda mais quando se trata de cinema português. Pareceu-nos um objecto muito pertinente, profundamente ligado aos tempos que vivemos e interessado em discutir o que são as imagens, as diferentes leituras que podemos fazer delas e aquilo que significam. Percebemos que era um filme que podia ter lugar no festival e, concretamente, em Da Terra à Lua. Foi uma escolha que gerou bastante conversa, mas acabou por integrar a programação, e estamos muito felizes com isso.
Para mim, Da Terra à Lua é, acima de tudo, o espaço do festival por excelência para o diálogo entre o cinema e a contemporaneidade, mais do que fazer um resumo da temporada ou apresentar os grandes títulos de autor que também chegam a um público mais alargado, o que verdadeiramente nos interessa é que esta secção continue a dialogar com o presente. Por um lado, temos o foco dedicado ao cinema de Miguel Antunes Ramos, com dois filmes particularmente pertinentes: “A Voz de Deus” e “Dragões”. O primeiro traça um retrato religioso e das redes sociais; o segundo propõe um retrato político, também muito ligado às redes sociais. A forma como estes dois filmes se cruzam permite-nos olhar para uma realidade extremamente complexa, num momento em que o Brasil se prepara para eleições. Como escrevemos no pequeno texto introdutório deste foco, estamos a falar de eleições e da possibilidade de um regresso de Lula ou de uma nova figura da direita bolsonarista. As imagens não decidem, mas contam muito. Estes dois filmes nos vão permitir reflectir sobre este país imenso e tão convulso que é o Brasil.
O Collectif Mohamed, por sua vez, apresenta uma proposta muito interessante, com um cinema das margens, recolhido nos bairros periféricos de França. Estamos a falar de um colectivo de migrantes que percebeu que precisava de se registar em imagem, porque não queria continuar invisível. Vamos mostrar um conjunto de obras do final dos anos 70 e do início dos anos 80, com uma ligação histórica muito forte àquilo que ainda acontece (e cada vez mais acontece) nas cidades europeias: comunidades inteiras que permanecem invisibilizadas. Este colectivo decidiu registar essas realidades, através de um cinema muito directo, e vamos apresentar estes filmes com toda a sua carga histórica, mas também com uma relação muito forte com o presente.

Depois, temos o foco dedicado à Palestina. Felizmente, o Doclisboa não se tem despolitizado, num momento em que parece existir um apelo quase generalizado à despolitização. Pelo contrário: não acreditamos que seja possível ficar em cima do muro, nem que seja possível não tomar posição. Portanto, posicionamo-nos, isto aplica-se à Palestina, mas também a muitas outras questões, incluindo aquilo que se passa no nosso próprio país.
No texto que escreveu para o programa, Anabela Mota Ribeiro deixa isso bastante claro a determinada altura. Não é apenas por essa razão, mas também por ela, que fazemos este foco dedicado ao cinema palestiniano. É um programa construído com o apoio de muitas pessoas. Entre elas, a cineasta Monica Maurer, que dedicou uma parte importante da sua vida a recolher e preservar imagens da Palestina, e que participará numa das conversas integradas nas Constelações do festival e que foi absolutamente incansável na concretização deste programa. Teremos, por um lado, sessões de cinema, com a apresentação de alguns objectos fundamentais do que resta do cinema palestiniano, num contexto em que está em curso um verdadeiro culturicídio. E, por outro, teremos uma componente de discussão e debate, através das Constelações.
Outro dos grandes destaques de Da Terra à Lua é “Atlas de la Desaparición“, que assinala o aniversário da Guerra Civil Espanhola através de um filme sobre Cuelgamuros e o Valle de Cuelgamuros, associado ao complexo monumental do Valle de los Caídos. Foi um filme que descobrimos no Documenta Madrid.
Devo apontar que há ainda um regresso de um grande nome do documentário norte-americano nesta secção.
Laura Poitras, exactamente, que já tinha estado no festival no ano passado e que regressa agora com um filme sobre o ICE [“They’re Here”], a polícia de imigração norte-americana, e esta espécie de distopia dos Estados Unidos.
E há ainda o filme sobre Salman Rushdie, “Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie”, de Alex Gibney, não é propriamente uma adaptação do livro, mas um filme sobre o ataque de que Rushdie foi vítima. Inclui imagens bastante difíceis de digerir, captadas pela sua companheira e autorizadas pelo próprio escritor para mostrar a violência e a dimensão daquilo que lhe aconteceu. O filme recua também à década de 1980, quando a publicação de “Os Versículos Satânicos” desencadeou uma enorme controvérsia internacional. Tenho 42 anos e conhecia aquela história, mas nunca tinha visto aquelas imagens. São absolutamente impressionantes. Estamos a falar de milhares de pessoas nas ruas, com bonecos enforcados e queimados.
E não queria deixar de falar da homenagem a Patricio Guzmán, que morreu há poucas semanas. Vamos apresentar “Mi país imaginario”, numa estreia portuguesa, em parceria com a Midas, que detinha os direitos do filme.
E há ainda o filme de Grace Passô, que também estará nesta mesma secção.
Sim, o filme de Grace Passô, que ganhou o Festival de Gramado. Vi-o em Berlim, tal como Boris Nelepo e Cecilia Barrionuevo, e foi uma obra que nos deixou a pensar bastante sobre o lugar que poderia ocupar na programação. Gostávamos de a mostrar, mas não tínhamos a certeza de que fosse possível, em parte porque é um filme longo e, por vezes, já existem outros acordos de distribuição ou exibição estabelecidos. Por outro lado, sendo um filme com coprodução portuguesa, também não nos parecia que devesse integrar a Competição Portuguesa. Andámos, por isso, a tentar perceber qual seria o melhor lugar para o apresentar.
Entretanto, Catarina de Sousa, da produtora portuguesa Bonita da Festa, disse-nos que Grace Passô estaria em Portugal por causa de outro projecto, ligado ao teatro. Nesse momento, tornou-se evidente que tínhamos de encontrar um lugar para o filme. Não quer dizer que não o pudéssemos ter apresentado sem a realizadora presente, mas somos muito apologistas de defender os filmes com a presença dos seus autores. Assim, o filme integra Da Terra à Lua, será exibido no último fim-de-semana do festival e contará com a presença da própria Grace Passô. Parece-nos que será um momento importante.
Mas nesta mesma secção há ainda muito mais por explorar, por exemplo, há o filme “Amilcar” de Miguel Eek …
Já queríamos mostrá-lo no ano passado, mas acabou por seguir para o IDFA, que acontece depois do Doclisboa. Como o realizador pretendia apresentá-lo em competição naquele festival, o filme não veio a Lisboa antes. Conversámos com o Miguel e acertámos desde logo as coisas para o podermos estrear este ano. Estamos a falar de Amílcar Cabral, uma figura central das lutas de libertação das antigas colónias portuguesas, retratada por um realizador espanhol, alguém que não pertence nem ao antigo país colonizador nem aos países que conquistaram a independência. É um filme muito curioso e peculiar sobre esta figura histórica.

Depois, temos o filme de J. Zankan, que nos chegou através de um convite que o realizador recebeu da Cinemateca de Turim. Foi-lhe proposto desenvolver um filme e tivemos também a oportunidade de o estrear em Portugal … e não queria deixar de lado uma nota sobre “Ala-Arriba!”, de José Leitão de Barros. Vamos apresentar uma cópia restaurada e estamos muito felizes por poder mostrar este filme a uma comunidade de convidados internacionais que talvez nunca se tenha confrontado com este tipo de cinema português. Será um acontecimento especial também para as novas gerações, que nem sempre têm oportunidade de ver estas obras nas condições adequadas.
Só mesmo para terminar esta divagação pela programação, outras das joias da coroa do Doclisboa: Heart Beat!
Talvez possa começar por uma coisa que ainda não abordámos: julgo que este ano temos uma quantidade quase inédita de filmes portugueses nas secções transversais. Surgiram muitos filmes portugueses que tinham claramente lugar em Heart Beat ou em Da Terra à Lua (como filme de Luís Mendonça). Em Heart Beat, podemos destacar o filme de Marta Pessoa sobre escritoras que foram invisibilizadas, o filme de Solveig Nordlund sobre a Casa do Artista e o filme de Paulo Antunes sobre João Aguardela. Temos, portanto, vários filmes sobre as artes e sobre artistas, mas, acima de tudo, são também propostas cinematográficas. Não estamos muito interessados em preencher o festival com documentários mais convencionais, que têm outros canais e outros espaços onde podem ser exibidos. Essa seria a primeira nota que faria sobre a secção.
No espaço temos também o filme de Margarida Gil, que revisita os manuscritos de Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho, um objecto muito especial …
De certa forma, isso também ajuda a afastar Heart Beat daquela ideia que lhe foi sempre associada: a de uma secção dedicada sobretudo a documentários musicais ou retratos de cantautores.
Sim. Acho que essa associação foi sempre mais uma percepção do que propriamente a realidade. Venho também da literatura, embora não seja por essa razão que a secção tem esta configuração. Este ano temos, por exemplo, um filme sobre Siri Hustvedt e outro absolutamente transgressor, com Slavoj Žižek, “The Pervert’s Guide to Utopia”, e ainda um filme de Edmundo Ribeiro sobre o pensamento de José Bragança de Miranda. Há, portanto, vários objectos que atravessam o pensamento, a literatura e as artes. Não foram propostas que tenha imposto, mas fico muito feliz por vê-las na programação.
Depois temos também muito cinema sobre cinema: sobre Orson Welles, sobre Vittorio De Sica em “Vittorio De Sica – Staging Life“, que estreou no Cannes Classics, de Francesco Zippel. Ainda “Last Movies”, de Stanley Schtinter, que parte de uma premissa muito interessante: quais foram os últimos filmes vistos por grandes figuras da história contemporânea.
Na música; um filme sobre Kate Bush, “The Timeless Genius” e “Esta Vida de Marinheiro”, sobre João Aguardela, que será certamente um dos grandes acontecimentos do Heart Beat. Nas artes plásticas, temos “Douglas Gordon by Douglas Gordon” … como vês, há, portanto, uma grande variedade de propostas.
Não posso deixar de destacar também os dois filmes de William Greaves, dos quais já falámos, e que são, de certa forma, a conclusão de um trabalho que começámos no ano passado. É claro que nos dá uma enorme satisfação poder mostrar “The Fight”, um filme realizado por Greaves sobre Muhammad Ali, de longe uma (se não a) das figuras mais importantes da história do boxe, e “Once Upon a Time in Harlem”, extraordinário, um projecto que Greaves não chegou a concluir e que foi terminado pelo seu filho [David Greaves]. Contém um arquivo de imagens inéditas de figuras ligadas ao Renascimento do Harlem
Só mesmo para terminar as propostas deste ano: a estreia na realização de Juliette Binoche, com “In-I In Motion”, há um outro filme que nos leva ao continente africano através da música: Nyabalila, de Inês T. Alves, sobre as batuqueiras de Cabo Verde. Ainda na música, temos o filme sobre Carminho, realizado por Ana Rocha de Sousa, e “Cantona”, de David Tryhorn e Ben Nicholasque, que descobrimos em Cannes, e é mais que um retrato de um futebolista, mas sobre um artista, longe da convencionalidade. É um dos meus filmes preferidos da programação.

Toda a programação poderá ser consultada aqui

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