“Pais e Filhos”. Depois da Infância, da Família e do Domicílio Conjugal, o Close-Up – Observatório de Cinema de Famalicão rompe a década e chega à 11ª edição com a família em estado de ruptura, esse pequeno teatro onde se encenam as tragédias do mundo, onde o amor nem sempre chega a tempo e onde as gerações, de tanto se estranharem, parecem já não partilhar a mesma casa. O cinema, entre conflitos, silêncios e heranças mal resolvidas, insiste em convocar estas relações para nos falar de algo maior do que os laços de sangue. Uma reunião que promete pouca paz e nenhuma unanimidade, com a História à mesa e a sociedade inteira à espreita.
O signo do Close-Up deste ano toma cidade fazendo dela, novamente uma grande sala de cinema e um experimento além e dentro do cinematográfico, cruzando filmes, cine-concertos, encontros e memórias, numa celebração que não se esgota no aniversário nem se acomoda ao passado. Entre clássicos e contemporâneos, novas leituras e velhas feridas, esta edição volta a afirmar a singularidade de um projecto que procura manter o cinema em diálogo com a comunidade, as outras artes e os espectadores que ainda estão por conquistar. Mais uma vez, o Cinematograficamente Falando… desafiou o programador Vítor Ribeiro a esmiuçar sobre este novo capítulo do Close-Up, de 10 a 17 de outubro, na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão [toda a programação aqui].
Depois da Infância, da Família e do Domicílio Conjugal, chegamos aos Pais e Filhos. Mas aqui a família parece deixar de ser um lugar de conforto para se tornar um campo de batalha. Ao escolher este tema, estão a falar da família ou de uma sociedade que já não se reconhece na geração seguinte?
O mote desta edição – Pais e Filhos – vem acompanhado de um subtítulo: Conflito entre Gerações. Estes temas aparecem como sintomas da produção do presente, pois despontaram vários títulos que colocam pais e filhos como se já não fosse possível partilharem o mesmo mundo, com contextos e modos de olhar o mundo quase antagónicos. Mas é evidente que isto sempre foi um tema e por isso decidimos olhar para alguns títulos das décadas anteriores e convocar Stanley Kubrick, Sofia Coppola ou João Canijo.
Há uma ideia muito contemporânea na família enquanto espaço de incomunicabilidade. Em “Los domingos”, ninguém parece ouvir ninguém; em “Jouer avec le feu”, um pai vê o filho aproximar-se de valores que rejeita; em “The Virgin Suicides”, a autoridade parental transforma a casa numa prisão; em “Noite Escura”, a família está condenada a partilhar o mesmo destino. O que é que o cinema continua a encontrar na família que a sociedade ainda não conseguiu resolver?
A família funciona como um microcosmos do mundo. É naquele círculo que se começam a manifestar as tensões do movimento da História. Nos exemplos que apontas, as tensões revelam inclinações políticas opostas, quando temos, como por exemplo em “Jouer avec le feu”, a geração mais velha, a do pai, a recear a quebra do progresso quando embate com a perda de um filho para o Mal, para um Mal que parecia ter sido vencido após a segunda grande guerra. Mas o embate também se faz nas questões da fé, como em “Los domingos” em que uma geração, a mais velha, não aceita o que entende por recuo no modo de entender a sua participação no mundo. Os filmes de Coppola e Canijo demonstram o lastro destas histórias, com pais que cometem erros, o que resulta na incompreensão, na impossibilidade de comunicar e, no limite, no destino trágico dos filhos.
Nesta edição, a História entra literalmente pela porta de casa. A política chega ao quarto do filho em “Jouer avec le feu”, a religião instala-se à mesa em “Los domingos”, o Estado invade o corpo em “A Clockwork Orange” e, em “Noite Escura”, a família está presa a uma economia de sobrevivência. A família é apenas o lugar onde os conflitos sociais se tornam visíveis ou é também onde começam?
Penso que já respondi acima, pois o núcleo familiar é tanto lugar do espoletar do conflito como um sintoma desses choques geracionais. A presença de “A Clockwork Orange” serve para colocar o estado e as instituições na posição tutelar dos pais, na incompreensão pelas motivações das novas gerações. O filme de Kubrick também demonstra a inabilidade a lidar com esses conflitos pois as acções, tal como se estivéssemos numa tragédia clássica, nada resolvem, na dissipam, servindo quase sempre para alimentar o conflito e as suas consequências.

Uma das características mais interessantes do Close-Up é colocar o cinema clássico em diálogo com o contemporâneo, nesta edição, Ozu encontra Samuel Úria, Tourneur encontra os Club Makumba, Siodmak e Ulmer encontram JP Simões. Há o risco de essa música contaminar a leitura dos filmes ou é precisamente desse choque entre tempos diferentes que nasce um novo olhar?
A aposta nos cine-concertos tem vários objectivos. Desde logo, fomentar a criação de novos objectos artísticos, uma das incumbências de um teatro municipal, nesse articular entre duas formas de arte, o cinema e a música. Também se pretende retirar peso à história do cinema e aproximar estes objectos de outros públicos. É inegável essa contaminação, da nova banda sonora na relação com o filme e a mesma é desejável. A projecção de um filme justapõe duas bandas, a de imagem e a de som, que muitas vezes se movimentam de forma antagónica. É desse diálogo que se cumprirá a experiência para cada um desses novos cine-concertos, que se espera que possam depois viajar para outras salas.
A mesa-redonda sobre a crítica de cinema, a partir de “Não Desviar o Olhar”, de Júlio Alves, parece querer discutir o lugar da crítica, mas será também uma forma de o Close-Up reconhecer uma actividade que tem apoiado, directa e indirectamente, através do Observatório de Cinema?
A mesa ‘Anatomia da Crítica’ procurará explorar as tensões e as virtudes dos diferentes modos, proveniências e meios da crítica de cinema, nos espaços institucionais e nos lugares do digital. E tal como dizes dá continuidade ao trabalho que o Close-up tem feito na promoção da importância da crítica e da discussão dos filmes, bem expressa pela importância conferida pelo programa às sessões comentadas.
A comédia à italiana pode parecer um desvio ao conflito geracional, mas talvez seja exactamente o contrário. É um cinema onde família, casamento, trabalho, dinheiro e ascensão social expõem as pequenas tragédias de uma sociedade em transformação. O que é que este cinema, tão ligado à Itália de uma determinada época, ainda nos diz sobre o presente?
A Comédia à Italiana constitui-se como uma das páginas notáveis das Histórias do Cinema na capacidade de integrar e dialogar com todas as problemáticas de um tempo, nas décadas de 1960 e 1970. Depois da segunda guerra e de toda a destruição política, económica e social, a Itália recebeu um boom, não só imobiliário, mas também nas várias dinâmicas da sociedade e do poder. É um cinema capaz de abarcar todas estas dinâmicas ao utilizar o rótulo de comédia italiana, que lhe permitia integrar da farsa à tragédia, muitas vezes na mesma sequência, com objectos riquíssimos na sua estética que muitas vezes foram também grandes êxitos populares. Esta pequena panorâmica fará o elogio de alguns dos seus grandes autores, como Vittorio De Sica, Antonio Pietrangeli, Dino Risi, Marco Ferreri e Pietro Germi.
O trabalho com as escolas acompanha o Close-Up desde a primeira edição e volta a estar presente através de sessões, debates, oficinas e masterclasses. Mas há uma diferença entre levar filmes às escolas e formar espectadores. Quando se fala no “espectador do futuro”, não estamos também a falar de uma batalha pela atenção, numa altura em que ver um filme inteiro, numa sala e em silêncio, começa a ser quase um acto de resistência?
É um dos eixos em que colocamos mais direcionamento, tanto na escala dentro do programa como na estratégia, nessa procura, então, de encontrar, de fomentar o espectador do futuro. É também um diálogo com a escola, com a instituição, mas que permita que o jovem espectador fuja da escola para o cinema, como o Antoine Doinel de François Truffaut. Propõe-se alimentar a noção de alteridade, do interesse pelo outro, ao proporcionar aos alunos e professores o encontro e o debate com os objectos cinematográficos propostos, que serão intensificados pelos debates e pelas masterclasses.
Uma década depois, o Close-Up já não parece ser apenas um festival que apresenta filmes. Tornou-se uma espécie de organismo onde filmes, realizadores, músicos, críticos, investigadores, escolas e espectadores se cruzam e contaminam. Esta 11.ª edição prolonga essa ideia de uma “Cidade-Cinema”. Mas quando uma programação começa a criar a sua própria memória, o que é que acontece? O Close-Up está hoje a programar apenas o cinema que quer mostrar ou também a memória do próprio festival?
Passadas dez edições, o Close-Up apresenta-se robusto nos seus propósitos, mas sempre na procura de escapar à cristalização do projeto, em articulação com os vários sectores da comunidade cinematográfica, designadamente, realizadores, produtores, outros exibidores e festivais de cinema, mas também outras disciplinas artísticas, em especial a música, na participação do esforço de criação de novos objetos artísticos, com destaque para os cine-concertos. E sim, a circulação de memórias é algo que nos propomos fazer desde a primeira edição, algo aliás intrínseco ao cinema, ontológico, enquanto procuramos cimentar a presença do cinema no quotidiano da nossa comunidade e nas comunidades em volta de Famalicão.


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