De tempos a tempos, surgia no vento uma mensagem: “Está a ser preparada uma continuação de ‘The Social Network’”, e esperávamos, talvez sem grande antecipação, porque Fincher sai fora do “barco”. O que restou foi o argumentista, Aaron Sorkin, um nato da escrita e da rigidez desta mesma, o “guionista perfeito” no seu sentido, mas não um devoto das imagens, um realizador talvez ainda aquém devido à (sobre)dependência da palavra e do tão badalado storytelling. Mas assim foi. Se todos os problemas previamente estabelecidos fossem Sorkin como contramestre …

“The Social Reckoning” é uma “sequela espiritual” dos despojos do filme de Fincher, aquele trabalho que celebrizou Jesse Eisenberg num arquétipo zuckerberguiano do qual hoje dificilmente consegue escapar, mas é também uma prova de fogo de como é impossível, hoje, estabelecer um vínculo com aquele 2010. E para isso responde-se com outra abordagem: já não se quer saber da criação da plataforma Facebook, deseja-se intimamente a sua destruição, porque, de “‘Network” para cá, o monstro, além de criado, alimentado (ou melhor empanturrado) convertendo-se num estorvo social ainda preso à sua própria ficha.

O que se passou? Passamos pelo óbvio. Se “The Social Network” foi uma espécie de “Fight Club” da sua geração, reconhecendo a sua efemeridade mediática, “The Social Reckoning” joga entre o drama do algoritmo, divulgado pelo “The Wall Street Journal”, mais concretamente pelo jornalista Jeff Horwitz, numa série de artigos que expuseram essa radicalização por via de uma máquina voraz e gananciosa. Sorkin apercebe-se do que está em jogo e o faz pelo seguro, ainda bem, através do formato clássico do cinema político-jornalístico, dos “All The President ‘s Men” ou até, retirado o jornalístico, da série presidencial “The West Wing” (o qual é o criador). Fica-se num convencional jogo de “whistleblowers” e empresas malditas, com segredos negros fechados a sete chaves. Nesse sentido, Sorkin apela ao espectador maduro, que se entranha no enredo, mesmo que este, (… ora bolas), nos soe familiar. E aí entra a tremenda fatia, até decepcionante, do zeitgeist.

Se “The Social Reckoning” é um filme sobre algoritmos, e de todo foge de ser um filme algorítmico, falha principalmente na tentativa de encontrar a voz do seu tempo. Culpa não da produção em si, mas daquilo que vivemos: a tremenda aceleração tecnológica e a esquizofrenia social (salienta-se). Temo que, já amanhã, esta conversa algorítmica entre noutra via, com um novo episódio … mas desanuviemos temporariamente dessas preocupações.

Talvez o mais leigo no assunto se sinta entusiasmado com o thriller aqui imposto e o reconheça numa cronologia (falando também do dispositivo certeiro trazido por Aaron Sorkin para situar a trama e remexer narrativamente), mas, para os mínimos conhecedores, ou conscientes, da sua era, fica um sentimento de filme obsoleto, com o tema de ontem, requentado e desactualizado. O que condicionará, ou não, a sua relevância social nas salas? Os números de bilheteira e a conversa fora da sessão ditarão se o oráculo está correcto ou se foi, afinal, defraudado. Até porque Sorkin vê as limitações do Facebook/Meta na questão político-social e dilui-as numa matéria que tão bem reconhecemos, seja na aura de Elon Musk, seja no seu Twitter, ou com cocegas aos avanços protótipos do AI (algoritmo tem esse embrionário estado) ausentes só que integrados, de forma híbrida, no conceito.

Enfim, é cinema político, apesar do erro de trazer o “político” à equação, porque não grita, não é de palanque e, como todos os seus pares, ‘toda a arte é politizada’, mesmo os amorfos, deixo a sublinhado para não haver dúvidas. Mas, para “The Social Reckoning”, apesar de ter tudo no sítio quanto às estratégias cinematográficas, perde-se na relevância que pretende trazer, porque é um filme que respira isso… só que o argumento está primeiro. Se isso é bom ou mau, o tempo dirá?

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