Asghar Farhadi, iraniano de malas feitas atravessando o mundo, ou melhor, regressando à sua casa em 2011, onde filmaria “Le Passé”, o primeiro dos seus turismos cinematográficos (e o mais próximo dessas ‘escapadinhas’ ao seu registo). Desde então, não superou esse “homesick” e, entre espanholadas mal entendidas, hoje integra nas “Histoires parallèles” um passo em falso, ou melhor, adaptando “Dekalog” (o episódio 6), de Krzysztof Kieślowski, as comparações seriam inevitáveis. Se fosse só isso…
O iraniano moralista, como bem conhecemos, detém um naipe privilegiado de actores ao seu serviço, virou marca e, como não trabalhar com essa marca? De Isabelle Huppert a uma secundária de luxo como Catherine Deneuve, passando por Virginie Efira (de morena a loira), Vincent Cassel, Pierre Niney e até Adam Bessa (que se viu e reconheceu em “Le Fantôme”, de Jonathan Millet), são profissionais acima da média, que por vezes bastam apenas existir. São competentes mesmo na sua automatização. Contudo, Farhadi brinca com eles, integra-os naquilo que bem entendemos ser as suas personas cinematográficas.
“Histoires parallèles” descreve-se como um filme de realidades entre realidades: um romance a ser escrito tendo como inspiração a realidade extraída pelo voyeurismo, uma janela indiscreta com a perversão do arquétipo que Isabelle Huppert nos ofereceu desde então, quase hanekiano, agridoce, de levezas de um thriller requintado à la française ( ainda tem co-produção italiana … que salganhada!). E aí entra a confusão, o conflito que lançará o filme às suas asas de imaginação: quando a ficção dentro da ficção é insuficiente, é na realidade que se apoia como conforto dessa inquietação.
Aqui, a personagem de Adam Bessa, um sem-tecto de um passado negro (a descobrir), sob as palavras do romance inédito da escritora Huppert, procura nessa mesma realidade, na perspectiva da autora, rasgos dessa ficção. Depois, sim, o desejo entra na equação, não como um “gigante adormecido”, mas como uma ideia, inserida, sugerida e estimulada pela arte, neste caso a literatura como representante dessa persistência.
Só num ou dois momentos notamos o dedo de Farhadi, na construção de dilemas morais que, aqui, em solo parisiense, não encontram fôlego, consumando-se efemeramente como chama de fósforo. O que resta então? Talvez a mimetização de uma produção francesa grudada na sua raiz cultural, só que Farhadi é iraniano. Contudo, não se saiu mal no disfarce. Deste cinema huppertizado, misturas e mistos, internacionalizado e dramaticamente reconhecível, ganhamos um filme passageiro sem a devida autoralidade. Vemos e desfazemos no mesmo instante.

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