No próximo dia 6, em meio ao Festival do Rio, novas plateias vão tirar a limpo a excelência que anda a assegurar a “Feito Pipa” prêmios no mundo todo. A produção foi a escolha do Brasil para ser seu representante oficial nos Óscares de 2027. Desde fevereiro, quando passeou por écrãs de Berlim, essa longa-metragem de Allan Deberton só faz somar fãs. Ganhou o prêmio do júri popular em Gramado, em agosto, numa prova de seu poder falar com multidões.

Quando levou um mar de troféus na competição de Gramado de 2019, levando oito Kikitos para Fortaleza, com “Pacarrete”, o cearense Deberton saiu do Rio Grande do Sul com o status de “promessa”. Foi cercado por olhares como o do ator Lázaro Ramos, que se interessou em filmar com o cineasta. Sua imagem agora é outra: é a de certeza. “Feito Pipa”, uma “Sessão da Tarde” padrão delícia (mas recheada de debates de cunho social e existencial), deu a ele uma consagração em âmbito mundial o que alterou seu prestígio… para melhor. Sua maré vitoriosa subiu depois da conquista do troféu Urso de Cristal na 76ª edição da Berlinale. Foi uma vitória histórica para o país, neste ano em que 13 títulos com o Brasil no DNA passaram pela capital alemã.

Rodado em Quixadá, no Ceará, “Feito Pipa” é um tocante exercício autoral. A busca por aceitação faz de Deberton um diretor autor. O que há para ser aceito fica na conta do personagem de Lázaro, que resgatou, via Berlim, uma plenária europeia à altura da que o aplaudiu em “Madame Satã” (2002), agora num papel coadjuvante, que o astro baiano levanta com majestosidade. Gugu (Yuri Gomes), de 11 anos, é o personagem central, numa trama que dribla a homofobia e o terror do Alzheimer e faz gol na trave da inclusão
Na trilha para adolescer, Gugu, moleque bom de bola como poucos, cresceu sem mãe, sob a cumplicidade da avó, Dilma (Teca Pereira, num quindim de atuação), que não tá nem aí para o fato de o guri se identificar com a cultura queer. Ama-o seja lá sob que bandeira ele estiver. Já o pai do guri, Batista (vivido por Lazinho), encasqueta com os modos do filho, quando precisa tomar conta dele, ao notar que a guardiã da criança está com sinais de demência. Difícil crer que Teca deixe Gramado sem um Kikito para chamar de seu.

Com ela, Deberton cria um “Don Quixote” mirim, ciente de que seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de tolerâncias.

Vicentina Pede Desculpas (Gabriel Martins, 2026)

“O Brasil precisa se conectar com ele mesmo”, disse Deberton em Gramado.
O rol de conquistas do cinema brasileiro planeta adentro, em 2026, segue. Coube ao mineiro Gabriel Martins, o Gabito, uma menção especial durante a entrega do prêmio SIGNIS, na 74ª edição do Festival de San Sebastián, na Espanha, para seu “Vicentina Pede Desculpas”. Com 148 minutos, o novo trabalho do diretor de “Marte Um” chega à decisão deste sábado cercado de atenção depois de sua passagem pelo Kursaal. O destino do filme no Brasil já está traçado: estreia em 20 de novembro pela Netflix.

É a história de uma mulher de 75 anos, com problemas de locomoção, que perde o filho num desastre rodoviário cuja responsabilidade, segundo versões que circulam depois da tragédia, seria dele. Motorista de ônibus, o rapaz teria lançado o coletivo de um viaduto num momento de depressão, provocando dezenas de mortes. Rejane Faria, numa atuação devastadora, é Vicentina, mulher que, mais do que tentar provar ou negar a culpa do filho, decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas e, sobretudo, acalentar quem perdeu alguém naquela tragédia sobre quatro rodas. O gesto leva a personagem aos limites possíveis do perdão.

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