Iván & Hadoum

Iván é um homem trans que, com a morte do pai e tornando-se para todos os efeitos o novo chefe de família, assume um controlo maior na empresa de distribuição de frutas e vegetais do amigo deste, sendo promovido a gestor de armazém. É neste armazém que trabalha Hadoum, uma imigrante marroquina. Um pequeno acidente de trabalho junta as duas personagens, até que a responsabilidade do capital gerido por Iván começa a interferir com os interesses de maior justiça social exigidos pelos trabalhadores representados por Hadoum.
Se a comparação não fosse óbvia apenas pelo título, a sinopse deixa claro que há aqui uma tentativa delicada e relativamente modesta de produzir um Romeu & Julieta para os tempos atuais. Ian de La Rosa usa não só as diferenças clássicas de classe social, mas cruza dois temas escaldantes que estão na ordem do dia — e quase nunca pelas melhores razões: identidade de género e nacionalidade. Contudo, aborda-os de uma forma que nunca soa exploratória: o tema trans é, aliás, remetido para segundo plano perante as diferenças que ameaçam a felicidade do casal, tal como acontece com a diversidade étnica. Acima de tudo, é precisamente a vivência numa sociedade capitalista (e patriarcal!) — com o consequente conflito de interesses e a potencial queda da estrutura familiar — que assume o foco do conflito narrativo e se torna, para todos os efeitos, o motor da resolução final.
Existem aqui nuances que evitam a binarização ou a panfletarização destes temas, nomeadamente na caracterização do núcleo familiar de Iván, ajudando o filme a operar sempre num plano humano. É verdadeiramente uma daquelas qualidades invisíveis que um cineasta pode oferecer: o interesse genuíno em saber mais sobre a vida de pessoas que não existem na realidade. O romance funciona, está inserido num plano de fundo político que reflete a nossa realidade e transporta-nos para o espaço de Almería com um olhar profundamente terno.
Competição Oficial – Longas Metragens
Stop! That! Train!

Talvez deva começar este texto dizendo que nunca vi uma única temporada de “RuPaul’s Drag Race”, correndo o risco de ser apelidado de homofóbico ou transfóbico logo perante um filme que pretende, no fundo, capitalizar esse sucesso (sejamos sinceros, não há aqui um propósito artístico). Com o rol de referências e easter eggs que me possam ter escapado, talvez tenha perdido também um pouco desse “humor interno”.
Adam Shankman, conhecido por êxitos de estúdio como “The Pacifier” (com Vin Diesel) ou o remake de “Hairspray” (originalmente de John Waters), tenta aqui, com uma obra de perfil mais “independente”, fazer o mesmo de sempre: pôr os espectadores a rir com situações mais ou menos embaraçosas.
O estilo de Stop! That! Train! é denunciado pelo próprio título: a inspiração é inequivocamente Aeroplano!, a comédia nonsense seminal de 1980 que satirizava os filmes de desastre produzidos por Hollywood na década anterior. No entanto, o filme de Shankman cola-se de tal forma ao seu predecessor (uso a analogia ciclística por falta de vocabulário ferroviário) que o espectador compara inevitavelmente um ao outro — e há aqui umas quantas tempestades (i.e. gargalhadas) de distância, não é apenas o tempo que os separa. Além disso, o efeito imediato é a incapacidade de gerar uma identidade própria, ficando-se por uma mera vitória de representatividade para RuPaul e a sua trupe. Pequenas vitórias para uns, grandes para outros — o tamanho importará sempre mais para os visados.
Panorama
Blue Film

Numa transição do dia para a noite face ao filme de Shankman, aterramos numa obra onde qualquer gargalhada, voluntária ou não, parece quase criminosa dentro de uma sala cheia. Não estivéssemos a falar de um filme no qual um “criador de conteúdos” aceita 50 mil dólares para passar a noite na casa de um cliente, até se aperceber de que este é o seu ex-professor — alguém que cumpriu uma pena de 7 anos por assédio sexual de um menor – um dos seus alunos por sinal…
Após uma média-metragem pouco vista de 2020 (“The Steps“), Elliot Tuttle entra de pés juntos numa obra incrivelmente controversa. E não o faz pelo que encena sexualmente (aí o espectador voyeur sairá defraudado, temos pena), mas sim pelas questões que levanta, algumas das quais parecem inéditas no espaço audiovisual. Talvez a que fique a martelar durante mais tempo seja: pode um pedófilo, pederasta ou o que lhe queiram chamar, continuar a amar a criança que sempre amou quando esta atinge a plena maturidade?
À saída, ouviram-se reações mistas de quem considerava que se estava a romantizar ou humanizar uma parafilia. Contudo, parece-me necessário fazer a distinção entre compreender um comportamento e normalizá-lo. É um território minado, sem dúvida — e, pessoalmente, achei que Tuttle o soube percorrer com ousadia, empatia e uma curiosidade em expor o que pode passar pela cabeça de alguém nesta condição. Alguém que é forçado a um voto de castidade para não ser criminalizado, o que ajuda a explicar a atitude “invejosa” perante o sexo alheio e a sua tão fácil gratificação.
“Blue Film” não tem respostas fáceis nem cobertor sentimental para oferecer. E perante o discurso simples de castração química propagado pelos media e pelo populismo básico, o filme mostra que muitas vezes, às escondidas, essa castração já foi bem sucedida mentalmente pelos próprios “pervertidos”…
Panorama

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