Será que as histórias necessitam da sua autorização? Cada vez mais se debate a responsabilidade perante as mesmas, privilegiando a experiência directa contra as apropriações de que os escritores sempre beneficiaram, num estatuto à parte. Será que estamos a limitar a criatividade e a liberdade destes mesmos ao restringi-los aos seus próprios mundos, umbigos neste caso, criando cada vez mais uma leitura solipsista e egocêntrica, enquanto damos a outras geografias, parte da sua história, a acessibilidade (e, ao mesmo tempo, limitação) para interagir com a sua própria dor?
“Agata the Writer”, o filme de Kuba Dorabialski, debate-se com esse lugar, o do escritor, o do “contador de histórias”, como aqui são pronunciados, com preconceitos à mistura. Uma escritora australiana de raízes polacas (Mia Wasikowska a desprender-se da sua carreira mais industrializada numa personagem que é uma espécie de alter-ego do realizador / artista) parte para Sarajevo numa viagem de pesquisa para o seu novo livro, pretendendo abordar os horrores da guerra dos anos 90. Mas, de todo, não é bem recebida pela comunidade e pelos testemunhos que vai abordando, sendo constantemente acusada, por um lado, de ser desapropriada para narrar tais histórias e, por outro, de apenas encontrar em Sarajevo o interesse nessa mesma história de violência.
O filme lentamente se instala nessa conversa entre o criador e a matéria criada, e o que fazer com ela, e, aliás, eticamente, com ela. Wasikowska, camuflada e discreta, encontra-se com as diversas vozes, grande parte delas resistentes, apontando o seu lado ‘novelista’ como exploratório (“O que os contadores de histórias sabem sobre brutalidade?”). Por outro lado, há uma reflexão sobre a própria exploração da dor e da tragédia, não pelas vias mais escancaradas e pornográficas, mas pela concentração narrativa, sobretudo através dos tais testemunhos, que não querem ver reduzida a sua identidade a esse facto.

Apropriando-se das palavras de uma das personagens, que recusa recontar a sua trágica experiência à protagonista / escritora, fala-se de uma “narração performática” que inconscientemente adquiriu com o constante contar e recontar do seu pedaço no genocídio de Sarajevo. “Agata the Writer” procura, no seu registo de realismo monótono, uma voz, não a de conforto, mas de cumplicidade e sugestiva do caminho a persistir perante os dilemas lítero-criativos que dispõe, sem nunca se descolar das moralidades. No último tomo, o filme guina-se pelo arrojo da escuta. Mia Wasikowska, na forma da sua autora, convida-nos a pernoitar nos linguarejos e no lirismo que a sua voz desencanta, uma narração ao seu fictício fruto, “The Responsibility” (“A Responsabilidade”), o tal romance em processo de criação. Será esta a voz pretendida?
A última meia-hora instala-se nessa mesma oralidade. O filme nega a sua narrativa cinematográfica para estabelecer um “e se”, numa espécie de audiolivro que refuta as teses do seu próprio filme. Claro que, para uma arte visual como a do Cinema, deixar o espectador ausente dessas imagens (“as imagens que faltam”, vem-me à memória) e entregar-nos à imaginação própria, fazendo de nós, espectadores, ouvintes, é uma finta que não se esperava num filme na senda da ética da escuta. Porém, aqui estamos, escutando, porque o filme assim nos exige.
“O cantar de um pássaro de manhã é belo, de noite é aterrador”

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