À hora marcada, encontrava-me no lobby do Cinema São Jorge até ser encaminhado para o piso superior. “Ela está lá, na livraria”, referiu-me o assessor de imprensa, enquanto subíamos o lance de escadas, até que, antes da chegada ao último degrau, me sugeriu: “Mas, se preferires, podemos fazer na esplanada.”
Entretanto, já lá estávamos, na livraria Janela Indiscreta, onde em tempos se situavam bares de mil e uma gerências e agora dando lugar a um conjunto de estantes com livros de todas as formas e feitios. Do lado direito, numa mesa ali solitária, de costas voltadas à escadaria, Solveig Nordlund aguardava. Fiz sentir a minha presença, pelo que a realizadora luso-sueca olhou para mim com uma expressão de reconhecimento: “Sim, já nos encontrámos, aliás…” Depois do aperto de mão de boas-vindas, retiro da mochila o catálogo da Cinemateca sobre a sua obra. “Veja, da última vez procurámos a carta do Ballard.” Folheei até à página 32, enquanto Solveig dava sinais de recordar o momento. “Aqui.” Pressionei o dedo na página e deslizei o livro à sua frente. Pegou nele e ficou, durante alguns segundos, a contemplar a fotocópia da correspondência. “Sim, é ela mesma”, afirmaria por fim.
Por entre os livros, que figurativamente assumiam o papel de espectadores daquele nosso encontro, surge um pedido para “gravar a conversa”. “Claro que sim”, responderia. Pressionei o botão vermelho reconhecível a ‘record’ e assim começa …
Quero começar pelos escritores, que são um constante fascínio ao longo da sua filmografia. A sua primeira curta, recordo, “Nem Pássaro, Nem Peixe” (1977), livremente inspirada em Lovecraft, e depois embarcou no Ballard, o Zimler, e até tem uma entrevista com a Margarida Duras (1994) e um filme sobre o António Lobo Antunes (2009) e do Mia Couto (2019). Ou seja, há sempre uma matéria literária como ponto de partida.
Sim, os escritores têm sido o meu ganha-pão, por assim dizer. Retratos de escritores para a televisão … fiz vários, quer na Suécia, quer aqui. Gosto também de escritores que nunca pude fazer. A Patricia Highsmith, por exemplo [aponta para a estante mais próxima], sempre a admirei imenso, se tivesse sido viva quando andava a fazer aqueles programas, teria a filmado com toda a certeza.
Há sempre um lado literário na matéria-prima dos seus filmes. Por exemplo, “Dina e Django” é inspirado numa notícia de jornal, não é?
Não. A minha mulher a dias é neta da Dina. Portanto, aquilo era mesmo familiar, digamos, e depois (é uma coisa curiosa) soube da morte do Django de uma forma inesperada: foi o sobrinho a mandar recado pelo YouTube. “Olha, o Django morreu”. As informações paralelas que a Internet permite são fascinantes. Fiquei a saber assim, de repente. Quer dizer, ele não se chamava Django, assumiu essa personagem, penso que o nome real era um nome muito vulgar …
Porque no seu filme dá a entender que nasceu desse meio, até porque no final há o recorte de jornal a dar entender que foi baseado nisso mesmo …
Sim, talvez, já não sei. Só sei que ela [Dina], como era menor, teve um castigo bem mais leve, mas preferiu ficar na prisão mais anos do que precisava.

Mas passando para o teu primeiro trabalho de realização, “Nem Pássaro Nem Peixe”, apesar de ser livremente inspirado no Lovecraft, tem uma coisa muito específica: um desencanto com o pós-25 de Abril. É um filme desiludido com os ídolos que a revolução prometeu, e, novamente, para “Dina e Django”, que começa antes do 25 de Abril e avança até lá, o qual parece pintar os homens, e a relação deles com as mulheres, como imaculada, estagnada, como se a revolução não tivesse mudado nada nesse aspecto.
Sim. Nós éramos realmente desencantados nessa altura. Eu e o Jorge Silva Melo fomos embora de Portugal em 1980, precisamente por isso, por essa falta de mudança. Estávamos à espera de “não sei o quê”, e depois foi uma época muito difícil, em 1979 não havia gasolina nas bombas, por exemplo. As pessoas já se esqueceram, mas foi assim, foi por isso que fui embora. O Jorge foi por causa da Cornucópia. De certa forma, sim, tens razão, o desencanto estava presente em tudo o que fazíamos nessa altura.
Sim, até no final do “Dina e Django”. Recordo, entretanto, que há um lamento de um taxista no filme, aquele que será a vítima do crime motor da narrativa, ele justifica a desilusão, com “nem sou pelos fascistas, nem sou pelos comunistas”. Mas voltando cá para o MOTELx, o que é muito curioso, e eu vou fazer a pergunta desta maneira, entendendo em conta o prémio que vai receber, o Prémio Noémia Delgado, considera-se uma cineasta de género?
Não, acho que não. Nunca tive essa ambição preconcebida e nunca pensei: vou fazer filmes de terror. Calhou, talvez. São apenas assuntos e temas que me interessam (o Ballard, a ficção científica, o corpo, o fantástico) mas não o vejo como estratégia. É porque é aquele género que gosto de ler, de ver, e se calhar deve haver outras pessoas como eu.
Mas não acredita que tenha desbravado caminho?
Sim. Até fiquei espantada quando abri o programa do MOTELx. Pensei: haverá público para todos estes filmes? É muita coisa [risos].
Há sempre público no MOTELx, mas é muito curioso o trabalho que eles têm feito de resgate, tentando trazer para a luz do cinema de género nomes da “nossa praça” que nunca foram lidos assim. Este ano até têm a trilogia do José de Sá Caetano!
Sim, vou ver. Vi na altura o filme dele [“As Ruínas no Interior”], mas não se pensava naqueles termos. Não se dizia: este é de género, este não é. Pensava-se em filmes em geral. A memória também não é muito de confiança, mas há dias fui rever a “Death in Venice” do Visconti no Nimas e não me lembrava de tudo. Lembrava-me do rapaz e do Dirk Bogarde, mas não de toda a vida na praia. É um muito bom filme. Podia até estar neste festival [risos].
Contudo, não sente este prémio como um tributo ou como uma homenagem?
Sinto que tenho sido muito bem tratada pelo MOTELx. Tanto com o ciclo do “Aparelho Voador” como agora. Com esta ‘coisa’ do MOTELX chegou um novo público que não me conhecia, ou que não me conhecia neste contexto, e isso é bom. Hoje em dia há um problema com o público em geral: como é que as pessoas encontram os filmes? Há muitos filmes que gostaria de ver, mas como? “A Filha” (2003) foi editada em DVD, o “Aparelho Voador de Baixa Altitude” (2002) também, mas já ninguém tem leitor de DVD.
Estão a voltar … os DVDs. É quase como uma resistência à dominação do streaming.
Talvez, mas no meu computador já não há leitor [risos].
Mas voltando ao prémio, sei de fonte segura que há colegas seus que não gostam de receber prémios porque sentem que é uma indirecta à reforma.
Não vejo dessa maneira, tenho projectos sabes? As ‘coisas’ são muito lentas (com os concursos, não sei quantas páginas é preciso escrever) mas tenho. Claro que com a idade, uma pessoa pensa nisso, mas tento manter-me, porque se não, o que é que vou fazer?
O Manoel de Oliveira filmou até morrer. Chegou aos 106 anos!
Sim, isso.

Vou fazer uma pergunta que outros colegas seus também reclamam: ao propor projectos que estão fora do cânone habitual do cinema português (o “Aparelho Voador”, “A Filha”, que se aproxima claramente desse conceito de cinema de género), alguma vez sentiu preconceito da parte das instituições de apoio?
Não sei se era preconceito, acho que depende muito dos júris de cada altura (variam). Talvez não fossem projectos que os júris daquele momento vissem como interessantes, e agora, realmente, estou num período difícil, parti os dois braços, tive de vender a casa onde estava na Suécia. Estava a viver lá os últimos dez anos, tinha projectos, mas já não consigo concretizar tudo o que pensava.
Os dois braços? A cair?
Sim, sim. Portanto, sem os braços não posso conduzir, e lá no norte da Suécia, onde vivia, sem carro não se consegue viver, estava longe de tudo. Estava cá a visitar o meu filho quando aconteceu o acidente. Por isso, fiquei.
Então Portugal ficou no coração, até ao final.
Sim. Tudo bem, tenho o meu filho cá. Estou dividida, se tivesse ficado na Suécia, teria feito um filme sobre a minha avó, ou a mulher que foi a matriarca da aldeia onde cresci. Ela era menor quando levantou o dedo para reclamar a terra no norte da Suécia, numa altura em que o rei organizava a distribuição dos territórios. Cada lote tinha um bocadinho de tudo: floresta, campo e água para pescar. Ela era mulher, tinha dois filhos e não tinha marido. Mesmo assim foi a primeira a levantar o dedo e ganhou, escolheu o terreno que quis. Os filhos deviam ter dez anos nessa altura, depois construíram um hotel, organizaram estábulos com cavalos para levar o correio. A senhora não deve ter ganho um tostão, era tudo sem dinheiro, mas estava tudo organizado. Nunca cheguei a conhecê-la; já tinha morrido há muito tempo. É uma história que me parece muito digna de ser contada.
Mas não encontrou correspondente em Portugal?
Não acho que haja correspondente directo. Aqui não havia um rei a organizar a coisa, e seria dificil para uma mulher em Portugal, basta ver: em 1976 é que puderam votar pela primeira vez. Na Finlândia já votavam desde 1907, antes da revolução russa. São realidades muito diferentes.
Mais uma vez, esse atraso é algo que conscientemente tentou retratar nos seus filmes, especialmente na “Dina e Django”, esse peso que a sociedade portuguesa coloca sobre as mulheres?
Acho que não fiz isso de forma intencional ou programática. O “Dina e o Django” não podia ter passado depois de 25 anos que aconteceu, mas podia passar em qualquer país. A história de amor, o ciúme, a possessividade (isso não é exclusivo de Portugal), o Django não é propriamente machista, mas trata a Dina como se fosse uma propriedade sua. São aqueles amores tóxicos, aquelas noções. Nunca fiz filmes pensados politicamente para apontar coisas. Nunca foi essa a intenção.
Uma pergunta ingrata: se não pudesse mais filmar e tivesse de escolher uma obra como o seu estandarte (o filme pelo qual quer ser lembrada) qual seria?
Escolheria “A Morte de Carlos Gardel” (2011).
A sério?
Sim
Mas voltando ao género, ou melhor, ao Ballard … prometi na nossa última conversa que iríamos voltar a isso. Onde começou esse fascínio pelo escritor?
Aqui em Portugal vendiam-se as histórias dele num livro pequenino, coisa assim. Acho que o comprava quando não tinha nada para fazer [risos], e como são poucas páginas, lia no instante. Mais tarde comprei os livros completos, e são milhares de páginas de histórias curtas. Ele fez uma profissão séria daquilo e provavelmente foi aí que nasceu a vontade de o adaptar.
Lembro-me de uma cena de “Dina e Django”, a do parque de estacionamento à noite, os dois a conversar dentro do carro, e recordo-me de pensar que aquela sequência tem, por si só, uma qualidade muito ballardiana. Uma paisagem urbana fria, quase pós-apocalíptica. Já pensava assim nessa altura? Ou seja, com Ballard sempre na consciência e no desejo?
Talvez um pouco, mas nessa altura nem me apercebia disso. Não estava a pensar no Ballard de forma consciente, mas provavelmente já havia esse desejo de qualquer coisa, essas sementes. Recordo da cena que falas, era por cima do parque de estacionamento do Palácio da Justiça … foi ali naquela zona.
E quanto “A Viagem a Orion” (1986), que vai estar no ciclo do MOTELx, é uma adaptação ballardiana filmada num barco de cruzeiro da Finlândia, se não estou em erro?
Sim. Aquilo foi filmado num desses navios de cruzeiro da Finlândia, que dava perfeitamente como interior de uma nave espacial. Fiz aquilo para a televisão, mais ou menos na mesma altura em que passei a entrevista com o Ballard. Vi recentemente no YouTube(pode ser visto lá) e acho, sinceramente, que está muitíssimo bem filmado para o orçamento que dispunha. O director de fotografia [Gunnar Källström] era muito bom. Estou orgulhosa daquele filme.

E voltando a outra curta que será exibida no MOTELx deste ano – “O Espelho Lento” (2010) – lembra-se do que a fascinou no conto do [Richard] Zimler que o originou?
Já não me lembro, honestamente [risos]. Sei que é aquela coisa do espelho lento … é misterioso, não é? Mas o filme eu lembro-o mal. Vou rever neste sábado [5 de setembro].
E “Uma Voz na Noite” (1998)?
Também me lembro pouco. Foi uma coisa que aconteceu à minha mãe, na realidade. Ela recebia chamadas telefónicas de madrugada e, depois, a pessoa não dizia nada. Mas já não me lembro bem de como acabava o filme. Se ela desligava o telefone ou não.
Fico-me pelo paralelismo, tanto o espelho como o telefone são objectos de memória, de comunicação com o passado. E nos dois filmes há algo suspenso, que nunca se resolve completamente. Isso estende-se por muita da sua filmografia. Os seus filmes têm uma relação muito específica com a ambiguidade dos finais.
Sim, eu gosto daqueles finais um bocadinho ambíguos como dizes. Na “Dina e Django”, aquela história de amor termina ali, e ao mesmo tempo há aquele momento muito bonito em que o Django diz que o vermelho chegou. No “Até Amanhã Mário” (1994), nós ficamos a saber que a mãe do Mário vai morrer, mas ele ainda não sabe. O filme fica suspenso nesse momento. Gosto disso.

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