Em Anne Hathaway vemos a incorporação de várias artistas dotadas de tais maneirismos mercantis, ora Madonna como o clássico exemplo, ao fenómeno contemporâneo Rosalia, passando pelas “enche-estádios” Beyoncé ou Taylor Swift. Ela é Mother Mary, pop star embebida em adereços ou iconoclastia, ela é a própria imagem-sacra. Das suas músicas saem sermões, dos palcos onde pisam nascem igrejas, da afluência, da energia em massa despertada do seu público fomentam missas. São cultos, cultuadas, objectos de desejos, mas acima disso da devoção … supliquem os mortais perante os sacrifícios cometidos por esta mártir musical, o de renegar o corpo e a carne em nome de uma performance. 

David Lowery, o “realizador hipster” como alguém o baptizou (curiosamente trabalhou demasiadas vezes para a Disney), destroça a figura imaculada do espectáculo, dela vem uma provocação, o facto de serem frutos de uma criação conjunta advinda do mercado. No entanto, a sua estrela entra em crise existencial e reencontra a sua antiga estilista, requisita um vestido, um a condizer com o seu actual estado de espírito (e espírito tem força aqui). Esta modista, interpretada por Michaela Coel (actriz sensação de pequeno ecrã que se tem esgueirando na expansão timidamente), com os seus ares de autismo e um ressentimento entranhado, aceita, mesmo com resistência bluff, ajudar no pedido da sua Mãe Maria. Uma costura que se revelará numa psicanálise à antiga relação de ambas até começar a deslizar por caminhos espíritas e esotéricos. 

Mas antes desse passo (em falso, antecipo), “Mother Mary” demonstra com precisão a utilização de ambas actrizes num duelo verbal, sentimental e por vezes conjugal, mesmo que desigual perante as valências de cada uma, e as falências de ambas. Lowery brinca a peça expressionista, com toque de dramaturgia de palco a sublinhar o lado performático daquele encontro, em paralelo com as performances da artista em flashback integrados. Na verdade, há uma espécie de liberdade concedida às actrizes, mesmo que os diálogos necessitam e ostentam a sua prisão. O hipotético vestido vai adquirindo as costuras da metáfora e da alusão, mais do que a suposta materialização, mas o conto é assombrado, mesmo que o marketing do filme brinca às taglines: “It ‘s not a ghost story”. 

A metáfora, agora contagiada nos arredores do sobrenatural, faz em si comichão, precisa do inexplicável para ser falsamente críptico, e os diálogos carpinteiros até então construídos dão lugar ao jogo visual, ao malabarismo da boa técnica de videoclipe glamouroso e expressivo (apreciativo ou depreciativo conforme o “a gosto”, é uma manobra que se interliga para com o universo entendido). Portanto, tudo acaba por ser isso mesmo, metáfora desenhada, sem uso da imaginação do espectador, está lá, como desculpa, como sinal de incompetência daquilo que o filme poderia ir e acabou por não vir … a tal crítica, acidez, ou absurdismo de um biótopo mais diluído nas outras esferas e estados. A “cereja no topo do bolo” é saber após a projecção de “Mother Mary”, que este se assemelha demasiado a um reconto hagiográfico. 

O mundo do showbusiness e da tal “fábrica em massa dessas estrelas”, isso, deixado ao acaso, e que o acaso se arranje, porque as “pop stars sofrem” e o fruto desse sofrimento é do mais ingénuo possível (nesse aspecto o igualmente ingénuo “Vox Lux” de Brady Corbet deteve melhor desempenho no mesmo pavilhão). Talvez porque Lowery não quer fazer inimigos, mesmo sendo o tal “hipster”. Acabou por fazer uma sequela não oficializada do seu aclamado “A Ghost Story” … quero a devolução do bilhete!

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