Nos fictícios Jogos Olímpicos em Luboj, “Agon”, de Giulio Bertelli, acompanha três atletas italianas de alta competição, posicionadas no topo dos rankings e aparentemente destinadas a “abocanhar” o ouro nas suas respectivas modalidades. Porém, todas elas têm, à sua maneira, uma corrente, um obstáculo, ou um “esqueleto no armário”, que as impede de alcançar o objectivo final.

Apropriando-se do formato documental, Bertelli aposta na sua primeira longa-metragem como um exercício de matrizes que reconhecemos nesse determinado género, mas que, por via de uma ficção subtilmente tingida, manobra dentro dessa semiótica documental. Acreditamos no que vemos no grande ecrã, assumindo a sua veracidade; contudo, esse cruzamento entre elementos reais e outros imaginados (materializados para o filme) conduz-nos às profundezas daquilo que entendemos o documentário como instância de legitimação factual. Será que ainda acreditamos plenamente no género em si?

Mas não se deixem enganar. Tal como o título, “Agon”, evocando o conceito grego de agon enquanto espaço de confronto e performatividade, remete para uma dimensão intrinsecamente teatral da competição. O que aqui vemos não é mais do que uma construção, uma criação deliberada de elementos. Não há pós-verdade, mas antes uma espécie de pseudo-verdade. É nesse campo, quase como um “Cavalo de Troia”, que o filme opera (distanciando-se do mockumentário, onde os códigos documentais são incorporados para estabelecer a sua farsa, aqui a estética documental como mecanismo legitimação da verosimilhança de imagens ficcionadas). Recorrendo ao imaginário associado ao desporto de alta competição, “Agon” constrói um retrato que não é tanto de fracassos, mas, e sim, de derrotas. O seu ambiente sombrio sustenta essa abordagem, numa trajectória solipsista, rígida e friamente humana.

No centro da narrativa estão as três competidoras, três protagonistas que corporizam diferentes formas de rupturas. Yile Yara Vianello, reconhecida por aventuras a mando de Alice Rohrwacher, é uma esgrimista que, acidentalmente, mata a sua adversária (num episódio que evoca o fatídico combate de Vladimir Smirnov em 1982) sendo posteriormente alvo de um inquérito que questiona a sua permanência em competição. Do outro lado, Alice Bellandi, judoca na vida real, interpreta uma versão ficcionalizada de si própria, lidando com uma lesão no joelho susceptível de comprometer o seu desempenho (nota curiosa: numa das lutas, enfrenta a portuguesa Patrícia Sampaio). Por fim, surge a atiradora Sofija Zobina, desclassificada após a divulgação de um vídeo que a envolve numa prática ilegal de caça a lobos árcticos.

Três mulheres, três vencidas. Nenhuma destas narrativamente se cruza, limitadas às suas “comitivas”.As promessas italianas caem, uma a uma, como peças de dominó. As consequências e os fardos que cada uma carrega expõem fragilidades profundas: a saúde mental, a rigidez estrutural do desporto de elite, a construção de corpos e mentes de aço, que, afinal, são apenas revestimentos fugazes sobre a vulnerabilidade da carne humana. Não há good feelings aqui. Raramente o desporto nos soou tão solitário.

Deixe um comentário

Outras leituras