Fiquemos por aqui… na ilusão do cinema, ou, para não sermos mal interpretados, na ilusão de ser cinema. Antes, porém, das estocadas nesse sentido, importa advertir: nada disto se pretende como ataque pessoal ao escritor José Luandino Vieira, cuja história e trajectória, como podemos ver em “Chá Verde de Pássaros Escritos“, surgem representados com a dignidade esperada num objecto de teor pedagógico; talvez até funcione como porta de entrada, um primeiro apetite para uma exploração mais funda da sua obra, contudo, o efeito não difere muito de uma espreitadela pela página da Wikipédia: retém-se o essencial, mas dificilmente se vai além disso … não há nada fazer, prosseguimos para além das palavras, do texto e do homem por detrás delas.

Chá Verde de Pássaros Escritos“, ao contrário de tantos outros, não ambiciona ser cinema; apresenta-se, sem rodeios, como uma “Reportagem de Sandra Inês Cruz”, e assim permanece: um objecto que fala a língua da televisão, mais concretamente o idioma jornalístico-televisivo, de vocação enciclopédica. Mesmo quando ensaia um vislumbre visual que procure acompanhar o imaginário de Luandino Vieira, ou dramatizar, ainda que timidamente, a sua resistência — ao regime (prisioneiro no Tarrafal, foi integrante do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, entre outras “aventuras” e “desventuras”) e para além dele —, tudo permanece dentro do território confortável do olhar do repórter, sem nunca romper essa moldura.

Já vimos documentos mais trabalhados, mais “carpinteirados”, na mão de Pedro Coelho, nas suas inúmeras reportagens episódicas; aqui, “Chá Verde de Pássaros Escritos” não ultrapassa a condição de simulacro, e, fora desse contexto de não-cinema documental, resta como alternativa válida para aulas de Português e História, maioritariamente.

Sobre Luandino Vieira, permanece o fascínio: a companhia, os testemunhos, e, sobretudo, os seus escritos: as alegorias, a persistência num dialecto comum que, como ele próprio refere, carrega simbologias políticas só plenamente decifráveis por quem partilha esse universo; essas histórias, no papel ou fora dele, são tesouros. O “filme” (com aspas, para não confundirmos a metragem com cinema) limita-se a ser passagem. E é pena que ficamos com uma reportagem …

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