“O estilo é para os modistas meu caro, o teatro é isto … tripas, emoções , espectáculo …”

Chegamos a Mário de Sá-Carneiro e às suas “As Confissões de Lúcio” sob o signo do último trabalho do realizador e produtor António da Cunha Telles (“O Cerco“, “Kiss Me“), aquele que poderá tido na História como um dos grandes impulsionadores do chamado Cinema Novo Português; se anteriormente Sá-Carneiro já surgira em “conversas inacabados” por via de João Botelho (em 1981), aqui à letra, ou a tentativa dela, que denuncia, por um lado, a paixão pela adaptação do nosso património literário e, por outro, a convenção (ou até o facilitismo) que esse gesto pode carregar.

Há, porém, uma nuance incontornável: trata-se de uma obra póstuma, com Cunha Telles a falecer em Novembro de 2022 (a meio da sua montagem), ficando a conclusão a cargo da sua filha, Pandora da Cunha Telles, e de André Rosa de Carvalho; o resultado, visto desse prisma, acaba por resvalar para algo próximo de uma “televisão inacabada”, com ambição de grande ecrã mas textura de outro formato.

Cherchez la Femme” (traduzido literalmente como “procure a mulher”, ficando a dúvida sobre a opção de não manter “As Confissões de Lúcio” e optar por uma revelação críptica do seu ‘plot twist’) transporta-nos para uma Lisboa de viragem entre os séculos XIX e XX, onde Lúcio (Ângelo Rodrigues), dramaturgo e escritor, conhece o poeta Ricardo (Romeu Costa) numa dessas tertúlias de aristocracia pseudo-artística; desse encontro nasce uma amizade que se interrompe quando Ricardo parte para Paris, regressando mais tarde, inesperadamente, noivo de Marta (Joana Barradas), instaurando-se então um triângulo onde o desejo e a suspeita (tanto amorosa como de lealdade) fervilham, como se algo de deslocado habitasse tanto em Marta como no próprio regresso de Ricardo.

Poder-se-ão escrever, no futuro, teses sobre a figura feminina no cinema de Cunha Telles, mas a alquimia desta obra final (talvez desalinhada dos seus desígnios originais, dada a interrupção da montagem) fica-se apenas uma sugestão do que poderia ser mais do que a materialização do sexo feminino em outros quadrantes. O sexo mantêm-se presente, como isca nectarina na caça de um “macho reprodutor”, como o pinheirinho baboso, a alturas apresentado aparentemente sem razão, produzindo a essência sexual sem género algum

Filme mais interessante na sua estrutura e da retirada dela do que propriamente na sua concepção, demasiado certinho, desbravado na própria perversidade; esperava-se mais, e ao mesmo tempo menos, não podemos ser exigentes com o último sopro dos homens.

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