A dupla Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis afirmou-se com histórias de eremitas e caranguejos régios em “Re Granchio” (“The Tale of King Crab”, 2021), apresentado entre nós em Cannes, mais precisamente na Quinzena de Realizadores, onde desde logo se lhes colou o rótulo de “autores”; depois dessas errâncias entre o mítico e o telúrico, avançam agora por um trilho poeirento, de frente erguida, rumo a um Oeste em decomposição, “Testa o croce?”, filme que parece responder, ou contornar, a pergunta inevitável: como se pode fazer um western em pleno 2025, quando a desconstrução se tornou não só método, mas quase destino.

E, contudo, nesta viagem por uma Itália que não finge ser América, acompanhando a fuga de dois românticos-criminosos perseguidos pelo próprio Billy the Kid (John C. Reilly), há um jogo curioso entre o reconhecível e o revisionista, como se a própria história do género, e as suas múltiplas derivações, se insinuasse na imagem, convocada sob a forma de ficção que dialoga com o seu passado, ora citando, ora desviando-se, ora simplesmente habitando essas sombras.

Testa o croce?” foi exibido ao público português na última Festa do Cinema Italiano, ocasião em que Matteo Zoppis conversou com o Cinematograficamente Falando… sobre os maneirismos do western, a pertinência de regressar ao género no presente, as escolhas de elenco e a construção da banda sonora, deixando ainda no ar uma espécie de vénia final a Enzo G. Castellari.

Sinto que este filme é, de certa forma, uma resposta ao western enquanto género, usando os elementos do western spaghetti da mesma forma que o próprio subgénero foi uma resposta ao western americano. Mas antes de irmos à origem da ideia, interessa-me perceber esse posicionamento.

Quando pensámos em fazer um western hoje, a primeira pergunta foi: o que significa fazer um western em 2025? O género atravessou décadas e foi sempre uma forma de os realizadores falarem das questões sociais e políticas do seu tempo. Tentámos fazer o mesmo, um filme que pudesse desmistificar o mito do Oeste e falar sobre falsas notícias, sobre um mundo hoje muito violento, egocêntrico e megalómano. A intenção era fazer um filme moderno, e também uma carta de amor ao género.

O que tentámos foi percorrer, ao longo do filme, todos os subgéneros e variações que o western comporta, por isso começamos num western quase clássico e chegamos ao western revisionista, passando pelo western spaghetti, pelo zapata e até pelo psicadélico. Não chegámos ao neo-western, mas quase [risos]. 

Sendo meio americano, foi muito interessante juntar estas duas histórias e estes dois mundos: o mito do Oeste americano em Itália. E é por isso que digo sempre que não quis fazer um western spaghetti, mas sim um western passado em Itália. Porque muitos dos spaghetti, e dos western paella, foram rodados em Itália e em Espanha, mas decorriam na América, na fronteira com o México. A nossa intenção era ancorá-lo em Itália, na nossa história. Foi aí que pensámos na primeira visita de Buffalo Bill a Itália (veio duas vezes). Ao percorrer as histórias e as lendas em torno dessa visita, percebemos que o Wild West Show era essencialmente uma colecção de histórias mistificadas do Oeste. Ele próprio as terá mistificado, porque era um grande showman. Isso nos inspirou como ponto de partida: desconstruir o género e fazer um filme que desconstruísse o western em território italiano.

Reconheço no filme um lado psicadélico muito “El Topo”, muito Jodorowsky, principalmente a partir do momento em que existe uma cabeça decepada com personalidade. Mas o que me parece um elemento verdadeiramente específico e fértil é o mencionado Wild West Show, porque o western, enquanto género, foi em grande parte uma criação desse tipo de espectáculos. Não só o Buffalo Bill, mas também, por exemplo, a reconstituição teatral da morte de Jesse James. Há nessa figura do Buffalo Bill uma dimensão importante: ele traz o sonho americano à Europa, mas traz-o já em estado de decadência. Não sei se era intenção vossa trabalhar também esse lado.

Era exactamente isso! O Buffalo Bill traz o mito do Oeste e o sonho americano. Como disse, muita gente na Europa conhece os cowboys graças a ele, incluindo a forma como se encenou a morte de Jesse James. Todas essas histórias criaram na nossa cabeça, em gente comum, a ideia do que a América poderia ser. O que tentámos fazer com o filme foi subverter completamente o género. Mas não nos subgéneros de que estamos a falar, isso já foi feito, obviamente. “McCabe & Mrs. Miller” (Robert Altman, 1971) funciona muito bem nesse termo, por exemplo. Para nós era importante que, embora o espectador pense que o herói do western é o Santino, o cowboy italiano [interpretado por Alessandro Borghi], na realidade é a Rosa (Nadia Tereszkiewicz).

Ainda que terminou por mencionar a Rosa, porque a forma como a personagem está construída remete-nos muito à imagética de Claudia Cardinale em “C’era una volta il West”, de Sergio Leone (1968). Não sei se foi intencional, e aproveitando essa pergunta, queria também falar sobre o casting, tanto a escolha da francesa Nadia como a de John C. Reilly para Buffalo Bill.

Para a personagem da Rosa tivemos várias inspirações. A Claudia Cardinale, sem dúvida, mas não tanto como se poderia pensar à primeira vista. Ela usa aquela peruca, e isso era mais uma referência a “McCabe & Mrs. Miller”, que considero um dos primeiros westerns feministas, subvertendo tudo. Ela é a verdadeira heroína desse filme, embora seja uma anti-heroína. Mas a personagem da Claudia Cardinale em “C’era una volta il West” segue um percurso semelhante.

Quanto ao Buffalo Bill, queríamos um criador de lendas, alguém que sublinhasse que a História é escrita pelos poderosos. Afastámo-nos um pouco do personagem histórico, embora tenhamos lido muito sobre ele, tratando-se de um homem muito controverso. Penso que sabia muito bem o que o Oeste realmente era, mas estava muito mais interessado no espectáculo que a sua personagem narrava. A nossa intenção era ter alguém que provavelmente sabe que a história que conta não é a história real, mas que não está assim tão interessado nisso. É a mistificação da verdade, um padrão temático que temos em todos os nossos filmes com o Alessio [Rigo de Righi]

Como chegámos ao John C. Reilly? Tivemos uma primeira reunião por Zoom em que tentávamos convencê-lo, a dizer-lhe o que Buffalo Bill poderia fazer, o que seria fantástico neste papel. Ele ia dando ideias, e nós ficámos um pouco confusos. De repente disse: “Rapazes, não percebo porque é que estão a tentar convencer-me. Eu sou o Buffalo Bill.” [risos].

Foi assim que entrou a bordo. Uma operação muito genuína. Reescrevemos a personagem juntos. O mesmo aconteceu com a Nadia e com o Alessandro: fomos adaptando o argumento. Por vezes, quando estás a filmar, a verdade é mais interessante do que o que escreveste.

Isto é muito engraçado no contexto dos westerns spaghetti e de todos os westerns fora da América, porque muitos deles tinham elencos muito diversos, de várias nacionalidades, e havia sempre um problema de comunicação. Lembro-me das histórias do Clint Eastwood com o Sergio Leone: Leone não falava inglês, Eastwood não falava italiano. No vosso caso, têm uma actriz franco-finlandesa, um actor americano e um elenco italiano. Como foi essa intercomunicação?

No essencial, toda a gente fala inglês nos dias de hoje, e o inglês é também a minha língua materna … tenho costela americana. O Alessandro fala inglês muito bem. A Nadia também, e, repara, fala bastante bem italiano! Aprendeu, sabia algum antes do filme, fez treino e melhorou muito. É espantoso como se pode aprender línguas rapidamente!

Por isso, entre eles falávamos tanto em inglês como em italiano. Com o Alessandro, por vezes dirigíamo-lo em italiano; nas cenas com a Nadia, passávamos para inglês. O John não fala italiano, mas fala inglês como é óbvio. Depois tínhamos um actor argentino, Peter Lanzani, que não falava muito italiano, o que era bastante engraçado e nós gostávamos desse lado macarrónico. Tinha aquele sotaque sul-americano e estávamos a reentrar na parte surrealista. 

No elenco tínhamos Gianni Garko (“If You Meet Sartana Pray for Your Death”, 1968), que era muito famoso nos anos 60 e 70, e perguntei-lhe como é que funcionava realmente essa panóplia de línguas naquele tempo, dado que tudo era dobrado. Ele contou-me que alguns nem sequer diziam as falas, falavam de qualquer coisa, do tempo que fazia, e depois dobravam e adaptavam as linhas [risos]. É uma forma de trabalhar bastante absurda, se pensarmos bem.

Reparo que outro elemento homenageante ao género no vosso filme é por via da banda sonora (Vittorio Giampietro) que parece trabalhar por mimesis com esses filmes. Foi isso?

Viemos de um filme anterior no qual usávamos uma canção folk muito antiga, e reparámos que há canções folk muito semelhantes em Itália e nos Balcãs, com letras diferentes mas uma gramática musical muito parecida. Nesse filme usávamo-las de forma extradiegética. Neste, dissemos: e se puxarmos isso para dentro do filme e deixarmos as próprias personagens narrar a canção? A minha intenção era fazer algo muito mais musical do que um western convencional. 

Alguns dos instrumentos que usámos têm reminiscências do western, claro, mas em geral gostamos de música que não sublinha a emoção que deves sentir, que funciona ao contrário, que contrasta com o que devias estar a sentir.

Visto que falámos tanto de westerns spaghetti, há algum em particular que adore e que tenha querido invocar neste filme?

No filme especificamente, não sei. Somos fãs do Duccio Tessari (“Una pistola per Ringo”, 1965), por isso vimos muitos filmes desde miúdos. Mas posso dizer-te westerns de que gosto, que talvez não tenham nada a ver com o filme que fizemos. Gosto sempre do “The Ballad of Cable Hogue”, o filme satírico do Peckinpah, é o único que fez fora dos estúdios, e é curioso que contraste com tudo o resto dele, não é um exemplar violento de todo. 

Depois há muitos westerns psicadélicos de que fascina, e depois temos os mais clássicos como, por exemplo, “The Ox-Bow Incident” (William A. Wellman, 1943), bastante conhecido, o qual acho muito bom. Para ser sincero, não conseguia fazer uma lista definitiva, mas há muitos.

Pessoalmente gosto muito do “Keoma”, do Enzo G. Castellari, um dos últimos westerns spaghetti.

Tentámos tê-lo no filme, aliás.

O Franco Nero?

Não, o Castellari. Ele já tem uma idade, e no final tornou-se complicado, não insistimos muito, mas teríamos adorado tê-lo.

Para terminar, há outro género ou subgénero que queiras explorar num próximo filme, assim com um tratamento idêntico ao “Testa o croce?”?

Gosto do policial italiano, o poliziesco. Se tiveres sugestões, diz-me. O que é que gostavas de ver?

Um poliziesco. Bem old school, muito violento, à maneira do Castellari.

Gosto desta ideia. Um Castellari. [risos] Com aquele charme dele.

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