Facilmente se imaginaria como seria este exacto enredo nas mãos yankees, entregue a uma indústria que tenderia a resolvê-lo pela mesma via da comédia, só com o seu histrionismo e gosto pelo absurdo; em “What Marielle Knows” (“A Rapariga Que Sabia Demais“, título traduzido com ares hitchockianos), porém, parte-se de uma hipótese (longínqua, diga-se), a de uma menina que adquire poderes telepáticos, conseguindo ouvir os pensamentos dos seus progenitores, isto, após levar uma bofetada de uma colega irada. Rapidamente essa habilidade se torna constrangedora ao ponto de colocar à prova a relação dos pais, exposta sem filtro, sem refúgio, a intimidade inexistente.
Mais do que uma simples entrada de uma criança no mundo dos adultos, trata-se antes de um embate, de um não-adaptar, de um confronto directo com aquilo a que chamamos “adulthood”, visto sob a óptica crua de quem ainda não domina as suas regras; noutro contexto, vislumbrar-se-iam escatologias, embaraços e uma comédia de acasos, mas Frédéric Hambalek (a sua segunda longa-metragem) escreve e realiza antes uma espécie de anomalia dentro de uma realidade confortável, explorando o desconforto da perda de privacidade e o modo como os nossos filhos nos observam e, de certo modo, nos desconstroem.
Mais reflexivo do que hilariante (o que também se poderá justificar pela diferença de recursos entre uma comédia alemã e uma americana), o filme procura ser mais do que uma anedota, assumindo-se como exercício (mais teórico do que técnico) sobre uma sociedade em plena adultização, ou, talvez, sobre a incapacidade dos adultos de deixarem de ser crianças, tantas vezes embirrentas como frágeis.
“What Marielle Knows” funciona nas entrelinhas, mas acerta em cheio na escolha da jovem Laeni Geiseler (“Sound of Falling“) como cobaia desta dádiva/maldição.

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