“If you understand the beginning, the end will not trouble you.”

O conselho surge pela voz de um taxista que transporta a jovem Miriam (Sophia Anthony) à sua futura estadia, a prestigiada Academia de Alstroemerias; às palavras segue-se um contacto escrito numa amostra de papel, “precisarás”, oferecido com uma insistência que se cola aos olhares desconfiados e cépticos da passageira. Antes dessa introdução, porém, já testemunhámos um crime nas mesmas paredes que servirão de palco à restante narrativa, e nesses primeiros minutos fica esclarecido o terreno que pisamos: uma mimetização declarada da estética giallo, particularmente na sua vertente sobrenatural, formalizada por Dario Argento, cuja receita gerou simultaneamente obra-prima e maldição, “Suspiria”, e é sob esse espectro de 1977 que o espectador se vê aprisionado aos clichés, seja na fotografia, na música (com Claudio Simonetti, colaborador habitual na sonoridade do cinema Argento, faz aqui a sua “perninha” … com agrado aplica-se), seja até na forma como a morte inaugural nos é apresentada: “tão Suspiria”, pensamos, já sem surpresa.

E, falando em Argento, coincidência ou não, nas feições da “heroína” Anthony adivinham-se contornos que evocam Asia Argento, como se o filme procurasse, também no rosto, essa filiação espectral. Pelos vistos, a primeira longa-metragem de Daniel John Lerch, “Saturnalia”, nasce dessa pulsão: uma hipótese de filme “à la Argento” sem Argento como conductor, e sobretudo na sem a tal “sujidade” que o maestro, mesmo nas suas composições mais oníricas, nunca deixou de convocar; aqui, pelo contrário, sente-se uma excessiva assepsia, um rigor quase clínico, demasiado “certinho”, que não arrisca para além da vénia prolongada.

Mas quanto ao enredo? “Saturnalia” invoca, e como todos os exercícios de gênero fazem, revelam toda a premissa numa camuflada aula / sermão, aqui com a Saturnália, festim pagão em homenagem ao deus romano Saturno, hoje cultuado na memória de todos graças ao trabalho de Goya, “Saturno devorando a un hijo”, pintura que o filme cita e revisita, sobrepondo-a, como papel vegetal, aos maneirismos, à rigidez e à disciplina duvidosa deste meio académico; os castigos e desafios impostos pela directora (figura déspota) à sua recém-chegada Miriam parecem ecoar essa mesma iconografia de devoração, de tempo que consome e subjuga.

Saturno devorando a su hijo (Francisco de Goya)

Importa dizer que “Saturnalia” exibe fragilidades reconhecíveis de uma primeira obra: argumento apressado e algo anoréctico, desempenhos por vezes desengonçados, personagens que mal justificam a sua existência e uma quase compulsão em exibir o seu lastro referencial; nada, ainda assim, que o diminua em comparação com algumas obras tardias do próprio Argento, cuja filmografia recente tem insistido até à exaustão (e sim, “La terza madre” permanece uma experiência difícil de digerir). A diferença, contudo, é outra: Argento, mesmo em declínio, nunca se limitou a reproduzir a formalidade do subgénero que ajudou a definir; “Saturnalia”, por seu lado, opera sobretudo nesse reconhecimento semiótico, nessa reprodução cuidada de um universo fílmico que raramente se transcende (e com tratamento neon).

E, retomando a frase do taxista — “se compreendermos o início, o final não nos molestará” —, talvez seja mesmo disso que se trata: quem conhece o giallo e os seus mecanismos encontrará aqui um percurso de lugares-comuns que não incomodam, antes convidam a um desejo (esse sim nunca plenamente cumprido) de transgressão ou desconstrução que o filme promete, mas nunca verdadeiramente ousa realizar. Preferindo ser a moldura de um retrato.

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