53 anos depois, o mundo exposto em “Soylent Green” (de Richard Fleischer) já não nos soa a ficção longínqua, mesmo com aquela neblina verde a toldar os exteriores, ocultando quaisquer indícios de sol; mas é no seu tecido (a sobrepopulação, o esgotamento dos recursos naturais, o privilégio social) e a nostalgia quase táctil, que verdadeiramente nos debruçamos, sobretudo na figura de Edward G. Robinson, “velha cara” de uma Hollywood mais distante da contemporaneidade da produção, e, convém anotá-lo sem rodeios, a mais pulsante presença do filme, erguendo-se como ponte entre o mundo de ontem (aquele em que, como ele próprio clama, “o céu era azul!”) e o seu “agora”, onde um simples bife basta para o fazer chorar, sendo nele que o espectador encontra um guia melancólico, conduzido passo a passo até ao reconhecimento desta distopia futurista que, inquietantemente, já não nos é estranha.
Claro que as datas já não se adequam (a acção acontece em 2022), mas a crise populacional permanece tema recorrente, por vezes (maioritariamente, sim) como espectro recorrente, muitas vezes (e, sim, maioritariamente) filtrado por práticas malthusianas, que o cinema traduz em vilanias de contorno arquetípico; portanto, “Soylent Green“, com base no livro de Harry Harrison (“Make Room! Make Room!”, 1966), permanece como testemunho de uma imaginação do desastre, antecipando um crescimento populacional descontrolado e a rarefacção dos recursos, desenhando uma clivagem social agravada: as elites, ainda consumidoras do que resta — de verduras, carne, álcool —, habitando apartamentos amplos, onde o espaço torna-se luxo (familiar?), em contraposição com a “ralé”, entregue ao racionamento, à sobrelotação e à extrema miserabilidade.

É nesse futuro sem rosto que encontramos Robinson, na pele de Sol Roth, acolhendo o amigo Robert Thorn (interpretado por Charlton Heston, em mais um fim anunciado da humanidade … repescar “The Omega Man“, de Boris Sagal, em 1971), detective que escuta, com cepticismo cansado, os lamentos do companheiro sobre uma Nova Iorque anterior ao instante inaugural do filme (o cartão anuncia 40 milhões de habitantes na “cidade que nunca dorme”, agora prostrada na sua própria exaustão); note-se ainda que este nostálgico Sol é um ávido leitor (espécie em vias de extinção, de facto), antevendo o abandono da literacia e, com isso, a impotência das classes mais baixas perante as adversidades impostas pela elite.
Contudo, e falando em elites, um desses “figurões”, responsável pela Soylent Green — entidade de comida processada de origem desconhecida (mesmo que o mistério do filme não seja propriamente mantido graças ao marketing envolto) —, é misteriosamente assassinado, e Thorn é encarregue de investigar a sua morte, suspeitando de uma conspiração à escala global. “Soylent Green“, desta vez o filme, segue então uma estrutura policial de série B, com os seus devidos grunhidos e rodriguinhos, intercalando com a percepção de Sol de Robinson face a um mundo que já não reconhece.


Fora um momento ou outro (nomeadamente, uma sequência de humanos recolhidos por pás mecânicas para taipais de camiões), o filme não extravasa o thriller dito fleischeriano (seco, longe da espectacularidade e não muito caprichado na intriga), mas é no gesto final de Sol, mais uma vez a “personagem-ponte”, que o filme se eleva, na liturgia íntima de um sacrifício escolhido, com o vislumbre, ainda que virtualizado, da sua ‘querida’ Terra, abraçando imagens naturais ao som da “Pastoral” de Beethoven (um piscar de olhos a certas metafísicas de Kubrick até) despedindo-se de Thorn com uma serenidade que é também rendição (sequência tanto mais impactante sabendo que este seria o último papel de Robinson no cinema, tendo o actor falecido meses antes da estreia com cancro, ele e Heston era amigos na vida real), conjugando-se poucos minutos depois com a forte revelação: “Soylent Green is made out of people!You’ve gotta tell them! Soylent Green is people! We’ve gotta stop them somehow!”, com Heston delirante, recolhido pela multidão enquanto ergue a mão ensanguentada ao zénite, como quem implora, por redenção ou fim, enquanto Sol, já além, aceita o destino indivisível da sua alma como também da sua carne.

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