Em 2005, uma adaptação literária de Eça de Queirós (“O Crime do Padre Amaro“) tornou-se o filme mais visto de sempre em salas de cinema até à data. O trunfo deste triunfo foi, não uma chamada ao coro erudito desta nação, mas sim o corpo de Soraia Chaves que suportou todo o género de críticas numa era ainda sem redes sociais.

Mais de 20 anos depois, não temos uma provocadora de padres, mas temos uma fura-vidas provocadora de todos os que se cruzam com ela e a subestimam. Ana Vilaça já tinha sido uma promessa com a curta “By Flávio” também de Pedro Cabeleira há um par de anos, filmado inclusive por altura da pandemia, e com a segunda longa-metragem do realizador, a promessa vira confirmação que temos um dos talentos mais incandescentes dos últimos tempos.

“Entroncamento” é um filme que apesar de tudo resiste a rótulos fáceis, e ainda assim, tem um apelo comercial na sua etnografia minuciosa, um retrato de uma nação dividida entre vítimas, aproveitadores, facilitadores, e outras dores do sistema a partir de um microcosmos que é a cidade de Entroncamento um local de não passagem (quanto muito de paragem e rápida transição entre linhas de comboio) fora dos roteiros turísticos. Apelo comercial, pois o filme mostra uma realidade dura, mas próxima, e se a narrativa é menos romântica que um “Zona J” de Leonel Vieira (outro campeão de bilheteira do passado), a promoção que a equipa tem feito junto do TikTok mostrou-se exímia em cativar novas audiências (e sim, público mais jovem, que pode ainda assim já guardar preconceitos sobre o que é isto do “cinema português”).

Porque sim, de um lado temos recordistas como “Pátio das Cantigas” e outras comédias “revisteiras”, ou “biopics” feitos de uma forma aprumada e académica sobre figuras incontornáveis. Do outro, temos o tão invocado “cinema de autor”: aqueles filmes que até ganham prémios nos festivais internacionais, mas a distribuição nacional não os consegue vender.

A nossa pseudoindústria tem-se sempre dividido nestes polos, sendo que até a crítica raramente casa com o público (e, em boa verdade, muitos dos campeões de bilheteira parecem mais objetos feitos para televisão; de um povo ainda agarrado a esse ecrã). “Entroncamento” parecia poder reforçar aqui uma ponte entre festivais e grande público, e a obra ser ela própria um motor de escape ao marasmo e ao “status quo” da distribuição nacional. O filme, aliás, teve grande estreia em Cannes no ano passado [secção ACID].

E de facto, tamanha (auto)promoção nas redes gerou desde logo um resultado positivo nas bilheteiras: foi o 9.º filme mais visto na semana de abertura, tendo descido apenas para 11.º na segunda semana, onde sofreu um corte de salas, e onde teve, como o próprio Cabeleira constatou, sessões únicas em cinemas NOS à hora de almoço. À terceira semana, apenas em 6 ecrãs (quase 80% de quebra face aos 27 ecrãs com que se tinha iniciado) a obra resiste no top 20 no 17.º posto. Por outras palavras, a média de espectadores por sala mantém-se praticamente inalterada face ao fim de semana de estreia! Têm surgido relatos online de pessoas que estavam a contar ver o filme, mas que viram essa expectativa gorada, ou porque ele foi rapidamente retirado de sala, ou porque a sala mais próxima é já num outro distrito.

Que haja um lobby pró-Hollywood, já nos tínhamos dado conta; que o preconceito face ao cinema nacional seja alimentado pelas distribuidoras, temos aqui nova prova cabal; e aqui claro temos que nos dirigir à NOS, que gere cada vez mais um monopólio por cá: se não ajudam a promover o que é nacional e bom, não se queixem depois que o país tenha falta de uma indústria própria (nenhum filme prospera sem rede, seja qual for o autor). Olhe-se só para o lado aqui para Espanha

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