Se Rita Lee sugeria “no escurinho do Cinema”, já Caldas da Rainha desafia no intervalo do Cinema, com a 2ª edição do seu evento dedicado ao cinema português, à sua difusão e à sua reflexão. Apropriando-se desse mesmo título, iNTERVALOS, propõe que o cinema não se esgota no filme, prolongando-se para lá dele, nas bordas e dobras, nos interlúdios ou até nas “sobras de trazer por casa”, assumindo-se como um mote, ou mesmo uma disciplina de pensar Cinema a tempo inteiro, integrando-o no quotidiano, sobretudo quando esse foco recai sobre o panorama nacional.
Depois do sucesso da primeira edição, que contou com Manuel Mozos como convidado principal, chega agora uma espécie de “sequela”, feita de resgates das sombras [Manuela Serra] e de diálogos contínuos [Luísa Homem e Pedro Pinho com Renée Nader Messora e João Salaviza, ou André Gil Mata com Vasco Sá e David Doutel], do início ao fim, sobre carreiras, estéticas e filmografias, com o Cinema Português contemporâneo a servir de pretexto para esta romaria até às Caldas da Rainha.
De 16 a 18, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, sucedem-se sessões e double bills, num exercício de experimentação que procura descobrir os diálogos possíveis entre obras distintas, afirmando o Cinema como espaço de invenção, ensaio e descoberta, ao vivo e a cores. Ao Cinematograficamente Falando …, parte da programação é desvendada por três membros da equipa curatorial [Eva Ângelo, Susana Duarte e Paulo Cunha], ficando o restante programa disponível aqui.
As sessões “em diálogo com” continuam a desenhar o esqueleto da programação, como se os filmes recusassem existir isoladamente. Até que ponto este dispositivo (esse jogo de relações) se tornou o verdadeiro coração da iNTERVALOS , quase como uma forma de programação que pensa o cinema enquanto o exibe?
As sessões conjuntas “em diálogo com” valorizam os filmes isoladamente e na relação que estabelecem entre si, quer na sua autonomia quer nos diferentes diálogos que podem ter ou criar. Se existe algum gesto de recusa, esse gesto está na recusa do exercício vertical de programar ou fechar a direção artística numa só pessoa, e também não queremos que o programa seja apenas o resultado de escolhas de uma equipa curatorial que inicia o desenho de cada edição – o desejo é que essa iniciativa se prolongue com cada uma das escolhas, abrindo-se a equipa a mais pessoas, e diferentes em cada edição.
Porque se queremos conhecer o cinema português contemporâneo ou o cinema que se faz em Portugal, na sua diversidade, é importante estar aberto e disponível para conhecer obras que não escolheríamos à partida, por diferentes razões, ou porque não as conhecemos, ou porque não nos lembramos delas imediatamente, ou até porque não conseguimos criar uma relação com elas. A ideia das sessões conjuntas com “cartas brancas” estiveram na raiz da iniciativa, sim, talvez mais pulmão… Parece-nos um bom princípio, um modelo que não é inédito, outras mostras ou encontros têm vindo a trabalhar este modelo no desenho dos seus programas, o que nos parece bastante interessante e desafiante, e que no nosso caso talvez procure ter uma certa dimensão de militância.

Ao olhar para os encontros propostos (João Salaviza e Renée Nader Messora até Paula Tomás Marques, Regina Pessoa) parece emergir uma espécie de lógica de contaminação, não só estética, mas também política. Nestes emparelhamentos, procura-se uma harmonia secreta, uma fricção produtiva, ou simplesmente o inesperado gerado pelos por estes encontros?
A escolha dos filmes pode ter diferentes motivações, a dimensão política é importantíssima mas há outras dimensões importantes, como a formal, estética, ética. No desenho inicial temos a preocupação de procurar garantir a diversidade e a representatividade a partir de diferentes premissas mas também a agência da presença de diferentes “cinemas”, seja em termos de género ou abordagem cinematográfica, duração com curtas e longas metragens, como a escolha de cineastas num conjunto que tenha paridade, e por fim, a diversidade em termos de produção em termos geográficos.
Quanto aos emparelhamentos eles podem ser os que os cineastas quiserem que sejam, da relação próxima à dissidência, o diálogo entre os filmes pode ser infinito. A única coisa que pedimos, o único “caderno de encargo”, é que o diálogo seja com uma obra do cinema português contemporâneo porque, para além da projecção das obras, a presença da outra pessoa parece-nos imprescindível. É importante projectar os filmes mas também é importante discuti-los em presença, entre pares e com os espectadores de cada sessão. E se há algo que pode ser diferenciador é este compromisso com a presença, não basta ter um filme e projectá-lo, a vontade de o discutir com outras pessoas, essa disponibilidade é importante.
A carta de intenções insiste numa diversidade que não é apenas formal, mas também ética e política. Esta edição assume esse posicionamento de forma mais frontal, não apenas através dos filmes escolhidos, mas sobretudo na maneira como são colocados em confronto, ou em escuta?
De uma forma fluida, não é nada muito calculado ou demasiado rígido, mas há cuidado e atenção. A forma como as sessões conjuntas são desenhadas dentro do programa – nos três dias – também depende da 2º fase da construção do desenho, quando as outras obras são escolhidas. Porque só sabemos qual é a duração de cada sessão conjunta quando o desenho se conclui. E a duração de cada sessão conjunta com os dois filmes conduz a decisões de agenda no programa que não podemos pré-definir a partir das primeiras escolhas.
A escolha de Manuela Serra surge quase como um gesto de resgate, mas também de reposicionamento. Esta homenagem é, de algum modo, uma tentativa de reabrir a história do cinema português? Com isto também pergunto se o Intervalos terá como intenção questionar e recriar o cânone cinematográfico português?
O convite a Manuela Serra e a possibilidade de ver “O Movimento das Coisas” nas Caldas da Rainha pareceu-nos muito importante. Algo a fazer, sem mais demoras. Muitas obras relevantes do cinema português nunca foram projetadas em sala nas Caldas, por isso, se conseguirmos resgatar para esta região o acesso a algumas dessas obras, que nunca foram exibidas aqui, estamos a tentar dar um contributo que para além da homenagem às autoras, aos autores e equipas dessas obras, é o contributo no trabalho de ajudar a criar relação com este património que as pessoas não conhecem ou conhecem mal.
A presença da MUTIM introduz uma dimensão que parece extravasar a cinefilia, tocando directamente nas condições de produção e trabalho. Sente que a Intervalos começa a deslocar-se … ainda que subtilmente … para um território mais interventivo dentro do próprio campo cinematográfico?
Essa dimensão está no projeto desde o início, na raiz do primeiro desenho. Esse espaço das “comunicações do sector” é na verdade o reconhecimento da importância das associações com o trabalho que fazem em termos políticos, laborais e sociais. O associativismo tem sido um motor dinamizador da cultura cinematográfica e a sua ação foi e é determinante em muitos momentos. Na primeira edição o convite foi para a APR [Associação Portuguesa de Realizadores]. Em 2026 vamos receber a MUTIM [Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento] com o “Manual de Boas Práticas para o Cinema e o Audiovisual em Portugal”. A escolha da pessoa que convidamos para fechar o programa das sessões de cinema, dentro da sala, relaciona-se de alguma forma, também numa relação com o trabalho que cada associação propõe fazer.

No ano passado o convite a Manuel Mozos aconteceu não apenas pela filmografia valiosa que tem mas também pelo trabalho que o Manuel faz para além dos seus filmes, a relação que tem com diferentes gerações e a forma generosa como se relaciona na realização, na interpretação ou figuração especial ou simplesmente figuração, na montagem, com o arquivo, e no associativismo onde a APR foi uma das associações do setor onde ele teve um papel importante. Sabendo que a associação APR prepara uma publicação com uma secção com o nome de um dos seus filmes – “A Glória de Fazer Cinema em Portugal” – sentimos que a intersecção das duas coisas, no programa, fazia sentido e deixaria questões importantes.
A ligação à ESAD.CR reforça essa ideia de um espaço que não é apenas de exibição, mas também de experimentação e pensamento. Esta aproximação entre cinema e academia transforma a mostra numa espécie de laboratório?
A proposta é orientada por um princípio de programação coletiva, envolvendo a equipa e cineastas convidados, promovida pelo CCC das Caldas da Rainha, em parceria com a ESAD.CR e a OSSO, Associação Cultural. A relação do projeto com a ESAD.CR, em particular com as residências do MASI/OSSO, está também na raiz do projecto. Quer o mestrado em Artes do Som e da Imagem, quer as residências que organiza em parceria com a Associação Cultural OSSO incentivam projetos de natureza audiovisual que emergem da intersecção entre o espaço pedagógico, o espaço de criação e o espaço de investigação, traduzindo não apenas resultados, mas sobretudo processos de trabalho em constante construção. No caso particular das residências, partindo da vivência no território de São Gregório e da proximidade com o contexto da OSSO, os estudantes são desafiados a criar projetos de curta duração em ambiente laboratorial, com orientação de artistas convidados e o apoio de professores do curso. Por sua vez, no iNTERVALOS são recuperados os materiais e trabalhos desenvolvidos, pensando a melhor forma de os reativar num novo espaço e contexto expositivo. A mostra destes trabalhos neste contexto reflete assim o carácter experimental das metodologias e das práticas artísticas desenvolvidas nos formatos audiovisuais: o cinema, as artes sonoras e a fotografia.
É nesse sentido que a ligação à ESAD.CR reforça a ideia de um espaço que não é apenas de exibição, mas também de experimentação e pensamento: o que chega ao iNTERVALOS, vindo deste contexto académico, vem já marcado por um modo de fazer onde criar e investigar se confundem, e onde a apresentação pública faz parte do próprio processo. Mais do que “fechar” trabalhos, a mostra cria condições para os testar, reconfigurar e colocar em diálogo – entre estudantes, docentes, artistas convidados e público – prolongando a lógica das residências e do mestrado e transformando esta linha da programação do encontro num lugar de circulação de métodos, processos e formas em construção.
Fala-se, nesta edição, de “sair do cinema para fora da sala”. Trata-se de expandir o dispositivo cinematográfico, ou de repensar o próprio lugar do espectador nesse dispositivo? Recordo que um dos desejos iniciais passava pela criação de uma comunidade, algo que sobrevivesse para lá das sessões.
Quando falamos em “sair do cinema para fora da sala”, não se trata de optar entre expandir o dispositivo cinematográfico ou repensar o lugar do espectador: as duas dimensões estão ligadas. Por um lado, queremos manter e valorizar aquilo que é próprio e insubstituível da experiência da sala e da sessão – a escuridão, a atenção partilhada, a duração do filme tal como é composta pelos planos e pela montagem, e esse “corpo a corpo” específico entre filme e espectador. É também a partir dessa experiência sensível, e dos seus efeitos e afectos, que faz sentido pensar a criação de uma comunidade de espectadores que não se esgota no momento da projecção. Por outro lado, “sair para fora” significa partir desse núcleo para o colocar em relação com outras formas de praticar e experienciar a imagem-movimento: instalações, live cinema, extensões do filme no espaço e no tempo para lá da sala. A proposta não é substituir a sala; é ampliar, a partir dela, o campo de experiências possíveis da imagem-movimento, testando diferentes modos de atenção, presença e duração, e abrindo o dispositivo cinematográfico a novas posições do espectador sem perder de vista aquilo que o cinema tem de singular.

As conversas após as sessões parecem ganhar um peso cada vez maior, como se os filmes não terminassem nos seus créditos. Até que ponto essas discussões já fazem parte integrante da experiência que a Intervalos propõe?
iNTERVALOS propõe discutir os filmes no fim de cada sessão na sala e para além desse espaço. A conversa pode continuar a seguir, na partilha de uma refeição, num passeio na rua… valorizamos bastante essa experiência – a ressonância dos filmes depois da sua projeção.
Se olharmos para esta edição como um retrato … ainda que fragmentado … do cinema português contemporâneo, que imagem é que emerge daí?
Esta iniciativa não pretende impor ou validar qualquer retrato oficial do cinema português. Acreditamos que um dos motivos da vitalidade do cinema português atual é precisamente a sua pluralidade. O desenho deste encontro pretende precisamente potenciar essa pluralidade, procurando dar ao espectador a possibilidade de ver os filmes e conversar com os cineastas, promovendo a diversidade e a representatividade. Acreditamos que a maior qualidade desta proposta curatorial, que é fruto de um processo amplamente partilhado, numa primeira fase pela equipa curatorial e posteriormente em diálogo com todos os convidados, está precisamente no reconhecimento das imensas possibilidades que o cinema português contemporâneo oferece aos espectadores interessados em conhecê-lo.
Depois de duas edições, e desse caminho ainda em construção, o que é que sente que falta ainda testar?
Neste momento precisamos de concluir a 2ª edição para responder. E a conclusão não se faz apenas no fim dos três dias do encontro. Precisamos de uma pausa e de uma distância para podermos analisar melhor. Além do mais, cada edição traz consigo o trabalho das transcrições das conversas em articulação com o desenho etnográfico que é realizado durante os três dias, e esse objeto – o “caderno” – só é concluído nos meses seguintes. E é com esse “caderno” que propomos, não concluir na verdade, mas sim, prolongar o encontro e pensamento em torno do cinema português contemporâneo.

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