Estabelecemos contacto com sereias do nosso tempo: Arsa, uma jovem de Stromboli, ilha vulcânica do Mediterrâneo, possui uma ligação visceral, quer ao território que habita, quer à sua pulsão artística de transformar tudo o que toca em objecto de arte, uma criatividade na ponta dos dedos digna de um Rei Midas; porém, ao contrário das sereias de Hans Christian Andersen, Arsa não anseia o mundo dos humanos, antes pelo contrário, quando estes surgem sob a forma de turismo massificado, a sua resistência manifesta-se na recusa em ceder à tentação importada do “Velho Mundo”, ao capitalismo que se propaga aos quatro ventos, bem como ao rasto de destruição e modelação da ilha que a jovem procura preservar. Contudo, é a partir desse contacto que o seu dom começa a desvanecer, a dissipar-se como pó, instalando-se a angústia de uma “artista sem criação”, uma falha que lentamente se infiltra e se expande.

Arsa“, como é assim intitulada, assinala a primeira longa-metragem de MASBEDO, dupla de artistas multifacetados que, desde 1999, têm vindo a afirmar-se em diferentes palcos e plataformas, explorando a imagem e o seu valor; este filme, apresentado entre nós na Festa do Cinema Italiano, em Lisboa, surge como extensão dessa investigação, enraizado numa forte dimensão semiótica do seu universo visual, enquanto, fora das salas de cinema,  a tal dupla composta por Nicolò Massazza e Iacopo Bedogni assumem o controlo da Sociedade Nacional de Belas-Artes (11 de Abril – 02 de Maio) para sua mais recente instalação.

O Cinematograficamente Falando … conversou com a dupla sobre vulcões míticos, a condição do artista em tempos de aceleração e o poder da imagem.

Encontram-se em Portugal não só para a estreia do vosso filme, como também da inauguração da exposição “Teorema da Falta” na Sociedade Nacional de Belas-Artes [Lisboa]. Queria começar por aí, pela exposição. Qual o conceito desta vossa criação?

Nicolò Massazza: A ideia era poder oferecer, neste momento expositivo, muitos fragmentos de 26 anos da nossa história, e um vídeo que é muito importante para nós, o “Teorema d’incompletezza [“Teorema da Falta”].

Iacopo Bedogni: Para nós é um fio condutor que une muitos estímulos (de investigação, de aquecimento, de pesquisa sobre a imagem) que ao longo dos anos fomos também encontrando no percurso cinematográfico que fizemos. É um relato em imagens com muitas ligações entre si, e também com o cinema que produzimos.

São um duo há vários anos, desde 1999, e trabalham de forma muito eclética, do teatro experimental à videoarte, da instalação ao cinema. Nesse percurso, a questão do vídeo é central, e há um trabalho vosso chamado VideoMobile, apresentado em Palermo, que me parece tocar numa questão importante que vai ao encontro do que estamos a experienciar: quando entra a inteligência artificial na equação, qual é o valor e o lugar da imagem?

NM: É uma pergunta interessante e muito complicada. O que percebemos é que não podemos fingir que não existe, por isso vamos tentar, artisticamente, pô-la em dificuldade. Temos esta ambição, talvez um dia utilizá-la, mas empurrando-a até ao limite daquilo que realmente queremos como artistas. A arte vem sempre primeiro. É a arte que dita as regras. Temos de ser os maestros desta sinfonia, tentar moldá-la, questioná-la, levá-la à crítica.

IB: A palavra ‘guerra’ não é bonita como metáfora, mas todos os artistas que produzem imagens hoje estão numa barricada, não no sentido bélico, mas no sentido de procurar uma solução humanista face à facilidade com que a inteligência artificial nos supera em tudo. O VideoMobile é um desses trabalhos que para nós são extremamente importantes, porque faz sair do museu o conceito de obra. Nos últimos anos produzimos muitos trabalhos que se tornam não apenas site specific, mas também context specific – fora do museu, chegando a públicos que habitualmente não vão ao museu e que, ao encontrarem imagens artísticas de investigação em lugares inesperados, se colocam questões.

MASBEDO – Nicolò Massazza e Iacopo Bedogni / Foto.: Ludovica Arcero

Passando agora ao filme “Arsa”: faço a “pergunta geral”, de onde nasceu a ideia?

NM: “Arsa” foi filmado em Stromboli, uma ilha que conhecemos muito bem. Há uma vida lá, é o nosso estúdio a céu aberto, um lugar de criatividade e de escrita. A ideia nasceu quase a brincar: e se de repente, a nadar, te encontrasses debaixo de ti uma estátua antiga? Que relação terias com esse choque, com esse momento de quase terror, estás sozinho, no fundo, e vês aquela coisa… o que é que fazes?

Quando falamos de Stromboli, inevitavelmente entramos no imaginário de Rossellini. Como se filma esse lugar sem cair nos lugares-comuns que ele criou?

IB: Felizmente há muitos lugares no mundo que ainda se podem filmar, se não, não se poderia fazer nada em Roma, em Paris, em Nova Iorque… [risos]

NM: A verdade é que não propriamente o filme — “Stromboli, Terra di Dio”— a inspirar-nos. Foi antes o vulcão.

IB: Rossellini foi certamente o primeiro a sublinhar um tempo completamente assíncrono em relação ao que as pessoas já queriam no pós-guerra: uma sociedade dinâmica, em evolução. Ele desloca a câmara para um lugar atemporal, e esse lugar ficou assim e continua a ter uma enorme fascinação precisamente porque é um dispositivo temporal completamente diferente. No início dos anos 50, enquanto a sociedade italiana entrava na aceleração da contemporaneidade, ele vira o olhar para um lugar que vive quase fora do tempo, e ainda hoje é assim.

“Arsa” acompanha uma jovem que, com o que encontra, consegue fabricar arte com objectos transformados. Mas com a morte do pai e a chegada de estranhos, bloqueia-se completamente. Isso leva-me a uma interpretação: de que a criatividade não é um talento inapto, é antes um conjunto de factores externos.

NM: Absolutamente! A criatividade, a arte em geral, é um condicionamento contínuo, primeiro de si próprio, depois das escolhas que se fazem, do ambiente que nos rodeia. Arsa [protagonista] sabe fazer isso: estar na solidão mas saber olhar o mundo a partir dela. Podes estar só, mas o mundo tens de o saber observar, tens de insistir. Arsa faz isso, vai ao fundo, toca essa figura simbólica do pai. São elementos que condicionaram claramente a sua criatividade. Muitas vezes, quando ocorre um bloqueio, é precisamente porque se perde não só a confiança, mas o próprio desejo, e quando se perde o desejo, bloqueia-se.

IB: Estou absolutamente convicto de que não se nasce artista, assim como não se nasce nada. Nascemos com os processos inaptos de saber caminhar, respirar, ter sensibilidade humana, e depois não tanto o que se aprende, mas sobretudo o que se encontra. Os encontros é que, em alguns casos, ampliam esta capacidade de sensibilidade e a transformam num processo artístico. A arte é um trabalho.

E quanto à vossa protagonista? A vossa Arsa? Em rápida pesquisa verifiquei que a actriz Gala Zohar Martinucci só havia participado numa curta de Matteo Garrone [“Les Fantômes du Cinéma”, 2025].

NM: A nossa produtora nos mostrou uma pequena curta-metragem, e depois conhecemo-la pessoalmente. Foi muito fácil trabalhar com ela, porque ela é muito Arsa, uma personagem muito forte, arisca, rebelde, selvagem. Tem muitas arestas que são interessantes.

IB: Há aqui uma diferença interessante em relação ao que fez Rossellini com a [Ingrid] Bergman, que foi levada para a ilha por amor e teve de se adaptar e conhecer aquele universo. A Gala, a Arsa, é a mimesis da ilha. Exprime de forma humana o que aquela ilha tem de selvagem, a natureza espinhosa, não apenas a mãe natureza, mas também a madrasta. Exprime o que essa ilha tem de extremamente hostil, refinado e esteticamente interessante.

Nicolò Massazza e a actriz Gala Zohar Martinucci durante a rodagem de “Arsa”

A chegada dos jovens turistas à ilha soa-me também como uma crítica ao consumismo desenfreado. Eles “invadem” um território que não é deles.

NM: A crítica existe porque é um facto real: numa ilha quase intocada como Stromboli, todos os dias chegam restos de plástico do mar, é o Capitalismo a dar a sua contribuição. Mas na construção da personagem [Arsa], ela tem uma curiosidade humana, natural. É como uma rapariga jovem que observa os animais no jardim zoológico, elementos que não conhece, que vai descobrindo, diferentes da sua natureza selvagem. Ela estuda-os de longe, espia-os.

IB: Há também algo que aprendemos ao frequentar a ilha em todas as estações: os três rapazes são turistas que tentam, como todos, chegar a estas ilhas e acreditar que entram em sintonia com elas. Quando na realidade Arsa (como todas as pessoas que vivem nessas ilhas) os vê como pessoas que se apoiam na ilha durante um determinado tempo e depois vão embora sem deixar rigorosamente nada nelas.

Sinto que o filme não segue uma narrativa aristotélica clássica, apoia-se muito nas imagens, que têm mais sentido do que aquilo que as personagens dizem. Num momento em que as plataformas exigem narrativas rápidas e explícitas, vocês vão exactamente no sentido contrário. Poderemos ver isso como também um acto político?

NM: Sim, acho que é mais político. O facto de pedires ao espectador um trabalho extra,  que nem tudo esteja declarado, que as coisas possam estar escondidas, que a interpretação seja sua, é politicamente uma responsabilidade artística, porque tornas o espectador num protagonista e não num passivo.

IB: Como investigadores da imagem, este é para nós um tema fundamental. O cinema e as plataformas pedem um tempo de imagem que é o tempo rápido da plataforma, a percepção tem que ser veloz. Nós, como outros, trabalhamos também o tempo dentro da imagem, quanto tempo ficar numa imagem pode abrir uma janela e permitir um aprofundamento daquele sentido, daquilo que estás a ver. Há muito mar no filme, e aquele lugar torna-se uma espécie de mantra. O trabalho do espectador é procurar dentro da imagem o seu tempo narrativo.

Para finalizar, li numa entrevista que o vosso próximo filme será mais ambicioso. Podem falar um pouco sobre isso?

NM: É um projecto completamente louco, no sentido em que desta vez haverá muitas palavras, toda a experimentação do mundo, mas com um risco ainda maior, porque haverá um grande teatro do absurdo composto entre um mundo de muitas palavras, muito argumento, e muitas imagens.

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