Para John Andreas Andersen – realizador que interveio no “comboio norueguês” do disaster movie iniciado por “Bølgen: Alerta Tsunami” (Roar Uthaug, 2015), tendo assinado a sequela de 2018 (“The Quake: Terramoto”) – a grande diferença entre estes filmes de desastres e as habituais produções hollywoodescas encontra-se no tempo em que os respetivos gastam com as personagens. Tempo, esse, que sobra, para que as conheçamos, desconstruirmos e colocar os seus dramas à frente do espectáculo de destruição prometida [verificar nesta entrevista].
O realizador, depois de tremer solo com esse filme à moda antiga (apostando sobretudo em efeitos práticos para atribuir um senso de realidade inexistente na recente Hollywood) avança com “The Burning Sea” (“O Mar do Norte”), tendo o fenómeno “deslizamento de storegga” como atração para a catástrofe de cartaz. Torna-se claro que é nas personagens e na tentativa destas destacarem acima do mero frenesim tecnológico, que este cataclismo entre petrolíferas no Mar do Norte soa-nos mais humano do que aquelas orquestradas do outro lado do Oceano Atlântico (até mesmo os danos colaterais, previsíveis digamos, adquirem um peso inesperado no enredo). À nossa mente é-nos convocado (e o filme faz clara alusão a isso) à história do Deepwater Horizon, veridico acidente petrolífero decorrido ao largo do Golfo mexicano [2010], um dos maiores desastres ecológicos recente, que mais tarde serviu de inspiração para um homónimo filme do ultra-patriota Peter Berg (com Mark Wahlberg enquanto representante dessa exaltação do espírito norte-americano). Ao contrário da fácil comparação, “The Burning Sea” não atenta nesse fervor, ao invés disso, explicita um enredo sem agravantes maniqueístas e com foco subliminar nas “mensagens verdes” (uma consciência ecológica que tem, mais em mais, marcado pauta neste subgénero).
Com isso, somos envolvidos nos enésimos “rodriguinhos” – alguns deles perdidos pelos estúdios maiores norte-americanos – que não ressaltam o filme de Andersen para fora da modelização. Contudo, é a jogar esse mesmo jogo e sob iguais regras, o qual somos acedidos a um disaster movie modesto, humanista e bem profissional tendo em conta os recursos aqui utilizados. Quando o foco não é fazer a catástrofe num espectáculo pirotécnico, descobrimos a nossa capacidade de empatia neste universo há muito caducado, e os noruegueses tem conseguido relembrar-nos. Trilogia completa, lição dada, seguimos então para a descentralização de géneros milionários.

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