Quatro amigos de longa data encontram-se numa casa de campo na costa vicentina, esperando por um telefonema ou pela chegada de um quinto elemento, David, aquele que reabrirá feridas e avivará memórias do quarteto isolado.

Vicente Alves do Ó regressa às longas de cariz pessoal com Golpe de Sol, expondo, sem filtros, as inquietações de um autor dividido entre passado, presente e futuro. Entre o reconhecimento alcançado e as fragilidades ainda por limar, este novo capítulo revela um realizador mais consciente de si, mas também mais vulnerável às suas próprias obsessões. Enquanto isso, o seu filme chega aos cinemas numa altura em que, após o confinamento, um “comboio” de produções nacionais ocupa as salas portuguesas, tentando, por um lado, reconquistar o público adormecido dos lockdowns e, por outro, esvaziar uma gaveta de estreias que, noutros tempos, teriam espaço para respirar.

Fora isso, o realizador falou com o Cinematograficamente Falando… sobre o fado dos quarenta anos, os filmes que ficam na gaveta, o preconceito do cinema em relação à televisão, a guerra dos apoios no ICA e um futuro que se desenha com a ameaça de salas vazias.

Como surgiu a ideia para “Golpe de Sol”? Na antestreia do Queer Lisboa o referiu como um filme pessoal.

O “Golpe de Sol” nasceu como um exercício de escrita. Tudo aconteceu no Verão de 2010, não tinha dinheiro para ir de férias, fiquei em Lisboa a curtir a fossa. Ia para a praia aqui à volta com os amigos. Estava a entrar nos quarenta e acho que foi aquela sensação … quando mudas de década, começas a questionar-te. O que é que fizeste? O que é que não fizeste? O que é que ainda podes fazer? Já passou mais tempo do que aquilo que talvez ainda tenhas de vida. Os ‘quarenta’ são sintomáticos disso.

Depois descobri que os quarenta e sete são piores… [risos] e há livros escritos sobre isso, que é a crise dos quarenta e sete, o qual fazia ideia. Eu e os meus amigos de geração andávamos todos num período assim, a questionarmo-nos muito. Os que casaram, os que não casaram. Os que casaram aos vinte para agradar aos pais e aos quarenta se divorciaram e agora queriam viver tudo o que não viveram. Os que tiveram filhos, os que não tiveram e estavam a pensar em ter.

Queria pegar em tudo isso e fazer um exercício de escrita, usando uma âncora dramatúrgica clássica: a história de um fim de semana numa casa, um telefonema misterioso. Comecei a escrever e estava sempre a tentar concluir o filme. Foram quase vinte versões. Sempre que o concluía, concluía com o David a ter um acidente de carro a meio do caminho, ou com o David a aparecer e seguir-se meia hora de discussão total. Percebi que se fizesse isso, ia contra a ideia inicial: eu queria fazer um filme sobre a frustração e sobre a ideia de que nós não resolvemos todas as histórias da nossa vida.

Questionamo-nos imenso sobre se o que escolhemos foi a opção certa. Se o amor da nossa vida não foi aquela pessoa que passou por nós e a gente deixou ir. Se aquela pessoa que nos telefona dez anos depois valerá a pena. Se criasse uma premissa bonitinha com três actos, não deixava o espectador no sítio onde eu queria que ficasse, nesse sítio do imponderável. O terceiro acto ia acolchoar tudo, e sem ele, as personagens vivem dúvidas existenciais mais universais, as pessoas podem identificar-se com o que estão a viver.

Depois ficou numa gaveta durante seis anos. Não toquei naquilo. Até que surgiu um concurso no ICA para projectos pequenos, pouca gente, poucos dias, equipas pequenas, sem Florbelas nem road movies nem balões… nada disso. A Pandora [da Cunha Telles] perguntou-me se tinha algo assim e respondi: tenho aquele filme dos quatro amigos à beira da piscina. Ela ouviu, pediu para ler, achou que se enquadrava, ganhámos o concurso. E foi assim que aconteceu … [risos]

Quanto ao casting? Pelo que sei, a única pessoa que não o fez foi o Ricardo Pereira?

Exacto! Queria muito trabalhar com ele, era uma escolha directa. A Oceana [Basílio], o Ricardo Barbosa e o Nuno [Pardal] fizeram casting, com mais gente, até encontrar um puzzle que me parecesse uma mistura interessante. Trouxe o Barbosa, que ninguém conhece, e depois fui buscar as minhas imaginações, aquelas pessoas sobre quem toda a gente diz “ah, essa é isto e aquilo”… pois, agora faço um filme com ela, para te lixar.

Tenho tentado sempre fazer isso. Se olhares para os filmes que fiz, já passei pelos miúdos da escola de actores, pelos não-actores, pelos bailarinos de contemporânea, pelos performers, por uma autora de videoarte como actriz, por gente da televisão, por gente da Cornucópia. Acho que um realizador em Portugal, que faz tão poucos filmes, precisa de misturar, quebrar tabus. Há muitos tabus ainda no cinema e é preciso dizer: aquela pessoa é boa, e ela pode entrar num filme com esta e com aquela. E há pessoas com quem ainda não trabalhei e adorava, a Marina Mota, por exemplo. Acho que dentro daquela persona cómica que bem conhecemos está uma figura potencialmente trágica, e ainda ninguém explorou esse lado nela.

Essa questão dos tabus, não tem também a ver com as próprias agências? Há actores que têm medo de surgir em certos filmes por causa da imagem que pode transmitir para a televisão.

Acho que é ao contrário. A televisão é muito mais preconceituosa do que o cinema. O cinema tem preconceito com as pessoas que vêm da televisão, sim… quando comecei em ‘99, as coisas que ouvia nos castings eram horríveis. Mas melhorou, porque houve muita gente que fazia teatro e cinema e foi para a televisão, e até eles se calaram. As pessoas têm que viver, e a televisão é a única coisa que te dá qualidade de vida neste meio. O cinema não te dá dinheiro, nem o teatro. Então percebo que todos vão para as novelas, é a segurança.

Mas agora a televisão chegou a um nível que nunca pensei ver, que é pior do que o futebol. Catalogam as pessoas pelas redes sociais. Conheço actores que vão a castings e a primeira pergunta é: quantos seguidores tens no Instagram? Os actores estão a construir uma imagem quase como uma marca para as televisões os comprarem, porque as televisões estão em guerra constante com as audiências e com as marcas. É horrível.

Aquilo que quero dizer com o exemplo da Oceana: das sete ou oito actrizes que passaram pelo casting para aquele papel, ela foi a mais adequada. Ponto.

Antes de iniciarem as rodagens, os quatro actores estiveram fechados numa residência artística durante uma semana. Já se considerava um visionário nessa altura? Antes do lockdown ser implantado exigiu um lockdown? [Risos]

Já se fazia, já se fazia … [risos] na dança, na performance, no site specific, no teatro alternativo. Como convivo com muita gente dessa área, comecei a ouvir e a questionar. O Espaço do Tempo do Rui Horta tem residências há 15 anos. Fui buscar essa ideia porque senti que fazia sentido para este projecto específico, actores que precisavam de criar uma história comum, uma química de grupo. Não foi nenhuma revolução da minha parte, foi ouvir o que já se fazia noutros contextos e perceber que servia aqui.

Passando ao estado do cinema português em geral, e sabendo que tens sido muito vocal sobre isso, qual é o diagnóstico?

Há duas coisas separadas. Primeiro: falta uma união de classe. Não existe. Quando o teatro se revoltou todo, o cinema não fez nada. Sabes para quê? Porque os concursos estavam abertos e o dinheiro estava a sair para as produtoras. Estão a cagar para os colegas actores e técnicos enquanto há dinheiro a entrar. Fecha os concursos e estão todos na rua, só aí se unem.

Segundo: é uma hipocrisia tremenda dizer que as guerras dentro do cinema têm a ver com estilos ou escolas de cinema. É poder e dinheiro. Como se constrói poder e dinheiro? Hierarquizando. Criam-se regras e júris que premiam os de primeira divisão, os de segunda e terceira não têm hipótese.

Há uma parte que me revolta mais: há imprensa que é usada para construir ou destruir pessoas, para afastar nomes novos que poderiam estar nos júris, para manter o poder no mesmo sítio. Quando vi o que fizeram à Ana Rocha, destroçá-la publicamente, por puro preconceito, para afastá-la de um processo, fiquei com vontade de vomitar. Destratas uma pessoa pessoalmente para atacar todo um percurso porque tens medo de perder. São todos camaradas entre eles, claro.

Na rodagem de “Golpe de Sol”

Sou aquilo a que se chama uma carta fora do baralho, não sou uma coisa nem outra. Não fiz o percurso clássico, mas houve ali duas ou três pessoas do mundo do cinema que me deram a mão quando era preciso. Mas estou sempre a lutar contra o preconceito. Já nem guardo críticas de cinema. Nem boa nem má. Nada. Desisti.

O problema fundamental não é o estilo, é que o bolo é pequeno. Se em vez de 20 milhões no ICA houvesse 60 milhões, e em vez de dez filmes se aprovassem quarenta, toda a gente tinha dinheiro e ninguém perdia energia a atacar o colega. É mesmo assim de simples.

O que me preocupa mais são os miúdos de vinte anos. Dou aulas e já os ouvi dizer: “quero fazer um filme de terror, de fantasia, de ficção científica”… e a seguir dizem eles próprios: “mas no ICA essas coisas nunca ganham.” Miúdos de vinte anos a castrarem-se antes de começar, a perceber que têm de seguir as linhas mestras para serem aceites. Isso é o que me parte mais.

E quanto a novos projectos? O “Amadeo” está em pós-produção?

Está em pós-produção. Deve fechar em setembro, mas dificilmente estreia antes do próximo ano. Estamos a tentar, gostava de ir a alguns festivais, se calhar é um filme que merece uma carreira internacional, mas vamos ver. Estava anunciado para novembro mas estou a fazer lobby pessoal contra toda a gente para não estrear ainda.

Este é um bom ano para estrear filmes portugueses? Quais são as expectativas para o “Golpe de Sol”?

Digamos que é a contribuição portuguesa para as pessoas voltarem ao cinema. Mas olha, isto tem um lado simpático mesmo assim: vai inscrevê-los na história do cinema português de uma forma muito interessante, não necessariamente pelo valor intrínseco de cada um, mas pelo facto de ter havido um momento em que o mundo sofre uma pandemia e num verão estreiam dez longas-metragens portuguesas. Nunca aconteceu na história do cinema português. Nunca. Isso já é um marco.

Há uma coisa que me preocupa mais do que a guerra dentro do sector: são os miúdos que consomem tudo em tablets e em casa. Cresceram assim. A minha geração cresceu a ir à sala, a “Branca de Neve” nos anos 70, as primeiras recordações são da sala grande. Os miúdos hoje, de bebés, já dominam o telemóvel. A minha sobrinha com dois anos já sabe o que quer no YouTube. A partir dos vinte e cinco, trinta anos, vamos sentir isso nas bilheteiras de uma forma irreversível.

Entretanto os cinemas fecham. Ia ao King sozinho, às nove da noite, sala vazia, e tinha de avisar a senhora que estava lá dentro. Nós não somos um povo cinéfilo como os franceses ou os ingleses, para quem ir ao cinema é mesmo uma coisa cultural. Se os miúdos não sentirem que os filmes fazem parte deles, não vai haver modo de os trazer de volta.

2 responses to “Vicente Alves do Ó: “Sou uma carta fora do baralho, uma coisa nem outra””

  1. […] que integra o elenco de “Amadeo”, o filme sobre o pintor Amadeo de Souza-Cardoso realizado por Vicente Alves do Ó. Quer falar-nos sobre a sua […]

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  2. […] deixemos Vicente Alves do Ó sossegado, pois não é nele que desejo centrar-me. Quero, sim, reter-me na imagem acima (a do […]

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