Luís Rovisco, homem de números e protocolos, director comercial de uma empresa de equipamentos de segurança, à beira da reforma e com a vida arrumada em gavetas de rotina, cruza-se inesperadamente com Lucinda, antiga chama que o tempo não conseguiu apagar, numa das suas inúmeras viagens de serviço. Confrontado com essa sensação de resignação a um fim de era já assumido, Rovisco entrega-se à fantasia que a sua imaginação lhe permite, nas esperas e nas horas oferecidas à estrada, sempre com uma canção na garganta.
A terceira longa-metragem de João Nicolau aponta à saudade e ao romance projectado e convencido enquanto oportunidade existencial, que por sua vez parece requer uma nostalgia à sua própria cinematografia. Aqui, voltando à tendência do absurdismo episódico, hoje não totalmente desaparecida, e até respirando de alívio graças à aclamação mundial de Miguel Gomes (mas já antes João César Monteiro o havia feito sob camadas e camadas de humor sardónico), João Nicolau instala-se no registo musical como a sua chave de acesso ao escapismo e com isso uma sensação de liberdade criativa e narrativa.
Confesso que em “Technoboss” existe um ou outro momento digno de nota deste tipo de cinema em constante desenvolvimento semiológico (Miguel Lobo Antunes é um desses curiosos elementos), mas o realizador do anteriormente simpático “John From” fica-se apenas pelos apalpões aos “cus das lâmpadas”, não encontrando um objetivo definido com toda esta jornada por estrada fora.
Por isso mesmo, canta-se e os mal espanta-se, sempre no tom melódico da farsa e do artifício, da tecnologia obsoleta como prova de um cinema aparentemente obsoleto mas na moda do agrado para alguns, nichos ou cinéfilos cansados de fórmulas, confortados por outras mesmas.

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