É de acreditar que, há poucos anos, um realizador georgiano nos “obrigou” a olhar para o céu e a acreditar na fantasia do mundano. “What Do We See When We Look at the Sky?” foi essa obra, saturada de um realismo mágico possível, com Aleksandre Koberidze a captar o espaço e a imagética de Tbilisi [capital da Geórgia] de uma forma raramente vista. Agora, na sua terceira longa-metragem, “Dry Leaf”, avança com uma proposta mais ambiciosa de contemplação: uma “aventura” pelos subúrbios e arredores rurais, onde o banal revela uma beleza própria e a comunidade encontra a sua guarita. Uma espécie de “liga dos últimos” no meio de uma busca por uma ente desaparecida sem explicação. Mas enredos não contam para o propósito, são meras dispersões, a viagem é feita para nos relembrar que ainda temos a capacidade de vislumbrar e deslumbrar.
Filmado com um Sony Ericsson de 2008, a imagem desfocada desafia o nosso lugar enquanto espectadores e, simultaneamente, o tempo concedido a cada plano (objecto ou espectro) faz-nos resistir à conformidade doméstica, feita de múltiplas distrações e disputas pelo olhar. Koberidze constrói assim um paradoxo cinematográfico e convoca a nossa veia cinéfila.
Presente na Competição Internacional do Indielisboa’26, o Cinematograficamente Falando… teve o prazer de conversar com o realizador georgiano, ainda que à distância e em pleno lufa-lufa do festival lisboeta, uma conversa sobre como o cinema pode ser simultaneamente pessoal e transmissível, nas suas mãos e no seu olhar.
Devo dizer que o filme começa com imagens muito simples: um gato, uma folha seca no chão, um carro, ruas. Diria até que é um olhar sobre o que é banal, próprio do quotidiano, sobre as coisas que temos à volta e às quais não costumamos dar qualquer tipo de valor, seja existencial ou puramente cinematográfico. É uma proposta ao mundano …
Sou muito atraído por pequenas coisas que me captam a atenção no dia-a-dia, e penso que, sem esse exercício, é difícil sobreviver numa cidade moderna, pouco generosa em beleza própria. Tbilisi, em parte, é muito bela, mas revela também … como devo dizer … muita feiura. Talvez por isso, aprender a olhar e a encontrar beleza em lugares antes ignorados seja uma forma de sobrevivência. Hoje, é preciso procurar o musgo entre o asfalto, uma árvore a crescer dentro de uma garagem, vestígios do que ainda resiste.
Essa pertinência de olhar e encontrar beleza no quotidiano remete-me à sua anterior longa-metragem “What Do We See When We Look at the Sky?”, que subtilmente afirma que o gesto mais rebelde que se pode fazer nestes tempos é precisamente olhar para o céu. O céu tornou-se imprevisível. Nenhum dos dois filmes é sobre grande tema(s), são mais um convite para abrandar e contemplar o que está à nossa volta.
Para mim, fazer filmes é algo muito privado, profundamente ligado a quem sou e à forma como vou entendendo o mundo. Nunca trabalhei com guiões alheios; nasce sempre de como a minha vida se desenrola e da maneira como, enquanto pessoa, procuro adaptar-me ao que me rodeia. Nesse sentido, é de facto uma invenção de sobrevivência (para os olhos e para o cérebro), uma forma de encontrar momentos de paz. Não de desconexão, mas instantes onde é possível estar vivo sem enlouquecer.

Sobre filmar algo muito pessoal. Neste filme em concreto, o teu pai é o protagonista e o teu irmão compôs a música. Fazer cinema é, de alguma forma, uma maneira de estar reunido com a família?
Não necessariamente, mas procuro que seja assim sempre que possível. Nem sempre acontece; depende do tipo de filme em causa. O próximo projecto que estou a desenvolver é bastante diferente: a equipa vai crescer e não dá para recrutar quarenta familiares para tratar da iluminação ou do guarda-roupa [risos]. Ainda assim, tento rodear-me de pessoas com quem gosto de estar.
Quero falar da escolha visual do filme: “Dry Leaf” foi filmado com um Sony Ericsson muito antigo. Esse lado desfocado, essa textura particular, é quase uma resistência face ao ecrã grande. Porque escolheste esse telemóvel para filmar?
Antes de mais, acho-a muito bela. Foi essa a minha primeira impressão ao ver as imagens produzidas por esta câmara, em 2008. Desde então, continuo impressionado com a sua capacidade de gerar imagens interessantes e belas, e com o espaço que abre ao espectador para interpretar e participar nelas. Nunca a senti como uma posição contra algo, mas antes como aquilo de que gostava e desejava naquele momento.
Tem várias camadas: por um lado, o tipo de imagem que produz; por outro, o fluxo de trabalho que proporciona, a forma como permite filmar com grande liberdade. Podes fazê-lo tanto quanto e quando quiseres, e isso acaba por moldar também a estética dos filmes: uma abertura quase infinita de possibilidades. Quantas vezes se pode voltar ao mesmo lugar em busca do melhor ângulo?
Encontro uma obsessão que atravessa o teu cinema — o futebol. No filme anterior havia referências ao Messi e não só. Aqui, percorrem campos de futebol abandonados no interior da Geórgia. Há uma cena em particular que me marcou: o teu pai fala com alguém que não está lá, ouvimos a voz de uma criança a dizer “não há campo aqui”, ao qual ele pergunta: “onde é que vão jogar?” A resposta é: “algures.” Isso parece dizer que o futebol nestas comunidades era uma ligação entre pessoas e que essa ligação está a desvanecer.
Não comecei o filme com a ideia de que algo estivesse a desaparecer. Em Tbilisi, percebi que a universidade de desportos estava prestes a ser demolida para dar lugar a arranha-céus, e que muitos espaços pensados para outros usos estão agora entregues a fins comerciais. Para mim, era impossível evitar este tema: basta colocar a câmara em qualquer ponto da cidade para o problema surgir na imagem, quer se queira quer não. A cidade está a desfazer-se. O país inteiro passa pelo mesmo.
Talvez só na floresta, ou em lugares onde o verão ainda não chegou, se encontre alguma paz. De resto, tudo parece em risco, sob ameaça constante. Até a floresta: hoje existe, amanhã pode dar lugar a um hotel. É assim que funciona agora, pelo menos em muitos pontos do mundo. Em alguns países há mecanismos de proteção mais eficazes; aqui, a transformação é brutal. Tudo está em perigo. É importante que o filme faça sentir isso.
O motor narrativo do filme é a desaparição da filha, o qual remeteu-me a “L’Avventura”, de Michelangelo Antonioni, onde a protagonista (Monica Vitti) desaparece e as restantes personagens vão à sua procura, mas não é importante encontrá-la. É importante o caminho que essa procura proporciona. O seu filme traiu, no bom sentido, as expectativas do espectador, encontrar a jovem é secundário, o percurso é o que importa.
Sim, e “L’Avventura”, de Michelangelo Antonioni, foi sempre, para mim, um excelente exemplo de como uma história pode ser simples no cinema. Quando o vi pela primeira vez, talvez não me tenha apercebido disso; mais tarde, ao reflectir com maior atenção, fiquei impressionado com a simplicidade da sua premissa, e com a ausência de dramatismo. Trata-se de uma história tão simples que, provavelmente, nem a contarias a amigos, e ainda assim Antonioni decide fazer um filme a partir dela.

É uma grande inspiração para qualquer realizador perceber que há liberdade, que é possível libertar-se de uma narrativa pesada. Para mim, era importante haver uma história, mas sem perder o fio nem depender excessivamente dela. Também não queria que fosse demasiado carregada, para não condicionar o comportamento das personagens. Por isso, não quis que ela estivesse simplesmente perdida, nem que o pai vivesse num estado constante de nervosismo ou medo. Pelo contrário, deveria manter-se calmo, com a sensação de que ela está bem. É a curiosidade que o move, e cabe-lhe decidir se avança rapidamente ou se prefere ficar por ali, a conversar com uma vaca [risos].
Quero perguntar sobre a duração dos seus filmes, e digo isto não de forma pejorativa. A duração é importante não só para sentir, mas para contemplar as suas imagens. Precisamos descansar, entrar numa sala de cinema e esquecer o mundo lá fora,a sua aceleração principalmente. Porque fazes filmes longos? É uma promessa de fuga à realidade, ou uma forma de lembrar ao espectador que precisa de olhar para a imagem e para o tempo da imagem?
Nunca planeei fazer um filme longo. Quando começo, procuro não pensar nisso; até hoje, a duração nunca foi uma preocupação. Sigo antes as possibilidades e o desejo de filmar. Essa vontade é essencial: ao iniciar, há sempre tanto para captar. Muitas vezes surgem limitações orçamentais, mas, ao trabalhar com um dispositivo pequeno como um telemóvel, essa restrição desaparece, posso filmar livremente, tanto quanto quiser.
Depois chega a montagem, e aí tudo se complica. Este foi o filme mais difícil de montar, porque tinha muito material ao qual me afeiçoei. Quando arranquei com o projecto, imaginava algo com cerca de uma hora e vinte, mais ou menos. Mas tudo mudou quando comecei verdadeiramente. Não medi o tempo enquanto reunia aquilo de que gostava; só no fim percebi: estava demasiado longo. Continuei a montar até atingir um ponto em que cortar mais se tornava insuportável. Cada corte doía. Houve um limite em que senti não conseguir continuar a suportar essa perda. Parei, e vi que o filme tinha três horas e seis minutos. Não é uma decisão prévia; simplesmente acontece…
Já estás a trabalhar no próximo projecto?
Sim, hoje mesmo estou aqui com o director de fotografia a procurar localizações em Tbilisi para o próximo filme. Queremos começar a filmar em Outubro, que está quase aí.
Será um projecto bastante diferente, feito com uma equipa maior, onde quase não haverá margem para improvisação, ao contrário do que aconteceu neste, por razões de escala e de custos. Cada minuto terá de ser planeado como é habitual. Ainda assim, tentamos encontrar brechas que permitam olhar em redor e captar algo inesperado, mas, só por isso, já será muito distinto de “Dry Leaf”: existe um guião e a missão passa por filmá-lo tal como está escrito, com mais diálogos e menos natureza.
Menos natureza, e filmado maioritariamente em Tbilisi?
Sim, sobretudo em Tbilisi. Não filmo aqui há muito tempo e estou muito curioso por voltar a fazê-lo.

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