Expresso da meia-noite, via Irão–Canadá: o cinema como transbordo dessas geografias, do metarrealismo iraniano ao sarcasmo canadiano, desvirtuando a lógica e entendendo emoção e imagem como correspondentes. “Une langue universelle”, do canadiano Matthew Rankin, espelha assim um cinema capaz de comunicar por via de uma só linguagem — a possível nestes enquadramentos a que chamamos ‘arte de imagens’.
Em tempos, quando o cinema ainda jovem era levado aos quatro cantos do mundo como uma atração circense, havia quem se encarregasse de traduzir as imagens aos nativos, não explicando a história ou transcrevendo idiomas, mas ensinando, de forma espontânea, uma nova linguagem: a do cinema e o modo como aquelas imagens operam narrativamente e semioticamente. Hoje, perante a sede de apetites herdados das outras artes, é inegável como o modelo aristotélico se condensou e metamorfoseou num estado geral: três actos, elipses, clímax … tudo integrado no vocabulário cinematográfico de contar e recontar um enredo. Porém, no artifício da imagem, por vezes abalado pelo explicativo, onde o supra-sumo narrativo assume-se como ponto central, relegando-a a mero acessório.
Várias vagas surgiram, muitas em resposta ao conformismo da fórmula e às narrativas impostas desde os tempos das Ilíadas. “Une langue universelle” não inventa nem reinventa a linguagem, mas solicita algo ao espectador, um tanto adormecido na sua dormência: questionar a lógica em favor da metáfora. E que melhor cinema para acolher essa metáfora do que o iraniano? Entre saltos aqui e ali, chegamos a uma Winnipeg onde se fala farsi, um Irão possível em terras ocidentais, com um ponto comum: uma pobreza de espírito que se pavoneia como a maior das farsas. Um guia conduz turistas por esta cidade gélida, por entre centros comerciais abandonados, incidentes de estacionamento e uma mala deixada num banco de jardim onde os anos passam sem furto, promovida a património da UNESCO da honestidade mundial. “Atrações” contra o gosto dos visitantes, enfurecidos com tanta neve e sob o tédio de locais e artefactos tão peculiares.

Esta Winnipeg “iranizada” alude a um mundo inóspito que ultrapassa a sua própria mundanidade; mesmo filmada com requinte, não deixa de ser isso: banalidades elevadas por outras entoações. Ainda assim, “Une langue universelle” aponta para este mundo globalizado, despido do exotismo da descoberta, embalado pelo negrume da melancolia. O enredo parte daí, do absurdismo entranhado no quotidiano (uma florista que assinala a sensibilidade das plantas em avisos à navegação ou uma pitoresca turma escolar, por exemplo) e do raro acontecimento que marcará um punhado de personagens: uma nota congelada e as peripécias daí decorrentes.
Por outro lado, é na viagem a Winnipeg, após se despedir do trabalho, que Matthew (interpretado pelo próprio realizador), em conversas que piscam o olho às rábulas de Roy Andersson, dinamizadas por “over-the-shoulder” instantâneos a meia distância, segue à descoberta da sua misteriosa mãe. Esses subenredos concentram-se num filme arquitectonicamente composto, enquadrado e, por vezes, simétrico (sublinha-se, sem a obsessividade digna de um Wes Anderson), situando-nos numa comunidade de humanidade partilhada; eleva-se, a meia voz, tanto à perda como ao reencontro. Antes, porém, de o tornar num bom samaritano, apresenta-o como algo profundamente humano, nos seus traços de imperfeição singular.
A acidez confere à viagem um deslumbramento peculiar. Matthew Rankin procura aqui aquilo que nos liga ao cinema: imagens falantes e não-lugares geográficos. Neste universo a que chamamos sétima arte, abre-se uma janela escancarada para o mundo através do outro, com uma linguagem própria e, simultaneamente, universal.

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