Livremente baseado num conto de Robert Louis Stevenson, “A Providência e a Guitarra”, quarta longa-metragem de João Nicolau, com honras de abertura no mais recente Festival de Roterdão, conduz-nos por dois tempos: um contemporâneo, onde uma banda em ascensão, liderada por um vocalista em defesa da sua arte, se afirma; outro, mais distante, em que dois artistas procuram partilhar a sua criação com os habitantes de uma aldeia no limite do conservadorismo.

Falamos de Léon (Pedro Inês) e Elvira (Clara Riedenstein), saltimbancos da prosa e da guitarrada, a deambular entre épocas, mas ligados pela fidelidade a esse seu modus vivendi. Nicolau filma através do absurdismo, da farsa e da ironia um gesto que resiste ao empreendedorismo, ao mercado e à lógica capitalista: o de viver e respirar a arte como impulso orgânico, e não como função social. E, nesse movimento, revela como a política não apenas se infiltra nesses territórios, mas se torna indissociável deles.

Para falar de “A Providência e a Guitarra”, eis a sua musa em criação, Clara Riedenstein, descoberta pelo próprio Nicolau em “John From” enquanto parceira das paixões tropicais de trazer por casa por parte de Júlia Palha, encontra-se agora na pele da vibrante Elvira, uma cúmplice artística e amorosa. 

Segue uma conversa da actriz com o Cinematograficamente Falando … às portas da estreia do filme no IndieLisboa, onde compete pelo Prémio Nacional.

Contamos aqui com o seu regresso ao universo do João Nicolau, o qual o seu “John From” foi de facto a estreia da Clara no cinema. Portanto, fazendo esta trajetória, como chegaste a este projecto?

É um regresso, sim, mas na verdade nunca saí verdadeiramente do universo do João Nicolau. Desde “John From” que somos amigos. Quando ele me falou deste projecto, fiquei muito interessada em voltar a trabalhar com ele. Foi o meu primeiro filme; aprendi a fazer cinema com o João, por isso é, de certa forma, um regresso às origens, o que é sempre bom.

Ele falou-me da ideia há alguns anos, ainda enquanto escrevia o argumento. Fizemos um casting informal, apenas para perceber quem fazia cada papel, já tinha uma ideia das pessoas que queria no filme, todas próximas, todas do seu círculo. Acabou por ficar definido que faria o papel com o Pedro [Inês], que também é grande amigo do João desde a adolescência.

Isso remete para uma ideia recorrente no cinema do João Nicolau: de que são “filmes com amigos”.

Sim, com amigos. É bonito porque não há uma separação entre o actor e a personagem. Há uma continuidade que, para ele, é essencial, não só com os actores, mas com toda a equipa. Trabalha quase sempre com as mesmas pessoas. Voltei ao plateau e encontrei gente com quem ele tinha filmado há dez anos. Isso torna o processo muito especial e, de facto, muito familiar.

A Providência e a Guitarra (João Nicolau, 2026)

Encontra alguma relação com a personagem? Que são, na verdade, duas figuras — a Elvira do século XIX e a Elvira do presente.

Costumo dizer que a personagem principal do filme é o casal, não o Léon ou eu individualmente, mas a dinâmica entre ambos. Há muito do Pedro no Léon, e isso parece-me ter sido pensado desde a escrita ou desde a leitura do conto pelo João. O Pedro é muito expressivo, muito físico, muito presente no corpo. Vivo mais na cabeça, e a Elvira também.

Eles encontram-se num lugar muito particular, numa dinâmica muito própria. A verdadeira força deles está em estarem juntos. Isso também aconteceu entre mim e o Pedro durante a rodagem: encontrámos uma dinâmica muito nossa e que continuou depois.

O filme baseia-se num conto de Robert Louis Stevenson. Leu-o antes do projecto?

Li-o várias vezes [risos] em inglês e depois em português, porque o filme parte da tradução e não do original. A tradução é excelente. Apesar de tudo, acho que é uma adaptação muito fiel ao espírito do conto. Claro que depois há tudo o que pertence ao universo do João (o presente, as viagens no tempo), mas ele conseguiu captar muito bem esse espírito. Sou grande fã de Stevenson.

Nota-se muito a assinatura do João Nicolau aqui, dialogando com “Tecnoboss” e “John From”, onde encontramos uma ideia de farsa musical, onde a própria música é uma desconstrução.

A música é sempre central no cinema do João, faz parte da forma como pensa os filmes. Em “John From”, por exemplo, a Júlia Palha teve de aprender um instrumento para o filme.

Aqui, a música não existe fora do filme, faz parte da narrativa. Se a retirarmos, perde-se muito. Muitas das mensagens políticas estão nas canções, sobretudo na parte contemporânea. Sinto que a viagem emocional do filme passa muito por aí. Quando o Léon e a Elvira estão desesperados à porta do hotel e não sabem o que fazer, começam a cantar, isso diz muito sobre a natureza do filme.

Há uma sequência que envolve um pintor que gostaria que me falasse: a dificuldade em vender quadros e a precariedade associada. O filme parece questionar a ideia de que o artista tem de “merecer” viver da arte.

Há claramente esse confronto, e é bastante explícito, mas o Léon e a Elvira são, em si, uma encarnação dessa ideia de que a arte se vive por si própria. O processo de criação está sempre em tensão com as expectativas sociais, sempre esteve e continuará a estar. O pintor representa uma versão mais amarga dessa condição, mas o casal Léon Elvira vivem-na de forma mais serena.

E o filme não sugere a ideia de triunfo. Eles não “vencem” a precariedade.

Exacto! E essa nem é a ambição deles. A ambição não é ultrapassar a dificuldade, mas vivê-la e aceitá-la. Fazer da arte uma expressão disso mesmo.

E, passando ao presente, apesar de a personagem não estar directamente ligada à arte, ao contrário da do Pedro Inês e da sua banda, trata-se de uma figura claramente associada à política. O que é curioso, sobretudo tendo em conta a polémica deste ano no meio cinematográfico, em torno de Wim Wenders e do Festival de Berlim, sobre a ideia de que os artistas deveriam afastar-se da política. No entanto, no cinema de João Nicolau, e neste filme em particular, essa separação não existe: há antes uma ligação evidente entre arte e política.

Estudo filosofia política, portanto é um tema central para mim. Acho que a posição da arte torna praticamente impossível que ela não seja política. Cada escolha é política. Todas as decisões que tomamos na vida são, de algum modo, políticas, mas isso já é outra questão. Se acredito nisso, então acredito também que a arte e todas as escolhas que fazemos enquanto artistas são profundamente políticas. A ligação entre arte e política sempre foi muito próxima.

Muitos artistas produzem aquilo que consideramos a melhor arte, grande parte dela é arte de resistência, explícita ou não, mas sempre situada no seu tempo. A arte integrada no seu tempo é, inevitavelmente, política, porque é a política que molda a nossa vida. O facto de a personagem da Elvira, no presente ou noutra existência, ter um percurso político, parece-me natural.

Os artistas fazem escolhas para se expressarem dessa forma, mas dentro de nós existe uma enorme variedade de vidas possíveis. Um artista tem sempre uma perspectiva muito forte do mundo, e uma das formas de a expressar é através da política. Separar completamente estas dimensões é, de certo modo, negar aquilo que nos habita. Não sou só actriz, sou também cidadã, estudante, entre muitas outras coisas.

Da mesma forma, todos os artistas são pessoas que vivem dentro do mundo em que vivemos hoje. Nesse mundo, tudo é político.

A Portuguesa (Rita Azevedo Gomes, 2018)

E, voltando a esse ponto, a personagem no presente integra um partido chamado, se não me engano, Esquerda Total. O que é curioso, tendo em conta o nosso panorama político (Portugal a virar à direita, uma esquerda que parece fragilizada) e o facto de o filme sugerir uma esquerda bastante radicalizada, ao mesmo tempo que aborda o problema das pessoas.

Sim, uma esquerda que tenta, como estava a dizer, ligar-se directamente às pessoas e às suas vivências, comunicando de forma diferente. Acho que isso também se relaciona com o que referi sobre a ligação entre arte e política: a política é uma forma de comunicação, tal como a arte também o é. Nesse sentido, a arte e a política podem associar-se muito.

Sim. Penso que essa é também a ideia. Este partido foi pensado pelo João, que, na minha opinião, é um grande artista, e acaba por ser uma reflexão sobre como se podem comunicar ideias de esquerda, que são naturalmente teóricas, de uma forma mais concreta, mais próxima das pessoas e mais acessível. O interessante é também a cena em que a Elvira faz esse discurso: ela tem de assimilar a forma como esse tipo de linguagem política é construída. Foi muito interessante, em termos de trabalho, essa transformação na forma de falar. Mas é igualmente interessante ver essa passagem das ideias à prática — a maneira como a política e o activismo se concretizam.

Queria falar do teu percurso enquanto actriz. Este filme é também uma continuidade da tua ligação ao João Nicolau e da amizade que tens com ele. No meio desse percurso surge um “A Portuguesa”, de Rita Azevedo Gomes, que se tornou bastante apreciado e que, diria, é possivelmente mais conhecido numa certa comunidade cinéfila portuguesa.

É um percurso particular. Nunca … ou raramente … tive a ambição de ser actriz. Foi algo que aconteceu, em grande parte, por sorte: conheci o João nessa altura, ele fez esse filme [“John From”], e depois fui fazendo projectos à medida que surgiam. A minha forma de trabalhar passou sempre por falar com pessoas sobre os projectos que queriam fazer e perceber como isso se encaixava com a minha vida principal, que é bastante académica e…

Ou seja, académica em primeiro, actriz em segundo. [risos]

Exacto [risos]. Quer dizer, não penso exactamente nesses termos, mas o trabalho de um actor (pelo menos no cinema) é muito baseado em projectos. Ou a pessoa procura mais trabalho, ou segue um caminho como o meu, que me dá liberdade para só aceitar projectos que considero interessantes. “A Portuguesa” foi um desses projectos. Na altura, em 2017, era muito nova. Foi muito diferente trabalhar com a Rita, porque cada realizador tem uma abordagem distinta. Aqui não era tanto uma questão de texto, como neste filme, que é muito textual e adoro isso, mas sim de imagens, de tentar traduzir ideias ou sentimentos através delas, muitas vezes em planos longos e com uma certa distância da câmara.

Com uma certa distância da câmara, quase todos os planos de “A Portuguesa” são bastante distantes.

Sim. Acaba por parecer quase um meio diferente. Cada filme é como entrar num meio distinto, a câmara não é apenas uma câmara. Dependendo da posição e da forma como interages com ela, com o espaço e contigo própria, a experiência muda completamente. Isso também faz parte da exploração do trabalho. Assim que, de certa forma, decido se quero ou não fazer um projecto.

Depois veio a pandemia, o que tornou mais difícil ir a Portugal para filmar e voltar à Inglaterra, onde vivo. Mas entretanto surgiu “A Providência e a Guitarra” e participei nesse projecto. Mais tarde fiz também um episódio para um projecto do Carlos Conceição, que ainda vai ser apresentado, se não estou em erro.

E pelo que sei há um filme da dupla Ana Baldini e o Roly Witherow (“Kiss and be Friends”)?

Sim. No ano passado, Ana Baldini e o Roly Witherow falaram comigo sobre este filme, “Gil Vicente, O Sapo e O Jumento”, e cada vez acredito mais que os filmes devem nascer dessa vontade pura de fazer cinema. O cinema é um meio muito caro, com obstáculos enormes para quem quer começar, sobretudo em longas-metragens.

É importante proteger o financiamento público para o cinema e para a arte em geral. Mas, como os recursos são limitados, quero cada vez mais participar em projectos que existem apenas porque as pessoas quiseram realmente fazê-los. Acho isso muito interessante, trabalhar com a Ana e o Roly tem sido muito bom nesse sentido.

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