Baseado num caso verídico que chocou o país nos anos 30, esta é a história de uma jovem que, após ser acusada de bruxaria e possessão, foi linchada pela própria população da aldeia do concelho de Marco de Canaveses. Esta produção de António da Cunha Telles, “O Crime da Aldeia Velha“, é um retrato sombrio e ambíguo de um povo fechado em crenças e superstições, oprimido pelos ideais da Igreja e acorrentado às tradições e folclore. Em suma, é a imagem de uma população retrógrada e obscura, mesmo diante dos avanços do seu tempo.

Dirigido pelo artista plástico e cineasta de influências neo-realistas, Manuel Guimarães, “O Crime da Aldeia Velha” é a adaptação da peça homónima do dramaturgo Bernardo Santareno, um autor que sempre enfrentou a censura do regime salazarista. Esta produção ousada destaca o isolamento das aldeias em relação à crescente civilização, negando-lhes bens essenciais e serviços sociais como assistência médica e educação, sublinhando o problema sério que isso representa para o seu desenvolvimento e a necessidade de iluminar tais mentes escuras. Devido à enorme distância entre a aldeia (um lugar simbólico que evoca outras comunidades rurais espalhadas pelo país) e o centro de desenvolvimento (as cidades), Aldeia Velha torna-se um local remoto, ainda vivendo na Idade das Trevas, que “castiga” a sua habitante mais moderna, Joana (interpretada por Barbara Laage). Esta mulher bela, solteira e emancipada de um mundo totalmente masculino, por outras palavras, ou melhor, no rodriguinho “à frente do seu tempo”, é acusada de possessão e condenada pelos anciãos e os restantes habitantes da Aldeia Velha, chegando mesmo a persuadi-la e convencê-la da sua suposta “maldição”.

O desfecho de “O Crime da Aldeia Velha” é previsível desde os primeiros instantes para todos os espectadores, aliás, o próprio título alude à inevitabilidade de um crime iminente. A sequência final é avassaladora, marcada por uma intensidade climática que permanece impactante mesmo após meio século desde a sua estreia. Esta obra, de teor gótico, ambíguo e visualmente artesanal, é um testemunho das proezas, sempre negligenciadas de Manuel Guimarães, realizador por si só “castigado” pelo abraço da estética neo-realista e a sua difícil inserção no meio cinematográfico. Hoje, a sua obra parece-nos formalmente antiquada, mesmo que os valores estejam lá à “mão de semear” (veja-se, por exemplo, “Saltimbancos”, em 1951, um “La Strada” antes de “La Strada”, olvidado perante o seu contexto geográfico).

“O Crime da Aldeia Velha” destaca-se ainda pelo mérito de recriar cuidadosamente a sua própria comunidade, envolvendo um leque de personagens e figurinos autênticos (com a participação real do povo da aldeia de Monsanto), representações tradicionais (com a construção de uma aldeia exclusivamente para a rodagem) e diálogos rudimentares mas cativantes, conferindo uma credibilidade e funcionalidade ímpares à aldeia retratada.

Todos estes factores compensam a produção inusitada, uma história rica e intencional que, lamentavelmente, não envelheceu de forma homogénea (culpa-se efectivamente os baixos recursos da nossa inexistente “indústria“). Diversas sequências revelam-se excessivamente obsoletas, incluindo erros gritantes (como a cena do duelo e os seus raccords espaciais incoerentes), comprometendo a credibilidade de “O Crime da Aldeia Velha”. Apesar destas falhas, o filme permanece uma peça preciosa na filmografia nacional. Este é definitivamente um trabalho que merecia um reconhecimento mais amplo no nosso cinema.

2 respostas a ““Tenho o Diabo no sangue””

  1. […] de um certo limite [referente à secção ‘Quarto Perdido’ e a “repetição” de “O Crime da Aldeia Velha” de Manuel Guimarães], sendo que ‘A Sala de Culto”, por exemplo, parece oferecer mais […]

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  2. […] como o “Crime da Aldeia Velha”, a adaptação de Bernardo Santareno por Manuel Guimarães (1964), Cristèle remexe no […]

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