Há realizadores cuja contemporaneidade é imediatamente generosa, e outros cujo tempo simplesmente esquece. Hiroshi Shimizu (1903–1966) pertenceu durante décadas à segunda categoria, e, sintomaticamente, foi o próprio tempo a tender a corrigi-lo. Amigo e contemporâneo de Yasujiro Ozu na Shôchiku, Shimizu foi em tempos apelidado de genial, elogio saído não de um mero mortal, mas de Kenji Mizoguchi em pessoa.
Com uma filmografia que conta com mais de quarenta longas-metragens, o nipónico ficou reconhecido pelo seu cinema de grande humanidade: os chamados “filmes de crianças”, a orfandade, a relação institucional com os enfants, com desconstrução e olhar crítico num despojamento sem portas escancaradas, sem tingir o seu aparente melodramatismo com políticas demasiado evidentes. Mesmo assim, as sombras em volta de Shimizu foram-se adensando (e nem após a sua morte o pouparam à penumbra), até que a Cinemateca Francesa lhe dedicou uma retrospectiva integral em 2021, o Museum of the Moving Image de Nova Iorque seguiu o exemplo em 2024, e, entretanto, a distribuidora The Stone and the Plot, mais concretamente o programador Miguel Patrício, fez chegar às salas portuguesas um primeiro e esplendoroso Shimizu, “Sound in the Mist” (“O Som no Nevoeiro”), no âmbito do ciclo Mestres Japoneses Desconhecidos. Um feito não apenas a nível nacional, mas possivelmente também internacional: talvez a primeira estreia comercial num país ocidental fora do Japão do filme de 1956.


O sucesso de crítica e de público deliciou o programador (e especialista de cinema nipónico em terras lusas), motivando uma segunda visita à filmografia de Shimizu na sequela do ciclo. “A Imagem de uma Mãe” (“Image of a Mother” / “Haha no omokage”, 1959), outra pepita, confirmava a sua sensibilidade, remexendo em temas antigos e choques culturais. Mas em Shimizu não se ficou por aqui: a The Stone and the Plot avança agora com um novo ciclo, não de Mestres Desconhecidos, mas de resgatados, um Shimizu Tardio, a revisitar as duas obras já mencionadas em conjunto com três inéditos no nosso país a assinalar a recta final da trajectória deste cineasta (com a promessa de Miguel Patrício de um regresso shimizuiano em território específico, a Cinemateca Portuguesa). Essas obras são The Sentimental Idiot (O Idiota Sentimental, 1956), Children Seeking a Mother (Crianças à Procura de Mãe, 1956) e Dancing Girl (A Dançarina, 1957) — que em conjunto com os já reprogramados constituem os seis derradeiros trabalhos do realizador ao serviço do estúdio Daiei, inicialmente a convite de Mizoguchi. Na altura, a crítica japonesa menosprezou-os, atirando-os para o canto do embaraçoso, ou apontando-os como prova viva de um antigo mestre sem fôlego e dissociado do seu tempo.
Contudo, as obras chegam-nos com a promessa de posicionar no cânone, Hiroshi Shimizu, das temáticas que a carreira compreendeu em parte e a sua sensibilidade em trazer estas personagens, mais do que redenção, lugares próprios no Mundo. O fantasma tem por fim a sua carne!
“The Sentimental Idiot”

O primeiro filme de Shimizu na Daiei, “O Idiota Sentimental“, tem como base um livro de Matsutarô Kawaguchi (não é a única adaptação do autor pelo cineasta, contamos com “A Mother’s Journey”, 1958), mas nesta estreia no universo é evidente o cuidado na composição e na justeza para com as personagens femininas. Neste caso, Yuri (Rieko Sumi), uma cantora de cabaret cobiçada pelos seus clientes, nomeadamente por um jovem vendedor de motas em ascensão na sua empresa, que, para garantir uma vida de luxo à sua “concubina”, burla os seus compradores. Acaba preso por esse acto de vigarice. Yuri, por compaixão à mãe do jovem que a procura e desesperadamente lhe pede ajuda, tenta, de burlado a burlado, conseguir “arrancar” o perdão de todos ao seu enclausurado amante.
Trata-se de uma jornada de buscas morais com personagens condenadas à amoralidade do seu meio, Yuri, por mais “suja” aparenta ser nesse prisma, manobra-se por entre as suas artimanhas, as suas ligações pré-estabelecidas com o mundo que lhe acolhe e a transforma, numa espécie de peão da dignidade, um símbolo de um inabalável altruísmo. Um dos momentos altos e quase alegóricos do filme é precisamente quando esta mulher, orgulhosa do seu pedestal, é humilhada por um bando de homens desaprovadores da “procissão”, porém nunca vergada, apenas formada como um mártir, não na pureza religiosa (mesmo que a imagética sacra anseia deflorar-se no campo), mas na concretização na construção de um high moral ground, imperfeito e determinado.
Tecnicamente é irrepreensível, clássico na forma mas igualmente dinâmico na estrutura, pontuado por um travelling ou outro que, em contexto shimizuiano, começa a fazer sentido aos olhos do cinéfilo ainda virgem.
“Children Seeking a Mother”

Regresso de Shimizu aos seus temas correntes e familiares: a orfandade, a infância, a sua fragilidade e a importância das relações familiares. Num período pós-guerra, numa geração marcada de órfãos e lesados, uma mãe (Nao Abe) procura o filho desaparecido há muito, de orfanato em orfanato, até que, pelo contacto com determinadas crianças, se fixa num deles como educadora.
À medida que a narrativa avança, vamos descobrindo a estrutura desta instituição, as mulheres que a compõem e a hierarquia de “mãos macias” que mantêm. As crianças vão fazendo as pazes com o seu estado ou conquistando a redenção familiar ao longo da narrativa, quase saltitando numa estrutura episódica onde a protagonista, assumindo igualmente de narradora, funciona como ponto comum de todos estes dramas e subdramas. Contudo, não é só de crianças que o filme unicamente desenvolve, uma das personagens, uma jovem professora que, com o casamento à porta, detém o dilema entre iniciar uma vida a dois ou permanecer no orfanato que a viu crescer.
É um filme terno, sem dúvida, e no meio da “criançada” e das suas relações, Shimizu é “peixe na água”, depurado, e com os seus momentos lacrimejantes que nunca falham.
“Dancing Girl”

Do que nos foi apresentado até aqui, podemos recair nas artimanhas que o tempo maliciosamente opera na neblina em “O Som no Nevoeiro” ou na batalha campal de uma madrasta a tentar estabelecer laços com o enteado em “A Imagem de uma Mãe”, mas “A Dançarina” revela-se uma das jóias mais reluzentes da coroa de Shimizu. Escrita pela argumentista Sumie Tanaka (colaboradora recorrente de Mikio Naruse e autora de dois filmes de Kinuyo Tanaka: “Forever a Woman” e “Girls of the Night“), este é o enredo de uma dançarina de cabaret cuja vida é posta de pantanas pela vinda da irmã mais nova.
O argumento move-se algures entre o melodramático e o folhetinesco — episódios de adultério, desejo, ribalta e queda —, e poderia funcionar como ‘fogo-de-vista’ ou como mimetismo hollywoodesco de segunda ordem. Poderia, mas a começar pela escrita de Tanaka, capaz de capturar nesta irmandade ligações mais complexas e uma sensibilidade íntima destas mulheres presas ao seu tempo, cada uma com o seu compasso próprio: a protagonista, Chikage Awashima (a actriz de “A Imagem de uma Mãe”), é mais uma mártir à imagem de Yuri de “O Idiota Sentimental”, só que enquanto uma é proactiva na sua demanda, a de “A Dançarina” é fatalista, sacrificial; e a sua irmã mais nova, a grande estrela mizoguchiana Machiko Kyō (a fantasmagórica Senhora Wakasa de “Ugetsu“), de aparente eterna juventude e imaturidade, vai embarcando numa rota de penalizações (ou de karma, como queiram ver). É o yin e o yang em eterna disputa pelo mesmo homem, pela domesticidade, pelo palco ou pelo sonho: a vida invejada, a vida roubada.
O primor desta obra advém sobretudo da capacidade de Shimizu em “resolver” conflitos ruidosos com o silêncio, e de como essa privação sonora nos interpela para além das imagens; depois, aqueles travellings graciosos e sem pés chatos, a complementar, ou … falando em pés, um plano detalhe de um improvisado “bailado” de solas e sapatos a conseguir transmitir mais do que o debitar de juras ou impulsos lascivos. Apetece-nos gritar obra-prima, e talvez seja …

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