A ascensão e queda de uma mulher (filha de açougueiro tornada condessa) atravessa o século XX: do início marcado pela Primeira Guerra à agitação operária, do colaboracionismo nazi ao pós-trauma da tal sequela bélico. Uma panóplia de ventos históricos encontra eco na vivência desta figura ficcional, Jeanne de Barante (Souheila Yacoub, de “Le Sel des larmes”, de Garrel, e futuramente protagonista do próximo “Evil Dead”), assumindo um lado simultaneamente cronista e historiográfico, como uma espécie de biopic de época.
Contudo, a verdadeira prova de existência deste “L’Âge d’Or” (não confundir com o de Luis Buñuel) reside no uso e na manipulação de imagens de arquivo, convocadas para preencher um vazio há muito deixado pelo desuso (e pela desconfiança orçamental) da reconstituição histórica no cinema (apenas à mercê do tecnológico e artificial ou das facturas astronómicas apenas suportadas por blockbusters hollywoodescos). São essas imagens, essas “pessoas reais”, hoje fantasmas, a servir de palco, figuração e credibilidade ao percurso de Jeanne e às suas dicotomias classistas. Na sua primeira longa-metragem, Bérengèr Thouin mergulha nos arquivos, procura uma linha narrativa e manipula criativamente as imagens à sua mercê para encabeçar a sua história, faz dos seus actores e desse mesmo material cinematográfico adaptar-se aos registos seleccionados, embarca na sua simbiose, e … voilá, eis o trunfo!
A sua “Idade de Ouro” é, assim, simultaneamente ficção e documento. Vista por esse prisma, ganha uma curiosidade particular, por vezes atingindo a morbidez, pela forma desassombrada como trabalha o espólio arquivista. Não se nega o movimento de cintura, nem a travessura deste pacto entre passado e presente, mas percebe-se que, sem esse artifício, o filme dificilmente sobreviveria, resvalando para o conformismo de um telefilme.
É nesse uso que “L’Âge d’Or” se eleva acima do que poderia ser: coloca-se em bicos de pés perante o seu legado histórico, oferecendo uma espécie de brinde, guloseima imagética, marcada por uma inquietação estética constante, e por fim, a camuflagem. No fundo, talvez a melhor palavra para o descrever seja mesmo essa: camuflagem, a capacidade de se confundir com o próprio arquivo, de nele se infiltrar até quase desaparecer. E é aí que vislumbramos a técnica…

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