“Você é de direita ou de esquerda? Não, eu sou da estrada.”
Não é presunção do crítico: o filme abre com uma citação de “À Espera de Godot”, a peça de Samuel Beckett. Com isso, “Eu Não te Ouço” assume-se desde logo como uma obra pensada a partir de princípios beckettianos, o de nunca enganar o espectador quanto ao artifício. É um filme que se afirma como tal, para lá da sua dose de realidade (inspirada no chamado caso do “patriota do caminhão”), construindo uma metalinguagem de travagem, provocação e pensamento partilhado entre ficção e audiência.
Recorrendo ao actor Márcio Vito (“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”), que interpreta tanto o camionista como o “patriota” agarrado ao pára-choques da viatura, o filme revisita um episódio ocorrido em 2022, no calor das manifestações pró-Jair Bolsonaro, após a sua derrota eleitoral e sob alegações de fraude amplificadas pelo próprio ex-presidente. Um desses manifestantes, levando o papel activista ao extremo, tenta bloquear a estrada, agarra-se a um camião e acaba transportado contra a sua vontade, quilómetros adiante. Aquilo que começou como um meme viral é aqui humanizado pelo realizador Caco Ciocler, transformando a grande viatura em movimento numa alegoria da incomunicabilidade. De um lado, o camionista, protegido pelo para-brisas; do outro, o conspirador agarrado à lataria. Ambos tentam dialogar, mas sem efeito, a impossibilidade física impede-os. Uma câmara invisível, mas assumida, coloca-os frente a frente com os seus próprios pensamentos devaneantes, revelando um ponto comum: a recusa em escutar e compreender o outro.
Mais do que um comentário político directo ou uma sátira ao bolsonarismo, o filme procura a humanização, apontando a incapacidade de ver e compreender o outro como uma das causas mais profundas da polarização. Poder-se-á acusar essa abordagem de simplista, até ingénua perante a complexidade e os danos desses movimentos, mas a intenção persiste: uma espécie de antídoto contra a falência empática e as reacções instintivas que nos transformam em máquinas de isolamento.
“Eu Não te Ouço” dialoga com a anterior longa de Ciocler, “A Partida” (2019), que ficcionalizava a ascensão de Bolsonaro ao poder. Aqui, num espaço-tempo suspenso, ensaia-se antes um prenúncio do fim desse “reinado”, aproximando-se das consequências dos seus discursos e da sua legitimidade (i)moral. No entanto, não há conclusão: o movimento (ou ideologia, como se queira) persiste, infiltra-se como um vírus errante, e Ciocler, como sugere nos minutos finais, deixa-o seguir estrada fora — resistente, persistente e, ao mesmo tempo, negligenciado… até à próxima causa.

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