Prólogo: no Ártico profundo o vampiro de Ellesmere analisa as narrativas humanas. Por vezes discute telepaticamente com o intelectual vampiro de Svalbard.

O vampiro de Ellesmere ficou a filosofar depois da sessão de “Burning Ambition” (*), filme de comemoração dos 50 anos do Iron Maiden – e pensou que os humanos celebram estas datas certas depois dessa grande invenção do ZERO, aparentemente no território indiano, que se imaginava ter chegado ao Ocidente para subverter a numeração romana via mundo árabe. A invenção do ZERO nada tinha a ver com uma análise que ficou de enviar ao vampiro de Svalbard, sem acesso ao filme – mas ele percebeu rapidamente que a invenção do ZERO interessaria muito mais o seu amigo do que um objeto morno que tentava se justificar como um produto de reunião da família Maiden – a banda e os seus muitos fãs. 

Mas num surto de inspiração e já que o filme não merecia grandes linhas, Ellesmere pensou que era curioso um dia Bruce Dickinson ter dito que “tocar rock’n’roll era a liberdade para ser irresponsável e ser pago por isso”. E agora o filme celebra justamente o lugar onde se foca a artilharia adolescente, a família, para a exaltar! Mas não façamos bruxaria com as palavras ou Eddie irrompe pelo Ártico para acordar Ellesmere com uma baforada do seu hálito necrofágico. 

O filme começa no East End, onde também inicia a trajetória da rapaziada; de um bando de tipos impossíveis de enquadrar numa tal época (quem é que estava a pensar em máquinas de tortura medievais no auge do “punk“?) até chegar a um contrato, tocavam mais rápido e certamente sem a teatralidade e os motivos histórico/literários pelos quais se tornariam famosos. A crise com Paul Di’anno é conhecida de qualquer fã do Maiden, mesmo que o número da carteirinha de sócio seja 666.666; a de Clive Burr idem – e o que o filme celebração não faz é acrescentar absolutamente nada com os supostos “depoimentos inéditos”. 

Segue o gigantesco sucesso com Dickinson, o impressionante alargamento das fronteiras geográficas (incluindo a Cortina de Ferro nos anos 80), mas praticamente nada do processo criativo, da escrita das letras, da banda em estúdio, da enorme técnica musical. Depois a decadência a meio dos anos 90 e os anos duríssimos para Blaze Bayley, que curiosamente acabam por ser os mais tocantes. Um fã resumiu bem a ideia: “Blaze deve ter feito uma festa para comemorar o anúncio de que era vocalista dos Iron Maiden. No outro dia acordou e pensou: ‘que m.!‘” 

Os músicos andaram a dizer que não se envolveram na produção e que queriam credibilidade; se o realizador Malcolm Venville escapou mesmo das manápulas do “ayatollahSteve Harris e do seu fiel escudeiro Ron Smallwood, não se nota. “Burning Ambition” é, na verdade, muito pouco ambicioso e falta uma ideia realmente interessante por trás de uma “timeline” extremamente superficial dos altos e baixos que todas as bandas enfrentam. Por outras palavras, não há fricção. Mas quem é que quer faíscas numa festa institucional de família aos 50 anos? Só que comparada à outra instituição do “heavy metal”, os Metallica, que se afundaram na lama da psicoterapia com uma câmara espetada na cara em “Some Kind of Monster”, “Burning Ambition” soa como alguém a tentar incendiar a floresta com um fósforo. 

(*) Filme estreia a 14/05 nas salas portuguesas.

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