É, de facto, um dos casamentos mais duradouros com o cinema: o boxe. Através desse desporto, traçam-se odisseias humanas onde o humanismo, o derrotismo e uma ideia, por vezes equívoca, de glória se tornam de apelo popular. Nos últimos tempos, porém, essa faceta mais melancólica, de degradação, do pugilismo enquanto alegoria da nossa existência social, parece regressar ao seu clímax.
À primeira vista, “La Danse des renards” surge como uma variação europeia dessas narrativas, com uma co-produção belga e um certo encanto francófono, seguindo Camille (Samuel Kirchner, anteriormente objecto de desejo de Léa Drucker no remake francês de “Queen of Hearts“), um jovem e brilhante pugilista, na linha da frente do campeonato francês, que sofre um acidente de percurso, perseguindo raposas nas margens florestais junto ao colégio interno que frequenta. Lesionado, tenta regressar ao ringue sob o olhar desconfiado dos colegas e a dúvida do amigo, e também rival, Matteo (Fayçal Anaflous), ele próprio com potencial para disputar o cobiçado lugar. Se, por um lado, a belga Valéry Carnoy (na sua primeira longa-metragem) se inscreve como um retrato de uma masculinidade vincada e nociva (as emoções e as inseguranças são tabus neste grupo de rapazes de “coro”), prejudicial à recuperação do protagonista e às suas relações, por outro, revela-se um conto derrotista: a suposta ascensão de Camille não assenta inteiramente no mérito, sendo antes sustentada pelo treinador e por um ambiente escolar que o favorece.
Essa ambivalência (uma faca de dois gumes) conduz a um filme de múltiplas leituras: cada espectador poderá nele encontrar uma obra distinta (e pelo meio a metáfora animal incorporado na raposa, fera matreira e de natureza oportunista). Longe de ser um defeito, essa abertura constitui antes uma virtude, ao não impor uma interpretação única e ao preservar a liberdade emocional de quem vê. Para além do seu espírito, “La Danse des renards” é, acima de tudo, um exercício técnico sólido. Carnoy filma os combates de boxe inglês com uma irrequieta noção de acção, onde a violência não surge como gratuita, mas como necessária, quase orgânica, agressiva, dentro e fora do ringue. Camille, “herói” de proximidade, perde tanto quanto ganha nessa ascensão incerta pela escadaria do seu desporto.

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