Aos 40 anos perdi a virgindade da Boca do Inferno … e decidi ir, pela primeira vez, à icónica Maratona de cinema fantástico, tendo apenas relatos de terceiros desconhecidos como referência. A ideia era em teoria excelente e até económica: por 10 euros, visitar grande parte da respetiva secção do IndieLisboa de uma forma contínua. E em retrospectiva, talvez me tenha armado em campeão, relembrando outras pseudo-maratonas dos meus 20 e tal anos, que de qualquer das formas acabavam comigo a dormitar no sofá. Este deveria ser um sinal, que não bastaria um só café e um par de bolachas açucaradas para me manter acordado.
A Maratona deste ano decidiu abrir com um conjunto de uma curta e uma longa que eram por si só um teste à resistência do espectador. Não por serem efetivamente “lentas” mas por convidarem por si a episódios transe em pleno virar do dia. “Index“, de Radu Muntean, 29 minutos, é um filme puramente observatório (sobre um ornitólogo observador) sem diálogos; “Camp” de Avalon Fast entra deliberadamente num território onírico, e sim, “Lynchiano”, sobre uma mulher que tenta reconciliar o seu passado traumático ao juntar-se a um acampamento juvenil, e aí começa a ter visões ao ponto de nos fazer todos questionar o que é real em tudo aquilo. Passaram-se quase duas horas e meia de sessão, e os olhos a semicerrar podiam ser reavivados com o barulho do abrir de latas de bebidas energéticas ao lado. Havia inclusivé quem se tinha preparado com marmitas, pequenos sacos com comida – isto num cinema como o Ideal parecia em si um gesto disruptivo com a gerência habitual do espaço (mas terá sido quem aguentou melhor a noite).
Para quem pensava que ia ter 7h ininterruptas, houve logo ao início o “alívio” de que após cada longa-metragem haveria lugar para um intervalo. Só que o intervalo é uma benção que pode quebrar ou revigorar. Senti-me mais normal, ao ouvir quem jocosamente tinha afirmado que “dormiu uma sesta” neste primeiro terço para aproveitar o que aí viria. E de facto, atravessando umas curtas-metragens mais “complicadas” (como “Interface” de Aya Kawazoe, ainda assim fazendo jus à “trip” de madrugada entre o consciente e o inconsciente) eis que surge um filme que esperemos ver a solo: “Fucktoys” de Annapurna Sriram é uma atualização para a nova geração identitária do cinema de John Waters, sem qualquer medo de mostrar o que quer, de f**** com quem quer, um objeto finalmente vivo e verdadeiramente “brat“, sem medo de usar o rótulo “trash” (a cidade onde rola a ação chama-se “Trashtown“, num cenário alternativo ao mundo “real” pré-2000), para no fundo espelhar um ensaio pós-feminista sobre aproveitamento capitalista da nossa sociedade, entre a cartomancia e a exploração sexual dos corpos à margem. Foi de tal modo uma trip de ascensão que chegado aos créditos finais, decidi, com as minhas restantes forças mentais, sair em alta desta sessão e voltar para o conforto da minha casa. Aguentei, em boa verdade, dois terços de maratona sem qualquer preparação prévia. Talvez a idade esteja mesmo a pesar.

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