Simão Cayatte lança-se no chamado “filme do meio”, isto é, daquele vazio no “campo de batalha do Cinema Português” entrincheirado, de um lado o autoral e do outro o comercial, podendo procurar-se significados mais polidos para cada um dos termos, mas este não é o lugar apropriado, até porque “O Barqueiro”, segunda longa-metragem do realizador em questão, não se presta a mudar a face da nossa cinematografia, mas, acima de tudo, a evidenciar a narrativa como eixo central da produção. Não é por acaso que Cayatte (para uma certa faixa conhecido como o produtor do lovecraftiano Color Out of Space”, de Richard Stanley, com Nicolas Cage na Serra de Sintra) tenha trabalhado como “script reader” na produtora de Darren Aronofsky [Protozoa] e daí tenha adquirido essa “mentalidade hollywood” do guião como prioridade absoluta; “O Barqueiro”, tal como o anterior “Vadio” (2022), responde a esse estímulo, mas sob um prisma americano… e, antes que venha ‘pedrada’, esclareça-se fora de qualquer sentido pejorativo: o “americano” aqui traduz-se na valorização das outras valências, sejam interpretativas ou técnicas, elementos que se articulam como resposta materializada do argumento.

Indo ao encontro do filme propriamente dito, seguimos Romeu Runa (“Great Yarmouth: Provisional Figures”) de feição estoica como Joaquim, ex-recluso libertado prematuramente e que, por isso, mantém o seu paradeiro oculto da família que o espera (ou talvez não), enquanto procura uma ocupação que o reinsira na sociedade. Acaba por o encontrar numa espécie de “biscate” oferecido por Fernando (Miguel Borges), proprietário de uma empresa de exploração de moluscos no Tejo. A tarefa é aparentemente simples: transportar, duas vezes por dia, um grupo de imigrantes asiáticos para pequenos baixios revelados pela maré baixa e trazê-los de volta, sem levantar questões nem intervir perante a sua condição; porém, algo começa a destoar, e Joaquim começa a detectá-lo nestas operações, o que o leva a suspeitar da legalidade da empresa e da situação daqueles imigrantes.

A história desenvolve-se em torno de temas correntes e politizados do panorama português, sem que Cayatte se deixe vergar pela denúncia de palanque, preferindo construir essa dimensão através da empatia e de um enredo que se adensa num ambiente de suspeição; se, por um lado, Borges surge como antagonista à boa maneira portuguesa, com um traço de chico-espertice de tasca depurada, Romeu Runa funciona num estado de permanente desgaste emocional, desadequado e interiormente inquieto, sendo coadjuvado por Jani Zhao (actriz brevemente em destaque em “Projecto Global” de Ivo M. Ferreira), que esboça razões suficientes para não ser ignorada neste nosso cantinho à beira-mar plantado.

O Barqueiro” configura-se, assim, como um filme de redenção e, acima de tudo, de encontro com uma humanidade em tempos de ocasião, que Cayatte expõe com o artifício mais antigo do cinema: a arte de contar uma história; na boa tradição dos recentes “O Bêbado” de André Marques, “Terra Vil” de Luís Campos e “Maria Vitória” de Mário Patrocínio, afirma-se como formalização do “filme do meio português”, faltando apenas que o espectador responda às propostas.

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