Nino”, o filme, tal como a personagem (de corpo e olhar vago revelado por Théodore Pellerin), entra na dimensão existencial dos filmes “egoístas” da solipsidade perante a morte, território que o cinema francês, de alguma maneira, serpenteia sem recorrer nem ceder a uma moralidade pró-vida. Mas, antes de os gauleses reclamarem esse trono, “Ikiru”, de Akira Kurosawa, advém dessa mesma estima pela vivência enquanto vivência e não pela existência de quem, no caso da obra nipónica, dedicou anos a fio ao serviço; leitura possível nas bravuras da crítica ao capitalismo, que nos transforma em corpos de trabalho e nos leva a renegar identidade e humanismo.

Contudo, “Nino”, primeira longa-metragem de Pauline Loquès, parece beber das mesmas águas de “Le Temps qui reste”, de François Ozon, ainda que sem a fixação no seu próprio mundo burguês; no caso de Nino, mais uma vez a personagem, a descoberta de um cancro e os dias contados da sua aventura terrena colocam-no perante dilemas e na procura dos seus traumas — neste caso, a morte do pai enquanto ainda era criança, o que se reflecte num medo da paternidade e, por sua vez, na urgência do legado.

É fácil reconhecer em Nino esse arquétipo de homem em vias de extinção, vagueando por festas tristes ou confrontando-se com o passado de rosto humano, relembrando e nostalgiando o seu trajecto, uma espécie de malapata sem o absurdo da receita, e que, ainda assim, se insere numa sociedade onde, inconscientemente, procura a sua Humanidade; no fundo, um homem à beira da morte encontra essa vertente enquanto encena a sua própria desistência. Mesmo sem apostar no abandono das directrizes morais do pró-vida, aceitar a morte possui, de facto, a sua poesia: é um filme que se fixa no que resta, concentrando-o sem o multiplicar, para que o espectador, juntamente com o protagonista, embalado nesse realismo já contrafeito que dói, se foque naquilo que realmente importa na jornada vivente. 

Ser Nino não é apenas ficção, é um espelho de todos nós, e não necessariamente ditado num “final countdown”.

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