Roar” é, sem grande ou elaborada discussão, o filme mais perigoso alguma vez feito, para além de deter o título de mais irresponsável. Acrescente-se também um certo embaraço no resultado final que nos foi dado: a história de uma família que coabita com centenas de grandes felinos e outros animais selvagens, em hectares da África Oriental, numa linha directa para as vivências de Noel Marshall, conhecido como produtor de “The Exorcist”, que passou mais de uma década na companhia destes animais num santuário na Califórnia (ainda hoje existente, dando pelo nome de Shambala Preserve), fundado pelo próprio. Convenceu-se a fazer um filme nestas condições (a rodar nessa reserva e chamá-la de África), sublinhando o termo “família”, nem que fosse para trazer a sua para a rodagem e contracenar com as bestas aparentemente domesticadas: a sua esposa e actriz Tippi Hedren (“The Birds”, de Alfred Hitchcock), a filha, também actriz, Melanie Griffith, e o filho John Marshall.

O enredo não seria nada complexo, adequando-se às condições de rodagem: trata-se, curiosamente, da visita da família a Hank (personagem de Marshall, o pai, sublinhe-se) ao seu refúgio africano, criando-se assim peripécias entre os “newcomers” e os selvagens daquele território com essa “perigosa adaptação”. Contudo, aquilo que parecia pretender ser uma comédia revira-se num verdadeiro terror; os actores, por mais que tentem actuar perante garras e dentes de leões e tigres, revelam insegurança, tremem e temem pela própria vida, isso é mais que evidente, todo o espectáculo está sem rédeas nem algo que o sustenha.

Rodado entre 1976 e 1979, o filme desaparece do radar em 1981, e não é por menos: garantindo-se que nenhum animal ficou ferido durante as filmagens (acrescente-se que ocorreram inundações que destruíram parte do set e equipamento), foram cerca de 70 as pessoas lesionadas nesta produção, incluindo os actores principais — Tippi Hedren necessitou de cirurgia plástica devido aos ferimentos — e Jan de Bont, director de fotografia (e mais tarde realizador de “Speed” e do desastroso remake de “The Haunting”), sendo este historial explorado como espécie de “cicatrizes de guerra” na publicidade do seu relançamento.

Relançamento? Sim: mesmo com o “desaparecimento” do filme após 1981, em 2015 a Drafthouse Films adquiriu os direitos e distribuiu-o nas salas americanas (e, posteriormente, em algumas espalhadas pelo mundo, bem como em festivais internacionais), com o desagrado de Noel Marshall e de Tippi Hedren, esta última acusando a promoção do filme de se focar em incoerências. Hoje, ver “Roar” não passa mais do que uma mera curiosidade, algures entre o macabro ou do voyeurismo digno de acidente, mesmo que Marshall continuou dedicado aos seus animais até ao último sopro da sua vida (faleceu em 2010, com 79 anos), nunca mais ousou em dirigir mais nenhuma obra. A sua breve, mas dolorosa carreira de realizador, ficou-se por este rugido. 

A rodagem deste filme serviu de fruto para o documentário “Roar: The Most Dangerous Movie Ever Made” (Rob Muraskin, 2017), acolhendo dezenas de depoimentos e fortalecendo o estatuto quase mitológico por detrás da obra. 

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