Retirado da mochila, um livro alongado de capa vermelha com um fotograma de “Dina & Django” (1981), pedi que me assinasse; antes de o fazer, Solveig Nordlund folheou o catálogo da sua obra com um brilho nos olhos, como se revisitasse memórias em modo acelerado, um pequeno joguete, o júbilo de ter uma consagração, uma vénia presa entre os seus dedos. “Não sei se está aqui, ou a minha memória falha, mas acho que tem a carta do Ballard”. “Ballard?”, fui apanhado de surpresa; “J. G. Ballard?”, repeti para afastar qualquer equívoco. “Sim, Ballard escreveu-me uma carta a dar bênção ao meu filme [“Aparelho Voador de Baixa Altitude”]. Foi útil para o ICA… só que não a encontro!” A sua felicidade transforma-se em pequena frustração enquanto inspecciona o livro de uma ponta à outra. “Tinha de estar aqui!”.
Contudo, deixámos o episódio de lado, o do tal catálogo da Cinemateca, e partiu-se para a entrevista propriamente dita, a ter lugar nos escritórios da produtora Real Ficção de Rui Simões, decorrendo numa espécie de ateliê cruzado com arquivo; perante nós, um poster de “Memórias do Teatro da Cornucópia”, o documentário que me levava ali. Fiz questão de sublinhar que falaríamos do documento, ficando as ficções e a carreira para outro dia, com tempo e, talvez, com a carta ballardiana.
A realizadora sueca radicada em Portugal prestou-se ao espólio e à memorabilia de uma das companhias de teatro mais relevantes de Lisboa pós-25 de Abril, hoje de porta fechada; por lá passou parte do seu tempo e do seu convívio, numa espécie de fusão entre teatro e cinema. Fundado por Luís Miguel Cintra e pelo saudoso Jorge Silva Melo, entre peças de cariz político e estratagemas experimentais, de arrojo dramatúrgico e cénico, matéria para uma viagem para lá da cortina, para lá da encenação, a vida e morte de um espaço, de um espírito, de um legado; agora ficam os fantasmas, os aparelhos de alta atitude.
Solveig Nordlund falou com o Cinematograficamente Falando … nesta breve conversa sobre teatro, processos e ainda alguns toques à sua ficção, mas pouco, não fossem as recordações da Cornucópia tornarem-se secundarizadas; longe de mim tal desfeita … PS, a carta de Ballard constava no catálogo (ver final do texto).
Vou começar pela pergunta mais aberta: de onde veio esta ideia, este projeto, e qual é o seu interesse particular pela Cornucópia?
Eu era amiga do Luís Miguel [Cintra] e do Jorge Silva Melo antes mesmo de a Cornucópia ser criada, em 73. Quando a companhia nasceu, já fazia parte daquele círculo (não era sócia, mas estava lá). No início havia muita ideia de fazer intercâmbio entre teatro e cinema, até organizámos sessões para o público nesses primeiros tempos. Logo então surgiu a ideia de criar um arquivo. Muito mais tarde, quando a Cornucópia acabou, essa ideia voltou, quis ter acesso ao arquivo, trabalhar esse material. Não calhou naquela altura, mas calhou agora.
E o filme foi feito com o acordo, e até convite, do Luís Miguel Cintra? O Jorge Silva Melo já não está entre nós.
Sim, o Luís Miguel concordou.
O propósito do documentário é preservar a memória desta companhia, o que ela foi, ou há também, em subtexto, a intenção de trazer à superfície o lado político que a Cornucópia sempre carregou?
Pensei mais em mostrar uma companhia que viveu tanto tempo. Isso implica, claro, a política dos anos que foram passando, da Ditadura ao 25 de Abril, o fim da censura, a importância da colectividade nos primeiros tempos. O material revela essa evolução por si mesmo. O filme segue o tempo.

Há uma frase no filme, dita pelo Luís Miguel Cintra numa reportagem pós-25 de Abril, sobre a necessidade de o teatro intervir na vida das pessoas. Não diz “teatro político”, mas qualquer intervenção na vida das pessoas é, de alguma forma, política.
Sim, e ele fala nisso a propósito de algo concreto: que é importante que o teatro intervenha no dia-a-dia, e que isso implica pensar como se vive esse dia-a-dia.
Isso vai além do que é o chamado mainstream teatral: as adaptações, as revistas, que acabaram por se refugiar num lado mais de espectáculo do que de intervenção. Qual seria a função do teatro, visto pelo prisma da Cornucópia?
Era ambição, sim. Logo no início dedicavam-se muito a trabalhar sobre a pequena burguesia, para mostrar que a Revolução de Abril foi feita por ela e, ao mesmo tempo, contra ela.
Com a consciência assumida de que também vieram de lá.
Exacto! E na continuação, quando o Luís Miguel fala, tem sempre a ver com como é que nós vivemos a vida. Nesse sentido, pode dizer-se que o Teatro da Cornucópia foi um projecto ambicioso, não era uma peça aqui, uma peça ali. Eles tentaram construir uma linha.
Seguindo essa lógica … já passo ao processo do filme … acredita que o teatro hoje em dia se tornou ele próprio burguês? Não o teatro da Cornucópia, o teatro português em geral.
Acho que sim. Quando vejo a programação (e já nem sequer a consigo ver em papel, tenho de ir à internet), sinto que houve um recuo, e as companhias já não dialogam entre si. Naquela época havia tantas companhias que a programação de uma era quase uma resposta à de outra. Hoje esse diálogo não existe.
Isso se sente no próprio filme. Logo nos primeiros passos da Cornucópia surge o nome do Filipe La Féria, que vinha do teatro experimental, o mesmo nome que hoje associamos aos musicais para massas, o dito teatro popular e espectacular. Nota-se que naquele tempo havia essa colaboração de artistas que refere.
Sim, ele estava na Cornucópia no início …
Mas sobre o processo de trabalho deste documentário: teve acesso ao arquivo, o que é que, enquanto realizadora, quis trazer ao de cima?
Eu própria, quando estou a ver o material, fico impressionada. Uma companhia na mesma casa durante mais de 40 anos, praticamente com as mesmas pessoas (embora fossem mudando ao longo do tempo), e que conseguiu fazer isso sem ser uma companhia estatal. Era particular. Hoje em dia acho completamente impossível.
Impossível. Temos visto os Artistas Unidos [outra companhia de teatro lisboeta] à procura de uma casa, cada vez mais difícil. Há outro ponto que queria que comentasse, algo que no filme me deixou com vontade de saber mais: o afastamento entre o Luís Miguel Cintra e o Jorge Silva Melo. Não está muito desenvolvido no documentário.
São aquelas coisas particulares que acontecem entre pessoas: amizade a mais, amizade a menos. O Luís Miguel disse-me, a propósito de “Casimiro e Carolina“, um espectáculo que esteve sete meses em cena, que o Jorge não participou. Com certeza ele terá estado ali fora muitas noites.
E acredita que a Cornucópia foi também uma porta de entrada para o cinema, tanto para o Luís Miguel Cintra como para o Jorge Silva Melo, que depois avançou para a realização?
Sim. Quando a Cornucópia começou, Manoel de Oliveira já existia, mas o Luís Miguel ainda não sabia que viria a ser o actor preferido dele. O Jorge sempre teve interesse pelo cinema, e a nossa cooperativa, o Grupo Zero, tinha escritório lá. Havia, desde o início, uma abertura entre as artes.
O que é curioso é que essa ligação entre cinema e teatro em Portugal também gerou as suas tensões. Acusou-se muito o cinema português, numa certa época, de ser demasiado teatral, demasiado performativo, e os seus próprios filmes tentavam, de alguma forma, desfazer esse lado teatral.
Estás a falar de mim, agora?
Estou a fazer uma curva, sim [risos].
Acho que, mesmo ao nível do teatro, há uma entrevista com o Jorge Silva Melo logo no início do filme em que ele fala sobre como os actores devem representar, e já era, de certa forma, uma maneira cinematográfica de representar. Ele diz-lhes para serem eles próprios, não para interpretar uma personagem. O meu interesse principal era o cinema. O meu marido [Alberto Seixas Santos], quando fez “Brandos Costumes“, o Jorge era assistente. Estávamos todos misturados, à volta do teatro e do cinema.

O que o Jorge Silva Melo fez foi cinema, não teatro filmado, e a Cornucópia foi, certamente, essa porta giratória entre os dois mundos. O Luís Miguel Cintra é o maior exemplo disso, e o Jorge Silva Melo seguiu o mesmo caminho.
Só para acrescentar: eu própria deveria ter encenado uma peça na Cornucópia, mas a actriz, infelizmente, morreu e o projecto ficou suspenso. Mais tarde, o Jorge convidou-me (uns vinte anos depois) e acabei por fazer teatro com a Capital, os Artistas Unidos, já nos anos 2000. Fizemos teatro na Politécnica … cada sala com uma peça diferente. Foi uma experiência muito interessante, e depois ainda fiz teatro tanto na Nacional como em Almada.
Há um lado emocional neste documentário que me tocou, e também um certo ar dos tempos. Hoje em dia toda a gente reconhece a dimensão do Luís Miguel Cintra, no teatro e no cinema, e parece que existe uma urgência em homenageá-lo antes da sua partida neste Mundo. O documentário, com os seus depoimentos actuais e a forma como ele é filmado, poderemos dizer que também tem o seu lado de homenagem ao actor.
Não era essa a intenção. Compreendo que pareça assim, mas há tanto material de arquivo com o Luís Miguel porque ele, desde que ganhou aquele prémio, não me lembro quando, era uma figura pública. As televisões foram-lhe perguntando tudo durante anos. É por isso que existe tanto material: ele tem, ao longo de 40 anos, a possibilidade de comentar o seu próprio trabalho com uma câmara à frente.
E o documentário regista também algo de muito particular: a sua despedida dos palcos da Cornucópia. A doença tornou impossível que ele voltasse a atuar, e o filme acaba por traçar esse arco: o Luís Miguel em cena como figura central, até à grande despedida.
Ele era, para os jornalistas nessa época, o rosto principal. Sem dúvida.
É cinema lá dentro. Como dizia o John Malkovich — se ele tivesse saído de Portugal, seria possivelmente um dos maiores atores do cinema mundial. Pelo menos é isso que está escrito em pedra. Mas já que trabalhou no Grupo Zero e ao longo da carreira fez bastantes documentários, foi na ficção que ficou reconhecida enquanto realizadora, com obras como “Dina e Django”, “Até Amanhã, Mário”, “A Filha” e “Aparelho Voador de Baixa Atitude”… Pensa em regressar à ficção?
Agora que terminei este documentário estou a decidir o que fazer a seguir, mas o processo de apresentar um projecto de ficção é tão longo, esperar pelo concurso, preencher documentos, escrever não sei quantas páginas, esperar pelo júri, que, na idade em que estou, nem sei se tenho vontade de percorrer todos esses trâmites. Estou a pensar nisso. Tinha um projecto com Ballard, mas acho que para mim já passou.
Pois não é estranha ao universo do Ballard, tendo em conta o seu “Aparelho Voador”. Aliás, sinto que há um resgate desse filme nesses últimos tempos. Penso que na altura não foi muito bem recebido pela crítica, mas hoje há um outro olhar sobre ele, talvez graças ao esforço do festival MOTELx em devolver o seu público.
Penso que foi sempre bem recebido. Vão passá-lo no Museu de Serralves, na Casa de Manoel de Oliveira …
Mas quanto à “A Filha” já não foi bem assim. Sempre ficou muito nas sombras da reacção que teve na altura.
Para mim foi uma grande decepção. Criámos uma produtora para fazer o filme. Ontem passei-o na Covilhã, mas eu própria, naquela altura, sinto que não fiz muito esforço de divulgação.
O filme não foi muito bem recebido pela crítica na altura.
Na altura disseram mal. Agora dizem bem [risos]. Mas devo dizer que já nem me lembro se o mandei para algum festival ou não. Mas falhei na distribuição, e havia também a questão do casting, o papel principal estava pensado para o Rogério Samora, que abandonou dois dias antes das filmagens. Pedi ao Nuno Melo, que estava ali ao lado com os Artistas Unidos para o fazer … mas ainda hoje penso que ele está óptimo.

Concordo. Tenho saudades dele, aliás.
Já agora, uma última questão: ao longo do trabalho nestas “Memórias do Teatro da Cornucópia”, seguiu também outros trabalhos realizados sobre a companhia? Nomeadamente “A Ilusão”, da Sofia Marques, um documentário sobre a última peça da Cornucópia?
Vi “A Ilusão”, sim. Mas não o integrei no meu documentário — não por nenhuma razão especial. Também o José Álvaro Morais tentou fazer um filme sobre a Cornucópia [Teatro da Cornucópia, a Louca Jornada, 1999], e há material no meu documentário que terá origem nesse projecto.


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