Entroncamento, cidade engaiolada geograficamente, embutida numa variedade de classes e naturezas em constante conflito, está pronta para receber o seu “novo elemento”; de um comboio vindo do Norte (a origem não interessa, somente o destino), chega-nos Laura (Ana Vilaça), pronta para recomeçar a sua vida aparentemente desfeita, contudo é nessa cidade-dormitório, acusada por muitos, que se tornará rainha, pouco a pouco, progredindo no seu trono, de crime e de uma certa vingança para com o Mundo que não a compreendeu.

É um retrato de violência, crime e sujidade, meras camadas que Pedro Cabeleira deseja penetrar para captar a humanização de todo aquele biótopo. O cineasta português, anos atrás, e em ecrãs suíços de Locarno, divulgou gerações rasca e à rasca que se entregaram em plenitude às noites embutidas de álcool e estupefacientes para evadir as suas desiludidas realidades; foi o “Verão Danado”. Agora chegou a vez de ouvir outras lamentações, frustrações, decepções, localizados em cativeiros de betão e com uma linha férrea enquanto artéria, a ligação possível para um outro Portugal; “Entroncamento” chega-nos sorrateiramente para sair da nossa beira com sequelas e vítimas.

Em conversa com o Cinematograficamente Falando … o realizador falou sobre a sua experiência na cidade, traduziu-a num filme (ainda nas salas), esse de política das estribeiras e do seu centro, se não fosse todo o Cinema … político.

O Entroncamento tem sempre sido visto como uma cidade de passagem. É isso também que o filme quer trabalhar?

É uma cidade de passagem para a maior parte dos turistas, isso é verdade. Mas é também uma cidade-dormitório para grande parte das pessoas que lá vivem. Essas duas coisas coexistem …

Pensando na distância entre o “Verão Danado” e este filme, que mesmo sendo obras muito diferentes, elas partilham uma certa visão desiludida, não com o país em abstracto, mas com as promessas que foram sendo feitas enquanto éramos jovens. No “Verão Danado” havia uma juventude perdida, sem rumo, mal amparada. No “Entroncamento” retrata jovens adultos que parecem presos numa espécie de armadilha social, sem saídas visíveis. Isso corresponde também à tua leitura do país, ou mais especificamente do Entroncamento?

Não só do país, é também uma visão que tenho sobre as coisas em geral. A maior parte das vezes estou focado nas pessoas que vivem em dificuldade. As pessoas não têm uma vida estável; isso é um facto. Haverá sempre alguém privilegiado que consegue uma vida folgada e tranquila, mas a maior parte atravessa desafios, e os meus filmes reflectem sobretudo isso, vão ao encontro dessas pessoas. No “Verão Danado” eram estudantes, tinham acabado o curso e estavam perdidos a fugir pela noite. Eram marginalizados, embora muitos deles viessem depois a ter, como se costuma dizer, ‘vidas normais’. No “Entroncamento” são pessoas que estão também à margem, mas de outro modo. É a vida a ser difícil, num jeito mais permanente. É a minha visão do mundo e também a minha experiência pessoal: sobreviver, arranjar dinheiro, nada disso cai de paraquedas.

Pedro Cabeleira

Trabalhar no cinema português é, por si só, uma incógnita enorme …

E não só no cinema. Olho também para pessoas que não trabalham em cinema nenhum … A maior parte trabalha em serviços, não tem investimentos, passa dificuldades. Pessoas que trabalham num emprego dito ‘normal’, que fazem o que têm de fazer, mas que não estão a fazer aquilo que gostariam. Isso é transversal.

Quando entrevistei-o pelo “Verão Danado”, o Pedro já mencionava este projeto. Foram anos a tentar concretizá-lo. O filme acabou por estrear com um timing que só posso chamar certeiro: o partido de extrema-direita CHEGA ganhou a câmara do Entroncamento em 2025, contudo, a obra já parecia antecipar isso. Aquela cena com os polícias, a cena do tio da personagem do Sérgio Coragem (interpretado pelo actor João Craveiro), aquele lamento…

Com aquele lamento, sim.

Estava de certa forma a prever o que vinha aí, ou era mais inconsciente, apenas o que sentias na pele?

Não era inconsciente. Era previsível. As pessoas achavam que eu era pessimista, mas quando o CHEGA teve os primeiros 12% dizia: isto vai crescer muito mais. Depois não acreditavam. Teve 50, agora está com 61. Comecei a ver aquilo a ganhar tracção no Entroncamento

Em 2020, quando comecei a trabalhar no argumento e a estudar o financiamento do ICA, comecei a incorporar esse discurso mais directamente, porque via pessoas que conheço desde sempre a partilhar coisas no Facebook, a falar mais à vontade. Nunca me esqueço de um texto enorme de alguém que conhecia bem, a dizer que as pessoas do interior estão esquecidas, que ninguém as vê, que os de Lisboa fazem-lhes isto e aquilo. Percebi que o CHEGA estava a ganhar tração ali, nessa frustração, nesse lamento. Ao longo do desenvolvimento, o discurso foi-se consolidando cada vez mais na população local. Desde pequeno que convivo com xenofobia, sempre foi um meio muito conservador, extremamente misógino, isso sempre existiu. Mas com o CHEGA isso transformou-se em política. Antes a xenofobia era a conversa de café. Agora é política. Está presente no nosso parlamento, nas nossas televisões. 

Nas primeiras versões de montagem não tinha nem a cena do polícia nem a cena do jantar de Natal, só a cena da professora, o qual acho muito importante porque toca na questão da Cleo [Diára], na relação dela com o Gilinho (Henrique Barbosa), e na relação dele com a família. Era um apontamento. Mas com o tempo apercebi-me de que o filme não podia deixar essas outras duas cenas de lado, porque elas descodificam tudo o resto.

Quando o polícia e o tio falam, percebemos que aquele discurso é comum, que é o modo como aquela gente vê o mundo, e isso veio a confirmar-se: nas últimas legislativas, o CHEGA foi o partido mais votado no Entroncamento, e nas autárquicas ganhou a câmara.O que me preocupa é que não tenha ficado só ali. O que estou a sentir é que o Entroncamento é o princípio de algo que está a surgir no resto do país, e as pessoas não estão a dar conta disso. Acham que está ali naquela bolha, que é uma cidade pequena, mas não sei até que ponto nas próximas legislativas não vamos apanhar um grande susto.

Voltando ao filme: o que me deslumbrou genuinamente, e que o Pedro já tinha evidenciado essa marca em “Verão Danado”: são as cenas nocturnas. Há qualquer coisa ali que me remete ao cinema de Michael Mann, principalmente ao modo como ele filma a noite. Mas filmar à noite em Portugal é um desafio enorme, sobretudo com os meios disponíveis. Como conseguiu trabalhar com essa luz, e fazer com que soasse real?

O “Verão Danado” foi um bom ensaio para isso. Para perceber como se trabalha a noite e com que recursos. Com a Leonor Teles, aprendi que se pode jogar com os contraluzes, com pouca luz, sem precisar de iluminar tudo. Mover as personagens para mais perto da câmara também ajuda. Depois fiz um videoclipe com a Leonor onde usei as mesmas objectivas e a mesma câmara do “Verão Danado” — uma 7D, com pouca latitude, que não capta muita luz. Foi muito útil testar como funcionava à noite, apenas com a luz dos candeeiros. Gostei muito do contraluz, das sombras, de se ver pouco. Funcionava bem. No “Entroncamento” usámos muito pouca iluminação, o que a Leonor fez foi sobretudo cortar luzes, trabalhar com a que já existia no espaço (uma luz mais cerrаdа, mais escura), e posso dizer que tivemos uma sorte: o Entroncamento substituiu todas as lâmpadas por LEDs brancos. Portugal tinha muitas luzes amarelas, muito pitorescas, e de repente as luzes ficaram brancas, e isso deu um aspecto mais frio, mais duro, menos acolhedor. Funcionou perfeitamente para o tom do filme. Tínhamos muito poucas coisas, uns LEDs, uns kits de Asteras. Pontual. Mas acho que funciona. É diferente do “By Flávio”, que tem também cenas nocturnas mas numa chave completamente diferente …

… mais onírica, delirante e colorida.

Exactamente! É uma luz mais mágica, mais bonita. O “Entroncamento” era outra coisa, tinha que ser dura.

É curioso o que dizes sobre as luzes, porque há cineastas americanos que se queixaram do oposto, que a mudança para LEDs em Los Angeles prejudicou a filmagem nocturna, que era um marca registada daquela cidade.

Sim. Quando olhamos para o “Taxi Driver”, para o “French Connection”, para muitos filmes dos anos 70, vemos aquelas noites com luzes verdes e azuis. Visualmente é extraordinário, atribui um ar quase isolador à noite. Acredito que os cineastas americanos se tenham queixado porque aquilo era uma coisa incrível para trabalhar, de todos os lados as luzes ficavam verdes, azuis, e nunca brancas.

O “Collateral” (2004) do Michael Mann foi precisamente um dos últimos, se não o último, grande filme nocturno de Los Angeles antes dessa mudança de iluminação. É o último que preserva essa luminosidade específica da cidade. Mas mudando de tema, o Pedro falou do “By Flávio”, e já agora menciono a sua outra curta, “Filomena” (2019). Não queria forçar o assunto das curtas, mas o Pedro vem desse território: o “By Flávio” é de certa forma um ensaio de protagonismo para o “Entroncamento”, dado que o grande coração do filme (a longa, tal como a curta) é a actriz Ana Vilaça. Foi através dessa curta que entendeu o que ela podia ser enquanto centro dramático?

Faz todo o sentido. O “By Flávio” foi uma espécie de ensaio para o “Entroncamento”, não só pela Ana e pelo Tiago [Costa], mas por filmar naquela zona geográfica e abordar temas próximos. São filmes muito diferentes: o “By Flávio” é mais de situação, mais de evento, quase um conto de fadas perverso, uma comédia de costumes moderna. O “Entroncamento” é mais tenso, é de um outro género, mas na altura em que fiz o “By Flávio” não tinha ganho o ICA para o “Entroncamento”, e então pensei: posso trabalhar uma ideia que se passa naquela zona geográfica e que aborde mais ou menos estes temas, e foi óptimo para trabalhar pela primeira vez com a Ana.

São dois filmes que daqui a dez, quinze anos vou olhar com muito carinho, marcaram um período da minha vida. Têm a Ana como protagonista, com duas personagens completamente distintas, falam da mesma geografia, e encerram de certa forma a minha relação com a juventude. O período em que deixei de ser jovem. Comunicam muito um com o outro.

Falámos de passagens, de classe social, de transições e instabilidade, e o filme é precisamente sobre um entroncamento, e há algo que está sempre presente nessa cidade: os comboios. Os comboios representam de alguma forma toda essa instabilidade, sobretudo num momento em que cada vez mais pessoas que trabalham em Lisboa vivem a cem quilómetros e o comboio é literalmente a sua artéria. No filme há uma sequência que me ficou, o timing perfeito entre o comboio e o rapto do Rafael Morais. Foi calculado ou foi uma feliz coincidência?

Andámos à pesca dos comboios. Sempre que estávamos perto da linha, tínhamos alguém de produção a olhar para os horários e a comunicar por rádio: falta um minuto, está para passar. Organizávamos as coisas para apanhar o comboio na cena. Tenho pena de não ter apanhado mais, funcionam muito bem em câmara.

Os comboios remetem muito para a Hollywood clássica: o Hitchcock trabalhava muito dentro dos comboios, há toda uma arte da travessia, da viagem. É um objecto pesado. A (alegada) primeira projeção da história do cinema tinha um comboio, mas hoje a imagem do comboio, principalmente a de manhã cedo, é das mais deprimente que existe. Acredito que fizeste muitas vezes esse trajecto [do Entroncamento] para Lisboa, sabes bem do que falo.

Fiz muitas vezes o das 6h40! É mais triste. As pessoas vão cansadas, a dormir. Mas tem uma coisa boa, por vezes saías de noite e quando chegavas ali à zona de Vila Franca o Sol começava a nascer. Isso era uma imagem!

Mas os comboios têm isso — uma imagem muito pura. Estão sempre associados a subúrbios, a lugares vazios, a margens de cidade. As estações raramente ficam no centro; são atiradas para um canto, barulhentas, duras. A não ser no Entroncamento, onde a estação está no centro. Em todo o lado os comboios existem à margem — mas tu ouves-os sempre, estás no sítio mais afastado da cidade e continuas a ouvir as buzinas, o ranger das rodas nos carris. Houve uma pessoa que comentou numa entrevista que dei a um canal local, e disse uma coisa que me ficou: as pessoas não sabem o que é viver no Entroncamento, porque viver no Entroncamento é como ter o mundo à volta mas estar preso numa gaiola. Achei extraordinário. Nunca me teria saído uma coisa dessas. Ela captou muito bem essa sensação.

Do “Verão Danado”, de 2017, ao “Entroncamento”, conta-se oito anos. Chegar à segunda longa já é um feito em si. Pergunto se está a pensar na terceira, ou vai voltar às curtas como laboratório?

Estou neste momento a trabalhar noutro projecto, ainda vai a concurso, não sei se um dia irá acontecer, porém, já existem algumas ideias que podem vir a concretizar-se. Espero que todas se concretizem, mas vamos ver qual é que consegue ser feita. As curtas são óptimos laboratórios, mas como estou focado no projecto agora não consigo estar simultaneamente a trabalhar numa curta. Quem sabe mais para a frente, se tiver uma janela, volto lá — porque as curtas permitem ser mais arrojado, experimentar tecnicamente sem o peso de uma longa. Por enquanto é a longa que manda!

Só mais uma questão para terminar, e se calhar já respondeu de vaŕias maneiras ao longo desta nossa conversa, mas para organizar melhor a ideia: este ano, apesar de o filme ter estreado no ano passado (vi-o na altura do ACID, em Cannes), tem-se falado muito de cinema político, sobretudo por influência do que aconteceu no último Festival de Berlim. 

Enfim, não consigo olhar para “Entroncamento” sem associá-lo ao cinema político, não de forma explícita ou declarativa, mas claramente ao nível dos seus subtextos. Até porque acredito que alguém que vote no CHEGA pode olhar para o filme e reconhecer ali o seu próprio mundo, o seu próprio olhar, e acho que o filme até joga com isso de forma bastante inteligente. Mas a minha pergunta é mais geral: “Entroncamento” foi pensado como um manifesto político? E, no fundo, o cinema é sempre político?

Tendo a acreditar (e identifico-me muito com esta ideia) que todos os gestos são, inevitavelmente, gestos políticos. Mesmo a abstenção é, em si mesma, um gesto político. Quando alguém diz “não me posiciono” ou “sou moderado”, isso também implica uma escolha, um certo tipo de afastamento. Portanto, tudo aquilo que fazemos tem uma dimensão política, mesmo quando tentamos ignorar o que se passa à nossa volta. Há filmes que assumem essa dimensão de forma mais directa e outros que a incorporam de maneira mais subtil, mas, no fundo, ela está sempre lá.

No caso de “Entroncamento”, para mim, o ponto de partida nunca foi fazer um manifesto político. Aquilo que me interessa, antes de mais, é a experiência do filme enquanto experiência sensorial: o que sentimos ao ver as imagens, os rostos, as luzes, as cores, a música, as entoações das vozes. Essa dimensão mais intuitiva e sensorial é sempre a primeira camada. Por exemplo, gostei muito do filme “Primeira Pessoa do Plural, do Sandro Aguilar, precisamente por isso: é uma obra muito centrada na experiência, e, para mim, um dos grandes exemplos disso é o “2001: A Space Odyssey” — talvez a maior experiência cinematográfica que conheço.

Claro que os filmes não se esgotam nisso. Há sempre outras leituras possíveis, e “Entroncamento” tem, sem dúvida, uma dimensão política, não tanto no sentido de denunciar de forma directa, mas na forma como transmite determinadas sensações: frustração, ausência de expectativas, desgaste, monotonia. Essas emoções são, em si, matéria profundamente política. Depois, há também a questão das pessoas que têm sido expostas a determinados discursos, esses que alimentam ressentimentos e ódios. Aquilo que espero é que o filme, ao retratar pessoas que têm sido desumanizadas (sobretudo nos últimos anos, com o crescimento de certos movimentos políticos) consiga devolver-lhes humanidade aos olhos do espectador.

Não no sentido de “trazer de volta” algo que se perdeu, mas de permitir que o espectador reconheça essa humanidade. Que, por exemplo, ao ver o Gilinho a chorar, consiga empatizar com ele. Para mim, esse é talvez o gesto político mais forte do cinema: criar empatia. Sobretudo numa altura em que o oposto parece dominar (o ódio, muitas vezes instrumentalizado para conquistar poder). Pode soar um pouco ingénuo (até um pouco “piroso”, se quisermos) mas a verdade é que há aí um fundo muito real.

O Wim Wenders falou precisamente dessa ideia de empatia, embora tenha de seguida distanciado esse gesto da dimensão política. Mas, como o Pedro diz, qualquer gesto é político.

Sim, não me desligo da dimensão política. Acho que quem vê o filme percebe, de forma mais ou menos clara, qual é o meu posicionamento. Tanto no filme como na vida.

Simplesmente, no cinema, há diferentes caminhos para trabalhar essa dimensão. Pode ser mais directo, mais discursivo, mais denunciador, mas não foi esse o caminho que procurei aqui. Optei antes por um registo mais observacional, baseado no retrato, evitando uma abordagem demasiado maniqueísta. Até porque sinto que, se formos demasiado simplistas ou polarizados, acabamos por afastar precisamente as pessoas com quem talvez fosse mais importante comunicar, e isso era algo que queria evitar.

Preferi um caminho em que o espectador se pudesse reconhecer (quase como se estivesse perante um espelho) e, ao mesmo tempo, sentir algum desconforto com certas atitudes ou discursos. Tive, por exemplo, pessoas do Entroncamento (algumas com posições políticas claramente à direita radical) que me disseram que choraram numa determinada cena, e isso, para mim, foi muito significativo. Significa que, naquele momento, conseguiram ver aquela personagem como alguém humano, para mim, uma das grandes forças do cinema. Basta pensar no trabalho de Ken Loach, ou mais precisamente em “I, Daniel Blake“, que consegue gerar empatia pela classe trabalhadora de forma muito directa.

Acredito genuinamente que o cinema (e a cultura em geral) pode ser uma ferramenta poderosa contra formas de pensamento desumanizantes. Se queremos combater o ódio na sociedade, então investir na cultura não é um luxo, é uma necessidade. É uma das formas mais eficazes de promover empatia e pensamento crítico, e de evitar que as pessoas caiam em esparrelas de Isto não é o Bangladesh, e tretas desse género.

Deixe um comentário

Outras leituras