Carla Simón é, na possibilidade e na pequena vaga mediática que reserva (tendo vencido o Urso de Ouro de Berlim com a sua segunda longa-metragem, “Alcarrás”), a mundialmente reconhecida ponta-de-lança deste movimento de realizadoras espanholas a emergir com exercícios de prontidão intimista, com uma libertação sexual latente e uma denúncia político-social presente, quer nas entrelinhas, quer, em alguns casos, num registo mais “in your face”. Simón destaca-se claramente do seu círculo pela injecção quase proustiana, isto é, pela memória enquanto atelier ficcional, e, por sua vez, pelo Verão, presente desde as suas curtas e longas anteriores, enquanto cenário tempo-espacial das suas aventuras introspectivas.

Mas, pausando naquilo que esta romaria tem para oferecer (trocadilho preguiçoso da minha parte, sendo que o filme se intitula “Romeria”), impõe-se notar a tendência destes novos cineastas, independentemente da geografia a que pertencem, para aceder ao seu “eu” de qualquer forma ou feitio, traduzindo-o em carreiras cinematográficas; tal fenómeno é cada vez mais frequente, prova de que vivemos em tempos de isolamento interior, de frustração perante o futuro ou, em alguns casos (não sendo o de Simón, sublinhe-se), de puro narcisismo (vivemos na era dos narcisistas, ouve-se do outro lado do balcão).

Segundo Francesca Comencini, cuja veracidade se poderá aferir através do seu filme “Il Tempo Che Ci Vuole”, no qual aborda a sua infância, juventude e emancipação enquanto realizadora na sombra do seu pai, o cineasta italiano Luigi Comencini, este terá proferido, em contacto com os primeiros trabalhos da filha, a seguinte crítica: “mas porquê que vocês, os jovens, só querem filmar sobre si mesmos”; é tido que esta procura por histórias interiores, ou pela busca de respostas enfáticas através da família ou de recuerdos, advém, em grande medida, de uma viragem artística na passagem para o século XX, quando, em contacto com um mundo modernizado, em vias de globalização e defraudado por um progresso que não se reafirma (antes pelo contrário, face às constantes guerras), o globo se tornou desencantado, como se nada mais houvesse para descobrir, ficando a aventura, enquanto género, com os dias contados, daí emergindo novos movimentos artísticos, sobretudo literários, apontados para dentro, e cada vez mais para dentro do indivíduo, num processo em que tudo se torna individualizado, reforçando a chamada identidade, aquilo que nos torna únicos no colectivo.

O cinema demorou a seguir esta tendência, até porque, sendo uma arte mais jovem, teve de percorrer trilhos já pisados, mas, pouco a pouco, começou a reflectir sobre o indivíduo e, mais ainda, sobre quem faz cinema (não o artista, mas a pessoa); Fellini poderá ter rompido de vez com “Fellini 8 1/2”, apoiando-se num alter-ego, Guido, realizador em bloqueio criativo e em constantes trambolhões sentimentais, decidido a surfar nas suas memórias e nas suas crises existenciais e artísticas, gesto que irritou profundamente António-Pedro Vasconcelos, então crítico de cinema, que o entendeu como o fim prenunciado do cinema de autor, por considerar ter sido a primeira vez que um realizador colocava o seu nome no título.

Contudo, encontramo-nos hoje no apogeu do cinema da primeira pessoa; Carla Simón não será pioneira, nem tão-pouco o fim da linha, mas deve-se-lhe um certo respeito, porque, da memória, faz nascer uma ficção de procuras e materializações, quase truffautianas, à imagem de “Jules et Jim”, em que, ao invés de musas de pedra a corporizarem desejos, é o diário que encaminha os diferentes tempos.

Saímos com Marina Piñero (estreia de Llúcia Garcia), órfã que, ao completar 18 anos, parte para Vigo, mais concretamente para as costas que interligam o arquipélago de Cíes, em busca da família do seu falecido pai; o objectivo, mais do que penetrar nas suas origens ou conhecer verdadeiramente essa figura que nunca conseguiu chamar de pelo parentesco, passa por solicitar aos avós paternos um comprovativo que lhe permita candidatar-se a uma bolsa de cinema, sendo o diário, anteriormente mencionado, simultaneamente guia turístico e revelador das suas raízes familiares.

Marina não é apenas a protagonista da sua própria jornada, o seu corpo funciona também como desfibrilhador da representação do seu passado genealógico, e, quando a narrativa, que até então se aventurava no mar com um olhar atento a preciosidades, ou num parcial coming-of-age encantado, assume o “faz-de-conta”, isto é, o artifício da realidade narrada, pede ao espectador a suspensão da crença numa verdade absoluta trazida pela confissão; Simón filma o Verão, não apenas o de 1993, fazendo jus à sua primeira longa, mas também o de 2004 ou o de 1983, brincando com as narrações e recriando a sua própria odisseia. Tem um leve perfume de frescor e de saudade!

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