“The Drama” seria o tipo de filme que Lars von Trier faria com uma perna às costas; contudo, é de notar uma veia Dogma 95, sobretudo na forma como o grosso acto do casamento se apropria da acção. Vamos com tempo e, antes de avançarmos em linha recta para este copo-de-água dramático, refira-se que o realizador e argumentista Kristoffer Borgli é nórdico (mais propriamente norueguês, daí o encosto com a estética e psicanalise do referido movimento), deu nas vistas com o ácido “Sick of Myself” (2022), comentário sobre a popularidade quase balística dos influencers e outras vedetas das redes sociais, passou por Hollywood com Nicolas Cage em modo onírico (“Dream Scenario”, 2023) e por lá ficou … não no onirismo, mas nessa indústria que importa talento de todo o globo com o propósito de o triturar e afiambrar no conceito de “realizador perfeito”, cumpridor de ordens de CEOs e tendências.
Ficou bem na alçada da A24, produtora cuja reputação lhe permite dar carta branca aos seus realizadores, desde que estes se comprometam com determinadas directivas estéticas; o projecto atraiu duas estrelas de nova geração, de um lado o sempre esforçado Robert Pattinson e do outro o fenómeno de nome Zendaya, casal de dramas, queens e kings, que tudo espoleta na mais velha cantiga do boys meet girl, ele com a sua “cantada”, ela encantada. A relação apresenta-se perfeita, digna de qualquer variação de romcom, e o estilhaço narrativo até então revela essa fortaleza de ternuras e paixões, com o casamento já marcado e, como complemento típico do romance à la Hollywood, a boda planeada ao milímetro, com toda a performance concentrada nesse evento.
Um segredo, porém, é revelado em plena bebedeira e confissões entre amigos — “qual foi a pior coisa que fizeram?” —, verdades e consequências que conduzem a um desabafo arrancado, a partir do qual a pessoa ao nosso lado se transforma por completo, um desconhecido talvez, deixando de ser a “figura perfeita” de conto de fadas; afinal, quem é esta ‘pessoazinha’ a dias de casar? A vertigem afunila, as personagens desesperam, tentam encontrar redenção, reinício, recomeço, sendo o casamento, aí sim, a mais destrutiva das parábolas, porque a moralidade é, por vezes, uma bitch.
“The Drama” assume-se quase como um bailado de casamento, ensaiado e reensaiado até ao derradeiro momento, em que cada passo possui fundamento, propósito e balanço, coreografando-se numa espécie de alegoria em pista de dança; só que a dança não é perfeita, os intervenientes estão cansados de tanto treino, tropeçam, improvisam, disfarçam, até tentarem atingir o tão desejado ápice, a tão cobiçada e cinematográfica epifania. Ora, ao seguirmos este espectáculo (dramático, contudo), é-nos apresentado como um exercício tendencioso, já que Borgli parece alinhar na vaga dos filmes do “e se fosse comigo?”, propondo situações e dilemas para que o espectador possa hipotetizar juntamente com as personagens (Ruben Östlund fez disso a sua ‘casa’, com brilharetes na estante pessoal), e, após lançada a trama, a falha na aparente perfeição faz com que “The Drama” exponha em demasia o seu lado panfletário.
Parece que foi preciso um norueguês para tocar numa das grandes feridas da “cultura americana”, não apenas a das armas, mas também o flagelo dos “mass shootings” (tiroteios em massa), sendo a partir deste ponto que o enredo se desdobra numa galeria de flashbacks a servir de reforço sentimental ou de representação das vontades das personagens, uma espécie de codificação do problema em si, moendo a narrativa com este lado denunciante, visto e materializado por um estrangeiro; ou seja, o drama vira “filme de tema”, com rasgões ferozes no próprio lado performativo, e a psicanálise que sugere em pontos intermitentes corta mera superfície, a epiderme mantém-se intacta, guardando-se, porém, para algo maior, algo … dir-se-ia … espectacular.

O lado “Von Trier” de “The Drama” reflecte-se no acto do casório, com o desastre anunciado a manifestar-se perante a incapacidade dos protagonistas em lidar com os seus problemas. Gostamos de pensar que é Borgli a destruir a tal rainha das performances (o casamento), estabelecido como sagrada comunhão, convertendo-o numa perversa elegia de um relacionamento, ou melhor, do lado comunitário que se espera da esfera familiar; depois da tempestade, diz-se que vem a bonança, só que não, o que surge é melancolia, e, a pedido dos convictos do universo de ambos os actores, obviamente a medir os seus star power, como também em oposição aos descrentes, reconhece-se química e, mais do que isso, outras expressões a Zendaya, para lá da sua “poker face” e dos seus amuos.
Até porque o cinema americano dos últimos anos se tem unido para trazer a mensagem de que a actriz é a mais magnética mulher dos seus respectivos universos, uma espécie de Clara Bow desta era das redes sociais; se tudo isto não passa de marketing, a verdade (doa a quem doa) é que, em “The Drama”, prova ser mais do que a habitual ‘american sweetheart’ o qual se aproveitou, e talvez, quem sabe, surja uma actriz com pujança para voos maiores do especificar depressão jovial (a pandemia destes tempos … sem ironia alguma). Quanto a Robert Pattinson, o seu esforço é reconhecido, revelando um actor capaz, com alguma mágoa e inquietação ainda a palpitar naquele agora prescrito ar de galã.
O último momento, na sua possibilidade, responde satisfatoriamente à espera, sim, essa última cena tem primor, e, entre mortos e feridos, alguém escapará destas aventuras amorosas, porque lidamos, inevitavelmente, com a nossa natural solidão.

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