“Palestine 36” coloca-nos perante um exercício que ultrapassa o domínio estritamente cinematográfico, convocando antes uma reflexão política sobre a forma como o passado é reencenado e instrumentalizado no presente, bem como sobre a possibilidade de separar uma obra do contexto histórico que inevitavelmente a molda.
Pois bem … como metragem, um facto: é uma reconstituição histórica esquemática que visa “picar” A a B, e assim sucessivamente, numa narrativa assente na revisitação do passado com lentes apontadas ao futuro, e daí, indiscutivelmente, instalarmo-nos na nossa modernidade (ou melhor, na actualidade corrente) com contextos geopolíticos mais aprofundados. Com o filme de Annemarie Jacir (cineasta palestiniana com o mérito de “Like Twenty Impossibles”, em 2003, ter sido a primeira curta árabe na seleção oficial do Festival de Cannes, agora sob a etapa da quarta longa-metragem, conta com o apoio de 18 produtores), elabora-se esta reconstituição dos eventos que levaram à criação de Israel, muito antes de Israel em si; Palestina encontra-se, em pleno 1936, sob um inicial choque cultural e de classe (mais castas do que classes sociais), uma colónia britânica, onde a desapropriação de terras e dos vieses culturais, resultante de um processo de transformação do território levado a cabo pelos ingleses, se assume como História em constante diálogo com o escalar do conflito israelo-palestiniano, perante o qual hoje, sob vendas e na indiferença do nosso conforto enquanto frágil recompensa, chumbamos nesse teste de Humanidade enquanto civilização.
Palestina torna-se, à luz dos ventos recentes, numa nação-mártir, e essa martirologia não é de agora, nem dos últimos anos, sendo antes algo entendido quase como genético, inscrito nos mais profundos cromossomas dessas terras; para esse povo, ser enterrado na sua terra garantiria a posse para gerações posteriores, enquanto, para os britânicos, como se observa em determinada sequência, na esperança de uma burocracia, outros são os requisitos para a apropriação da propriedade; nestes termos, em paralelo, uma Grande Guerra percorre toda a Europa, judeus entram na busca de refúgio face aos horrores contra eles cometidos, e os britânicos cedem a uma moral limitada aos mais próximos da sua ocidentalização, com a cultura judaico-cristã a autopromover-se.

Tratando-se de História, ainda que dramaticamente ficcionalizada para caber no ecrã por pouco mais de duas horas, e com ambições de atingir um certo grau de epicidade, esses tempos capazes de sustentar tais produções desapareceram, já não existem, restando a tentativa de uma espécie de telefilme ao jeito BBC (daí um elenco diversificado e de algum pedigree, que vai desde Jeremy Irons, Hiam Abbass, Liam Cunningham e Robert Aramayo, actor recentemente premiado com um BAFTA por “I Swear”, surgindo aqui como a personificação da desumanidade inerente ao processo colonialista).
Voltando ao ponto inicial, sem margem de recuo, por entre colectivos, expositivos e dispositivos, “Palestine 36” não ultrapassa a concentração dos seus factos (da Revolta Árabe 1936-1939, a insurreição contra o Império Britânico, à antevisão da criação do Estado com o qual hoje nos debatemos) e, como Cinema, não chega a destacar-se; ainda assim, tal não invalida a sua precisão nem a sua necessidade, sendo um filme de natureza política vestido de produção anónima, talvez sob essa natureza mobilizar, consciencializar as massas, sensibilizando públicos fora do círculo artístico, cultural e cinéfilo, muitas vezes presos aos seus autores de intervenção e aos documentários denunciadores.
Fora toda essa convencionalidade, importa sublinhar que este é o tipo de obra que Hollywood de 2026, como a de 2025, e possivelmente como a de 2027 e talvez daí em diante, não terá coragem de produzir.

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