Depois de cumprir vários anos de prisão por crimes de corrupção, Catello (Toni Servillo), ex-director de uma escola e com ambições políticas, vê na proposta dos serviços secretos italianos uma oportunidade de redenção: colaborar na captura de Matteo Messina Denaro (Elio Germano), o último chefe da Máfia siciliana, foragido há mais de 30 anos. O esquema passa por estabelecer contacto através de uma rede de correspondência manobrada nas sombras da comunidade daquela região; feita a “ponte”, Catello inicia um calculista processo de psicanálise através das palavras escolhidas em cada carta. O objectivo? Seduzir Matteo a evadir da sua oculta “fortaleza”, mas, quanto mais próximo Catello está do “derradeiro Padrinho”, mais intensa se torna a iminente “sensação no seu pescoço”.
Antonio Piazza e Fabio Grassadonia encerram a sua trilogia dedica às obscuridades de Sicília, movida por fantasmas, Máfia e laços de sangue e sanguinários. Nesta nova lombada persiste a memória de uma esquiva “pantera”, assim como toda uma rede de conexões e promiscuidades, envolta nas glórias passadas da chamada Cosa Nostra. Trata-se de uma obra de fim de vida, de despedida de uma era e de início de outra, desprovida do misticismo com que tantas vezes pintamos estas figuras, tão recorrentes e igualmente tão prestadas ao Cinema. “Iddu – L’Ùltimo Padrino” estreou nas salas de cinema portuguesas. O Cinematograficamente Falando … falou com os realizadores, numa breve conversa sobre a tragédia, o abstracto e o obsoletismo do dito cinema de Máfia.
Pelo que entendo a realidade foi um ponto de partida, não um ponto de chegada, e com isso parece-me que vocês afastaram-se da figura real de Matteo, também conhecido como “Diabolik” (referência ao famoso personagem da BD italiana), tornando-o num ser mais abstracto e quase mitológico. Era isso que procuravam?
Fabio Grassadonia: Podemos dizer que, para criar a percepção e a encenação que procurávamos, era fundamental conhecer bem o verdadeiro Matteo, a situação real que integrava e as personagens reais que o rodeavam. Aliás, tudo o que se vê no filme é com base na realidade: muitas das personagens e situações realmente aconteceram, e isso foi importante para nós porque nos permitiu entrar profundamente nessa realidade. O objectivo da nossa pesquisa era sobretudo transmitir a atmosfera, a natureza profunda e sombria deste mundo.
Porventura, algumas personagens, situações e temas abordados no filme acabam por adquirir, de certa forma, essa aura mitológica. São padrões que se repetem continuamente, sem possibilidade de mudança. É como se estivessem presos num espaço sem espaço e num tempo sem tempo. Um tempo condenado. Um lugar condenado.
Antonio Piazza: Além disso, essa percepção mitológica vem do facto de que o mundo do filme, o mundo de Matteo, é, de certa forma, o mundo do pai dele. O pai pertence a um universo ancestral — um patriarcado envenenado que moldou o mundo à volta de Matteo e da sua família.
Nos vossos filmes anteriores, “Salvo” (2014) e “Sicilian Ghost Story” (2017), estava evidente esse trabalho no foro atmosférico. Aqui, por sua vez, nota-se um equilíbrio maior entre realismo e uma abordagem mais fantasmagórica, especialmente representados nos sonhos da personagem de Toni Servillo. Gostaria que me falassem sobre as suas escolhas em adoptar esta abordagem, distanciar-se do poliziesco ou de modos mais realistas dos filmes de máfia, tendo em conta que Matteo é uma figura bastante popular em Itália, principalmente na região siciliana?
FG: A forma como contamos esta história nasce da correspondência real entre este político e Matteo enquanto ele estava em fuga. Ao lê-las, percebemos que havia tragédia nelas, e sim, também um certo absurdo, uma estranha comédia. Para nós, este filme é também o último passo da trilogia que estivemos a desenvolver até então. A Máfia e a sua influência são uma enorme tragédia, mas quando a tragédia se repete durante anos, deixa de ser apenas trágica, torna-se ridícula.
Essas cartas deram-nos a oportunidade de captar o vazio desse mundo, o absurdo de certas vidas e de certas peças fundamentais na sociedade. Por isso não quisemos seguir o caminho tradicional do cinema de máfia, acreditamos que já não funciona. Agora é apenas entretenimento. Antes disso, pretendíamos explorar algo mais profundo. Este mundo é violento, sim, mas igualmente obtuso, e o mais triste não é o chefe da máfia, e sim, todo o mundo à sua volta — toda a sociedade que permitiu que estas figuras moldassem o nosso futuro.

AP: Como nos filmes anteriores, usamos sonhos e pesadelos. Procuramos retratar um mundo em negação, não apenas o estado psicológico de um indivíduo, mas de toda uma sociedade. O que a sociedade é, não corresponde ao que ela diz que é. O realismo detém uma tradição muito forte em Itália, com o Neorrealismo e os belos trabalhos que daí geraram. Mas há um equívoco: o realismo é apenas um estilo, não é “a Verdade”. Pode ser tão falso quanto qualquer outro estilo. Muitos filmes policiais, que colocam bem e mal em lados opostos, estão na verdade mais afastados da realidade do que o que procuramos com os nossos filmes. Embora não usemos realismo literal, acreditamos estar mais próximos da Sicília de hoje do que outros filmes que usam o realismo como tom principal.
Sinto e talvez partilho que o cinema de máfia, tal como o conhecíamos, está a tornar-se obsoleto. O vosso filme parece marcar o fim deste género, até pelo título, “L’ultimo padrino” [“O Último Padrinho”], sugere essa declaração de ponto final de uma era ou a reinvenção de outra?
FG: Sim, o que dizes é, para nós, o ponto principal. Este filme é, de certa forma, uma espécie de paródia do género, e convenhamos, vivemos numa paródia da própria realidade. Também numa realidade paradoxal, este filme representa de alguma maneira. Para nós, é o final. Se vamos usar o género, temos de questionar o próprio género. É preciso trabalhar contra as expectativas do pastiche. Caso contrário, a narrativa torna-se apenas entretenimento, dá-te a pergunta e dá-te a resposta. Nada disso, é preciso questionar a forma como contamos a nossa história e perceber o que está para lá das palavras das personagens.
Porque, neste tipo de realidade, as personagens usam as palavras apenas para mentir. A verdade não está no Verbo. Alguns vislumbres de verdade podem surgir nos pesadelos, nas memórias, nas relações, e através da acção e da interacção. Este é um espaço completamente vazio. São almas realmente vazias e perdidas, sem qualquer possibilidade de mudança.
AP: Há também uma razão social: o género deixou de funcionar porque a própria máfia mudou. Ainda existe, mas os limites entre o que é máfia e o que não é são difusos. O mesmo acontece com a economia legal e ilegal. Hoje fala-se até de Cosa Grigia [“coisa cinzenta”], o mundo dos negócios à volta da máfia, que é ainda mais poderoso e mais difícil de representar — não há sangue, nem balas, e nem por isso menos perigoso, pelo contrário.
Queria que comentassem uma frase neste vosso filme: “os prisioneiros são a maior população leitora de Itália”.
FG: Infelizmente, é verdade [risos]. Cada vez menos pessoas leem e muitos perdem a capacidade de compreender profundamente o que leem. Há mais escritores do que leitores [risos].
Por outro lado, muitos mafiosos, na prisão, aproximaram-se da leitura e da educação. Alguns até obtiveram graus académicos. Para nós, é um paradoxo interessante, usado por Catello para comentar a sociedade de forma inteligente.
Falando em Catello, como chegaram Toni Servillo e Elio Germano a “bom porto” a este projecto?
AP: Na verdade, desde o início, desde o primeiro tratamento, partilhámos o projeto com o nosso produtor, Nicola Giuliano, da Indigo Film, e desde logo sabíamos que precisávamos de dois grandes actores para os papéis. Esses foram os primeiros nomes que nos surgiram, porque o Catello é, de certa forma, uma máscara. Queríamos alguém capaz de “actuar duas vezes”, porque o Tony interpreta o Catello, e este está sempre a interpretar uma outra pessoa. Sempre fingindo ser alguém diferente. O Elio Germano, por outro lado, é muito conhecido pela sua capacidade de realmente encarnar o personagem. Ele estuda muito, a linguagem, o detalhe mais ínfimo. Por isso, propusemos-lhes o projeto e eles aceitaram desde o início. Acompanharam o desenvolvimento do guião de várias formas. Estiveram connosco desde o primeiro passo do processo criativo. Quando estávamos a escrever o guião, pensávamos constantemente neles, o que nos ajudou imenso

Enquanto isso, o vosso filme sugere, de forma subtil, uma cumplicidade entre Estado e Máfia.
FG: Se a Máfia se tornou tão poderosa, é porque houve cumplicidade, seja com políticos, autoridades e outros, especialmente na Sicília. É uma verdade dura e triste.
AP: No caso de Matteo, tentou-se criar o mito de um génio inacessível. Mas ninguém fica 30 anos foragido sem proteção.O esconderijo dele ficava a poucos quilómetros da sua terra e apenas 100 metros de uma esquadra. Toda a aldeia era vigiada, e só ele escapava. Só após a prisão apareceram imagens de segurança dele no supermercado, por exemplo. Simplesmente ridículo.
E quanto a novos projetos? Continuarão a trabalhar em equipa?
FG: Sim. Com esta trilogia encerramos a exploração de um certo mundo ligado à Máfia e à experiência siciliana. O próximo projeto será diferente, talvez fora da Sicília, quem sabe.
AP: Continuamos a trabalhar juntos. Acabámos de escrever um guião para outros realizadores e estamos a desenvolver o nosso próximo filme.
Para uma última pergunta, talvez mais curiosidade que outra ‘coisa’, e tendo em conta que o filme abre com o aviso “inspirado em factos reais, mas muitos personagens e situações são fictícios”, ou seja, a estátua que vemos, o Iddu, existe mesmo?
FG: Sim, existe, e a história do seu passado é verdadeira. Hoje ela está num museu municipal da aldeia de Matteo …
AP: … Castelvetrano. Posso garantir que quase todos os detalhes do filme são reais, mesmo os episódios que soam mais absurdos. A história do puzzle, por exemplo, é verdadeira. Ele chegou mesmo a escrever à fábrica a pedir a peça que faltava.
Assim como a da escola e do trabalho do filho. Só que na realidade ele tinha uma filha …
FG: A filha também se queixava à professora sobre o trabalho. Ou seja, tudo verdadeiro.

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