“O Massacre de Gilles de Rais” perpetua os medos de muitos detractores de uma ideia de primitivismo cinematográfico, outrora alinhada com os gestos de Pasolini, transgredindo a forma e aludindo à provocação; contudo, o que encontramos nesta obra de Juan Branco, filho do produtor Paulo Branco, é fruto de principiante ambicioso, numa primeira incursão que verga sobre os escritos traduzidos por George Bataille, ostentando o adjectivo de infame no cartão de visita, centrando-se no julgamento de Gilles de Rais, chefe militar da armada de Joana d’Arc na Guerra dos Cem Anos, mais tarde condenado por crimes horrendos, figura tida como o primeiro serial killer nesses domínios, tendo inclusive inspirado o “Barba Azul” dos contos recolhidos por Charles Perrault. Contudo, a autoria desses crimes começou a ser contestada, sendo apontada como conspiração e violação orquestrada do carácter de Gilles de Rais.

Aqui, na obra com que Juan Branco nos brinda, não se oferece uma reconstituição desses eventos, mas antes a personificação e performatização desses escritos, num registo que se estende à imaginação e ao poder do Verbo; aqui, dois actores, João Arrais e Inês Pires Tavares, encenam o julgamento e, nas entrelinhas, regressando a uma contemporaneidade espiritual, deleitam-se na desconstrução dos dilemas brotados dessa exorcização. Contudo, por mais pleno que Juan se apresente em determinados momentos, seja numa cena num picadeiro ou noutra banhada pelo sol em posição de retirada, é na sua secura que se evidenciam mãos ainda pouco calejadas para o efeito.

O realizador preocupa-se em demasia com a estética (como primeiro trabalho, há o impulso de demonstrar rigor formal), porém Pasolini, por quem o próprio revelou admiração, abraçava com profunda convicção esse primitivismo e o brechtiano, dispondo a estética na naturalidade despojada e não na imposição, pontuando-se como um gesto anti-formalismos ditados por um certo “cinema burguês” (o que não é o caso deste “Massacre“, quem tem fascínio nos padrões burgueses). Por outro lado, essa exigência sufoca excessivamente os seus actores, que, mesmo servindo de bonecos à sua lógica, poderiam brilhar mais e, como por vezes acontece, como por exemplo, Inês Pires Tavares, pediam-se outras arenas. Infelizmente, tudo ressoa a filme de escola e, para um trabalho inaugural, tal não é, de facto, um bom sinal.

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