A controvérsia em torno de “Spetters” (1980) levou ao bloqueio de fundos e apoios holandeses para a financiar as suas obras, como alternativa, Paul Verhoeven começou então a cobiçar o “sonho americano”, nomeadamente a sua indústria, avançando devagar, de forma calculista, passo a passo. Assim, integrou-a, ainda que parcialmente, por via de uma co-produção, “The 4th Man” (1983), objecto quasi-hitchcockiano que serviria de ensaio para o seu futuro “Basic Instinct” (1992); mas seria com “Flesh + Blood”, em 1985, que tentaria a inclusão do inglês como língua falada (talvez bilhete dourada para a sua ida às terras do Tio Sam), mesmo contando com os seus habituais colaboradores, o argumentista Gerard Soeteman e o actor Rutger Hauer

Uma variação medieval, como se percebe na sinopse, inspirada numa série televisiva do próprio Verhoeven, “Floris”, também com Hauer como cabeça de cartaz, piscava o olho à moda “sword & sorcery” que então pairava na indústria americana. Não concretizou, porém, esse intento: “Flesh + Blood” foi um insucesso e, para alguns, a culpa residiu na sua temática burlada (não se tratava de um filme de fantasia à luz de Conan ou “Ladyhawke”) e também no facto de ser incapaz de oferecer um herói por quem os espectadores poderiam torcer. Felizmente, o culto que se seguiu revelou-se frutífero para a carreira verhoeviana, a par da sua curiosidade em conhecer e dar-se a conhecer no sistema americano, passagem que, como bem sabemos, seria ingrata. Por mero trivia, Arnold Schwarzenegger, por sua vez, declarou-se admirador da obra, o que poderá ter alavancado a futura colaboração no rasgo à la Philip K. Dick, “Total Recall”.

Mas de que trata, afinal, “Flesh + Blood”? A história decorre algures por volta de 1500, prometendo medievalismo, embora, por outro lado, se situe já nos finais do Renascimento, tempo de exaltação humanista, de valorização da ciência e de outras artes, de recuperação do pensamento clássico greco-romano, à luz dos engenhos e do progresso em várias frentes por vir; contudo, Verhoeven não desenha esse quadro: as trevas ainda habitam o coração destes homens, na sujidade fora dos centros de desenvolvimento civilizacional. Sabemos desse renascimento porque Leonardo Da Vinci é mencionado com admiração pelo filho do senhor feudal (recordando que o feudalismo foi uma das vítimas da corrente renascentista) tendo o nome de Steven (o actor australiano Tom Burlinson), que contesta constantemente o seu ambiente, feito de protociência ainda embrionária, de obscurantismo governado pela fé imperativa e de uma medicina igualmente rudimentar. Ainda assim, ele é apenas uma peça desta engrenagem que gira em torno de Martin (Rutger Hauer), mercenário que, após ter sido enganado, como muitos outros, pelas promessas de riqueza de um lorde em vias de reconquistar o seu reino, delineia, através de sinais e profetizações de um falso bispo e de uma danificada estátua de São Martinho encontrada no lodo, o seu destino divino, acreditando ser um santo segundo a lógica destas ocasiões, sinais e infortúnios; os seus seguidores partem com ele na tentativa de concretizar a promessa defraudada de ouro e conforto.

Poder-se-ia pensar que toda esta reconstituição, nunca vergada ao lugar-comum do Renascimento, não passa de indiferença perante uma obra de entretenimento feita de lâminas, violência e rodriguinhos medievais, mas falamos de Verhoeven, um entrepreneur, simultaneamente provocador e inclinado a criar objetos de significado oculto. A sua estadia em Hollywood provará esse lado burlão, por vezes mal interpretado e encostado ao “primário”. O Renascimento de Verhoeven é uma ilusão, um gesto de ruptura com a ideia de progresso e de limpeza dos pecados anteriormente cometidos sob a austeridade cultural da chamada Idade das Trevas; o humanismo, por exemplo, é algo que aqui não abunda. Os vícios e a infecciosidade dessas eras persistem no coração destes seres, insolentes face aos ideais de Deus, interpretando a sua vontade como bem entendem: as violações são “costume”, a morte uma eventualidade, a peste negra um medo ainda não ultrapassado (apesar de o auge da praga ter ocorrido séculos antes) e, por fim, o culto de um “messias”, o santo como figura padroeira dos maus ânimos humanos (Verhoeven regressaria a esta temática, porém com outras costuras e propósitos, em “Benedetta”, em 2021). No fundo, trata-se de um filme sobre a forma como a Religião se mantém como um atraso civilizacional mesmo em períodos que exigiam um novo capítulo, cuja resistência e contágio moral (alimentando-se da desgraça alheia e da martirologia) impossibilitam esse avanço, esse abraço com um Renascimento já em decadência.

Um improvável double bill seria com “Viridiana” (1961), de Luis Buñuel, precisamente num momento em que, na obra do espanhol, os “miseráveis” invadem a casa fidalga, apoderando-se das posses e invocando a sua desgraça pessoal como equivalência a Cristo (assim como a sua imagética sacra), para depois cometerem actos horrendos em nome de “gente de bem”; ora, em “Flesh + Blood”, estes “porcos, feios e maus”, liderados por Rutger Hauer e sob a devoção do seu santo decadente, invadem um castelo, expulsando os seus moradores das formas mais inglórias possíveis e apoderando-se de um nutritivo banquete (como em “Viridiana”), plebeus em pele de lordes fingidos, o que poderia sugerir uma preservação da higienização classista, das castas que, anos e anos, sustentaram a ideia de homens sobre homens, de privilegiados sobre não privilegiados; contudo, a intenção, por mais maleável que seja, não é essa: Buñuel Verhoeven, nos seus próprios dialectos, afirmam que a pobreza não garante superioridade moral, porque o contacto com o poder, seja imaterial ou material (como neste caso), conduz à degeneração espirituosa. Um beato diria isso, e, no entanto, como tantas revoluções demonstram, assim tem sido.

“Flesh + Blood”, é um pseudo-épico simultaneamente moral e amoral, vestindo a pele de fantasia medieval, fiel ao evangelho de Verhoeven, onde nem tudo é o que parece. Depois disto, e com maiores desafios, o realizador parte para Hollywood, não com uma mão à frente e outra atrás, mas confiante… Resultado? “Robocop”! Sátira ao corporativismo com generosas doses de ultra-violência!  

O filme será exibido na iniciativa Passos no Escuro, [Porto], no dia 19/03, pelas 22h00 (mais informação aqui)

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