Fantasias declaradas de fazer explodir a metrópole paulista são, para já, meras confissões numa mesa de um bar, um desabafo que tenta dar resposta ao estrangulamento social imposto por essa ordem a que chamamos modernidade capitalista, vendida sob o lema sedutor do “ser o que queremos”, mas sem a devida leitura das “letras pequeninas” em rodapé, onde tudo depende de uma prévia condição de classe ou de uma herança inscrita nos genes, sendo apenas alguns (as elites) autorizados a usufruir de tais promessas de sonho. Gildeane, ou simplesmente Gil, assume-se como múltipla — várias mulheres contidas num só corpo (imigrante, faxineira, cantora, poeta) — vivendo na sombra da sua própria potencialidade e dos desejos adiados.

Do outro lado da barricada, Maria Clara Escobar, que já despertara atenção em “Desterro” (2020), regressa aqui movida por uma espécie de inquietação criativa, corrompendo oxímoros sociais ao som improvável do Trio de Odemira, procurando na pele, na voz e na cadência com que Gil se move um filme possível, encontrando, ao invés disso, uma investida contra o próprio acto de representar, um confronto com o ficcional e com o documentário enquanto suposto espelho inquestionável do real (afinal, o que é a realidade nestes tempos?).

Ao Cinematograficamente Falando …, a realizadora abordou o processo de “Explode São Paulo, Gil”, a relação construída com a protagonista e o Brasil que ambas foram atravessando até aqui.

Gostaria de começar pela questão geral, a génese e o seu processo: como partir a ideia para a figura de Gil? E que olhar pretendeu sob a sua figura, e se é que ela alterou durante o processo?

É sempre desafiador para mim explicar como um filme nasce, porque acredito que ele nasce, pelo menos em mim, quando alguma série de coisas se unem e se torna impossível não o fazer. Ou seja, não é só uma ideia, ou só um sentimento, é uma confluência de coisas que fazem o filme tomar corpo dentro de mim, e a partir daí ficar tão grande a ponto de fazer sentido lutar para que ele exista. 

Conheci a Gil já há mais de 13 anos, e nossa relação se iniciou primeiro como uma relação de trabalho. A Gil tinha trabalhado muito tempo como costureira de fábrica, e há poucos meses estava a tentar a vida como faxineira diarista (como se diz no Brasil, quando a limpeza é feita e paga por dia, sem relação contratual de trabalho estabelecida).  Nesse emprego ela podia pelo menos escolher mais ou menos os patrões e negociar horários. Ela e a Dedê [esposa] trabalhavam juntas, e achei-as incríveis, por isso, as indiquei para um “monte” de pessoas. A Gil viveu um momento em que a agenda dela era cheia de trabalho, e em alguns desses contatos entre nós, fiquei a saber do sonho dela. Em algum momento desse caminho, estive sem trabalho, a enfrentar as agruras de ser freelancer, não ser herdeira, e querer fazer algo muito específico, tendo misturado ao longo do caminho trabalho e sonho. Nesse momento, telefonei para a Gil e expliquei a situação e perguntei se ela me passaria algumas faxinas, já que sabia que ela não estava dando conta de toda gente. Ela respondeu-me na hora: “mas você não nasceu para fazer faxina!” Ao que também automaticamente retruquei: “e você, nasceu?” Ficamos as duas em silêncio e acho que em parte o filme nasceu daí.

Por outro lado, já a saber do sonho dela, em algum momento acabei por ganhar um fundo que há muito esperava para realizar o meu filme “Desterro” (também uma coprodução Terratreme e Filmes de Abril). Éramos todos uma equipa nessa época, estivemos a trabalhar por três anos antes de ter mesmo dinheiro para fazer um filme, e tínhamos um cineclube mensal em minha casa. Era 2015, e o ano no Brasil era bem específico também – ano anterior ao golpe que foi dado na Presidente Dilma, que antecedeu a entrada de Temer, a eleição dupla de Bolsonaro e a pandemia. Então, quando ganhamos o fundo, pensei, bom, talvez tenhamos o recurso [humano] para entre o trabalho do “Desterro” e entre os trabalhos da Gil, começar a fazer um filme. O desejo maior era fazer um filme no qual ela pudesse ser o que quisesse. Acreditava muito na potência de que a experiência de ser algo em fabulação podia ser igualmente forte, e muito libertador. 

Quando propus o filme para ela, aceitou na hora. Propus então que filmássemos as nossas negociações sobre o que filmar, já que ainda não sabia o que seria realmente o filme. Não tinha medo de mostrar essa questão da nossa relação que sempre se daria nesse limiar: uma relação entre pessoas diferentes, decididas a ter uma relação, cometer algo juntas. Na verdade, queria mostrar isso, na possibilidade de uma relação que não precisa ser plena, mas que existe, também em seus desencontros. Além disso, na época estava convencida de que o problema do Brasil era a central do Capital: São Paulo, e queria explodir a cidade.

Maria Clara Escobar

Bom, com isso, tivemos aquela primeira conversa em que ela levanta a questão de que quer que apareça, que haja a ausência dela, e em que se cogita de forma a cruzar realidades, como seria explodir não São Paulo, mas Brasília

Há um momento muito revelador na cena do karaoke em que, subitamente, o filme parece alinhar-se com a energia da Gil, como se a própria mise-en-scène encontrasse finalmente a cadência da sua voz e da sua presença. Sentiu que o filme precisou de um tempo de “escuta” para final “ler” e “interpretar” Gil diante da câmara?

Sou uma pessoa de grandes introduções, nos filmes, nos emails, nas conversas. Gosto de ter diálogos em que as pessoas saibam de onde e com quem estão a falar, acho mais justo. Pronto, acho que por isso faço filmes como faço, e por isso faço introduções, mas alinhar-se a energia da Gil, fazer o filme alinhar-se com ela, e viver aquela experiência com ela era o principal. O filme só faria sentido se em nenhum momento a Gil se tornasse apenas objecto, e sim sempre tivesse essa duplicidade de sujeito e objecto. Por isso, tudo o que ela propunha tornava-se também experiência e assim acabou por assinar guião comigo.

Sobre o tempo, as próprias condições fizeram-nos fazer um filme que levasse dez anos. Portanto, o filme foi se modificando em alguns aspectos de forma orgânica, assim como nós, pessoas que faziam aquele filme. Houveram divórcios, agravamento de doenças, o desmantelamento do Brasil, entre outras coisas. Não acho que era difícil entender ou sentir o que é a energia da Gil, pois a amo e somos próximas, mas para mim era importante que ela se visse no filme, e que também me visse ali. Essa foi a química trazida na montagem.  E claro, passados dez anos, entender o que resistia disso tudo. Por isso acho que o filme tem também esse aspecto de documentário sobre duas pessoas tentando se manter vivas, e em contacto com seus desejos. 

Por último, considero que o tempo, por vezes na hora em que acontece parece nosso inimigo, mas depois se revela parceiro, ajudou-nos também, lentamente empoderar-nos de sermos aqueles corpos, de estarmos diante das câmaras.

Ao longo do filme, a Gil afirma-se através de múltiplas identidades (imigrante, faxineira, cantora, poeta) que poderiam facilmente resvalar para uma caricatura, sobretudo num retrato urbano como o de São Paulo. Como foi o processo de construir um olhar que mantivesse essa complexidade sem reduzir a personagem a um conjunto de rótulos, ou até mesmo a somente classe?

Acredito que grande parte do meu trabalho é este, de buscar uma forma com que o ser mulher, essa coisa que é sempre vista como um não-algo; Ou seja, um ser que não é um homem, que vive em um mundo e em um sistema que não é feito para si, etc; não tenha como única possibilidade a melancolia; Que ao invés de ficarmos no lugar de querer ser outra coisa, buscando uma integridade ou completude total, possamos abraçar esse estado transitório – nem isto nem aquilo – como possibilidade de algo potente. A Gil é uma mulher que não pára, dá pra ver pelo próprio corpo dela. É também uma mulher que tem uma doença na qual as crises resultam em descargas elétricas por todo seu corpo. É uma artista. Ela é várias coisas. 

Em um mundo que se diz: “eu SOU dentista“, “eu SOU cineasta“, parece-me fazer mais sentido ainda combater esses lugares do “ser” como lugares fixos. Somos no movimento de tentar ser.

Em vários momentos, sobretudo quando a música entra em cena, o filme parece aproximar-se de uma ideia de performance, não apenas da Gil enquanto cantora, mas também da própria Gil enquanto figura que se encena diante da câmara. Interessa-lhe esse território ambíguo entre autenticidade e representação dentro do documentário?

Completamente. É porque essa ideia de real contra representação vem compactuar com um modelo de mundo que não nos serve mais. De ideais, imagens, seres, fixados, rígidos, autoritários. Ou seja, a Gil não precisa “se tornar” cantora, porque ela já é. Na medida em que pode exercer ser cantora, vai entendendo quem quer ser, quem quer experimentar ser. Acredito que o lugar ambíguo já existe, na verdade, mas o cinema, por algum motivo estranho, parece muitas vezes servir ao discurso de que não. E esse não é o tipo de cinema que quero fazer. 

Explode São Paulo, Gil (2025)

Em “Desterro” falava muito dessa ideia de “destruir a casa”: a casa enquanto estrutura simbólica, familiar e patriarcal. Em “Explode São Paulo, Gil” encontramos novamente uma figura feminina que existe num território de instabilidade, entre o trabalho precário, a performance e uma certa errância urbana. Vês este novo filme como uma continuação dessa investigação sobre personagens que procuram escapar a um lugar social previamente escrito?

Com certeza, porque se nós mulheres aceitarmos o papel social através da mensagem que o mundo nos manda, o que nos resta? Morrer. Por isso, para que eu e outras mulheres possamos existir – corpórea e existencialmente – é necessário pensar em outras possibilidades. De habitar as cidades, de falarmos sobre o que sentimos e até que, radicalmente, mudemos a realidade por completo. Até que “ser ou não ser” não seja a questão. 

Uma das coisas que mais chamava a atenção em “Desterro” era essa vontade de quebrar o conforto do espectador: “se está a parecer bom, vamos fazer o oposto”, dizia na altura sobre o processo de montagem. Em “Explode São Paulo, Gil”, porém, há momentos em que parece ser a própria presença da Gil (sobretudo quando canta) que reorganiza o filme à sua volta. Sentiu que desta vez o gesto de desconstrução formal teve de ceder espaço à força muito concreta da personagem?

É curioso essa afirmação, porque vejo no “Explode São Paulo, Gil” muitos momentos de ruptura: de realidades, de variações de tempo, que também trazem esse lugar do “Desterro”, que penso que não é bem contra o conforto, mas contra a possibilidade de não estar presente. Ou seja, o filme chama-te e talvez até exija que participe e esteja mesmo ali, uma vez que se propôs a estar. No “Desterro” temos também imagens mais longas, como por exemplo a imagem que abre o filme, a imagem final, a imagem do Israel (Otto Jr.) no carro. Enfim, talvez a diferença seja que no Desterro as longas imagens são imagens onde se desmascare a encenação e no “Explode São Paulo, Gil”, seja onde abraçamos a encenação. Se no “Desterro” a encenação da normalidade, da placidez, era algo a ser destruído, no “Explode São Paulo”, talvez a encenação já seja em si a destruição do mundo que não queremos. Mas é preciso dizer também que o filme é feito principalmente, desde o início, para que Gil pudesse ser o que ela queria ser: cantora, e, portanto, o filme pára para vê-la o ser. Também, porque é lindo vê-la cantar, e espero que todo mundo possa ver quão lindo que é. 

Na nossa conversa em 2020 falou também da importância de filmar o trânsito, esse estado de atravessar territórios físicos e simbólicos. Em “Explode São Paulo, Gil” esse trânsito parece acontecer dentro da própria cidade, mas também entre identidades (faxineira, cantora, poeta, migrante). Interessa-lhe cada vez mais esse tipo de personagem que existe num permanente estado de reinvenção?

Sim. É por isso que quando as pessoas diziam que o “Desterro” é um filme triste, desesperançado, sempre reagia; porque para mim, pode ser um filme enlutado, mas ele é esperançoso. Para mim, o que me dá falta de esperança é ver um mundo fingindo que não há um genocídio na Palestina, ou fingindo que não estamos destruindo nosso meio ambiente em nome de “conforto” individual. Negar os conflitos, negar o que há de complexo em nós, tem levado-nos somente rumo à destruição perpétua. Portanto, essa ideia de higienizar, de defender modelos fixos de mundo, de família que passa valores através de genes, já deveria ter sido identificada como algo que não nos faz mover, pelo contrário, nos faz afundar, e que, portanto, não deveria nos interessar defender. 

O que relações poderá contrair ou ter “Explode São Paulo, Gil” no contexto político actual brasileiro?

O filme tem ressonância de forma geral em termos de contexto político. Não só no Brasil, que iniciou o ano de 2026 com índices recordes de feminicídio, e segue tendo suas taxas de abuso infantil e violações em crescimento, mas também de lugares como Portugal que tem uma direita extremista em ascensão, ou mesmo Estados Unidos que nesse momento prende e expulsa todas as pessoas que considera por fenótipo “diferentes”. Nesses lugares, o que está em disputa e é utilizado para extermínio são os conceitos de, por exemplo: homem (fixado) x mulher (fixado), imigrante x “original” do lugar, entre outras coisas, estranho x familiar; ou seja, quando estamos falando de Gil e das questões que nos atravessam estamos falando de cinema, mas estamos falando também de questões muito sérias, como de buscar formas para que o diverso / múltiplo / diferente seja reconhecido  dentro e fora de nós, e que a única resposta aos desencontros não seja o extermínio.  

Desterro (2020)

Continuando nos tais diálogos de 2020, mencionou-me um projecto que tinha como título “O teu silêncio não te protegerá”. O que é feito desse trabalho, ou se porventura o seu “Dolores”, estreado em San Sebastian, é a metamorfose desse projecto?

Esse projeto mudou de nome, agora se chama “Meu Nome Não Chega”. Estamos na luta para financiá-lo, a lutar com a escassez de editais que premiem filmes de produtoras independentes e/ou com investigação de linguagem no Brasil, e a lutar pelo reconhecimento de Portugal de que sou também portuguesa, como os outros portugueses, (afinal o sou e trabalho aqui há mais de 15 anos) e assim possam me considerem a sério na competição pelos seus fundos e prémios em dinheiro. 

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